Os ilustradores russos que você (muito provavelmente) nunca conheceu

Em um telegrama para o então presidente americano Harry Truman, em 1945, Churchill declarava:

“Uma cortina de ferro é colocada sobre o front deles [soviéticos]. Nós não sabemos o que se passa por trás”

E assim foi.

Essa “cortina de ferro” foi o carinhoso apelido da divisão que ocorreu na Europa após a Segunda Guerra Mundial. De um lado os EUA liderando a NATO e, do outro lado, os Russos à frente do Pacto de Varsóvia.

A divisão tomou ainda caráter de separação física na Alemanha, quando o muro de Berlin dividiu a cidade em duas metades, intensificando o conflito entre os soviéticos e os demais aliados, como a França, Inglaterra e os próprios Estados Unidos.

O bloqueio que aconteceu não se restringiu ao campo político e econômico. Uma polarização cultural também aconteceu, criando a necessidade de cada um dos grupos opostos em ressaltarem a sua supremacia e influenciarem a opinião pública. Enquanto os russos dominavam as artes performáticas, como o balé e o teatro, os norte-americanos dispunham da melhor produção cinematográfica.

Os EUA dominavam a produção de filmes e se apoiaram fortemente no cinema para transmitirem seus ideais durante a Guerra Fria

Um breve momento de desestalinização aconteceu na União Soviética entre 1950 e 1960 com o chamado Degelo de Khrushchev. Esse período foi um respiro quando muito da cultura ocidental pôde encontrar espaço entre os russos. Com a retirada de Nikita Khrushchev do poder em 1964, grupos comunistas conservadores reverteram as medidas praticadas durante o degelo.

Tudo isso foi determinante para criar uma ignorância generalizada do ocidente com relação à arte russa. Conhecemos pouco a respeito de grandes artistas, inclusive aqueles que vieram bem antes da Guerra Fria como Ivan Aivazovsky (1835–1899), um verdadeiro mestre na representação de luz e sombras, chegando a produzir cerca de 6.000 pinturas.

Shipwreck, 1854, Ivan Aivazovsky

Essa distância não ficou restrita ao período da Guerra Fria, que terminou com a extinção da URSS em 1991. Boa parte do ocidente se desinteressa por pesquisar sobre a ilustração russa e se contenta com as boas e velhas figuras carimbadas como, por exemplo, Norman Rockwell e Leyendecker.

Não desmerecendo esses fantásticos artistas, mas nunca é demais ampliar nossos horizontes.

O simples fato de criar a lista a seguir já foi uma tarefa difícil. As bibliografias de ilustradores russos são raras até mesmo na internet de hoje em dia.

Vamos então a alguns dos ilustradores que eu tive o prazer de conhecer o trabalho:

Nadezhda Illarionova

Pouco se pode encontrar a respeito dessa artista, nascida em Moscou em 1985. Sua presença oficial online se resume basicamente a seu flickr.

A preferência de Illarionova é pela ilustração de contos de fadas clássicos, como os dos irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Perrault entre tantos outros.

As formas quase indefinidas dos seus trabalhos garantem um clima onírico, muito adequado para suas representações de seres fantásticos e folclóricos. Sua representação de texturas também chama a atenção pela qualidade e detalhamento, criando uma verosimilhança que dialoga bem com a linguagem pictórica de suas composições.

Pavel Tatarnikov

Pavel Tatarnikov nasceu em 1971 em Brest, na Bielorrússia. Atualmente vive na capital, Minsk. É possível ver todos os prêmios que o artista já recebeu em seu site.

O artista já ilustrou diversos contos clássicos, como o do Rei Arthur, e também histórias de Shakespeare, como Hamlet e Rei Lear.

Seus trabalhos tem forte influência da arte medieval em geral, mas mais especificamente das iluminuras que se encontravam nos livros daquela época. Tatarnikov popula suas ilustrações com os simbolismos medievais e chega a trabalhar com perspectivas irreais que também eram muito presentes em períodos pré-renascentistas.

Ivan Bilibin

Representação de Baba Yaga por Ivan Bilibin

Ivan Bilibin (1876–1942) foi um ilustrador que nasceu em São Petesburgo. Em suas viagens pelo norte da Rússia, o artista acabou se interessando muito pelo folclore eslavo, chegando a escrever uma monografia intitulada Folk Arts of the Russian North.

Isso teve um impacto sobre sua carreira e, direta ou indiretamente, suas ilustrações tinham influências da mitologia russa.

Seu trabalho como cenógrafo também garantiu um ar de teatralidade para todas as suas produções artísticas, dando a impressão de que todos os elementos em suas composições foram meticulosamente posicionados.

Representação de Koschei, o Imortal, por Ivan Bilibin. Koschei é outro personagem do folclore eslavo

Nika Goltz

Nika Goltz nasceu em 1925 em Moscou. Responsável por ter ilustrado mais de 100 livros infantis, a artista tem o status de Artista Honorária da Rússia. Em 1956, seu primeiro livro ilustrado foi O Soldadinho de Chumbo, de H. C. Andersen e, desde então, ficou declarado seu amor por este que era seu autor favorito.

Seus trabalhos são ao mesmo tempo simples e impactantes. Essa simplicidade é perfeita para universalizar suas ilustrações, sendo facilmente compreensíveis por qualquer pessoa.

Sua maior proeza parece estar nos seus contrastes entre escuros e claros. Nika consegue definir suas formas utilizando essa dinâmica de contrastes de maneira genial.

Isso aliado ao fato de que suas ilustrações parecem estar em constante movimento, pelas linhas que, ondulando, atravessam algumas de suas composições.

Gennady Novozhilov

Gennady Novozhilov (1936–2007) nasceu em Moscou e se graduou em artes pela Moscow High School of Arts.

Fez cursos de animação no estúdio Soyuzmultfilm, onde realizou diversos filmes. Além de pintor, ilustrador, cartunista e animador, Novozhilov era também autor, mostrando a versatilidade do artista.

Essa versatilidade também se mostrava pela variedade de técnicas diferentes que o artista usava para criar suas ilustrações.

As silhuetas de seus personagens são sempre muito bem definidas e distintas, com bordas marcadas e um bom equilíbrio entre ângulos e curvas.


Esses são só alguns poucos exemplos que cabem em um post, mas existem milhares de ilustradores para encherem livros e mais livros.

Nos traz um alívio conhecer artistas com tanta personalidade como esses em meio à massificação estilística que acontece hoje.

Saindo da mesma caixinha de referências a que temos sempre acesso, vamos encontrar experiências visuais novas, que nunca deixarão de nos maravilhar e inspirar.