Ainda dói em você

Passos delicados e cabelos amendoados soltos ao vento quente de um verão já fugidio. Eu nas sombras contemplando o brilho de sua tez. Não sei por que ela ainda me surpreende tanto. Era um sonho dividido em três camadas.

Na primeira, você deslizava na claridade crua, linda como nunca, enquanto eu me escondia nas sombras à distância com medo de sentir seu aroma. Você vinha, e eu caminhava no sentido oposto. Parava e observava. Te evitava à espreita de um tronco de uma árvore qualquer e, assim, sucessivamente.

Na segunda camada, estávamos em minha casa de campo, onde cresci. Onde uma substancial coleção de memórias queridas se abriga sob os frutos de algumas frondosas jabuticabeiras. No sonho, a casa era sua. De repente, estávamos na suíte principal e transávamos. Suor, prazer e eu sempre mudo. Do início ao fim. Quando acabamos, eu estava sentado na cama, você ajoelhou-se ao meu lado e fitou meus olhos, como se percrustando pela minha quintessência.

“Ainda dói em você?” perguntou-me quase afirmando. Minha feição lacônica desarmou-se prontamente e, lá, eu permaneci prostrado por um tempo indefinido. Minutos, talvez horas, enquanto você lambia ternamente minhas feridas.

Na terceira camada, eu me desvencilhava dos seus braços e partia. Você me observando, mas sem ação. A casa às minhas costas cada vez mais distante. O sol poente em minha nuca. Descia a ladeira a pé em direção ao portão de madeira tão familiar que, no sonho, era seu também.

Suas palavras ecoando em minha mente…

“Ainda dói em você”