
Dicotomia
Ontem à noite em meu quarto quis chorar. Pela dor de um pesadelo demasiadamente real. Levantei-me e arrastei-me até o espelho do banheiro. Em meus olhos a solidão, mesclada com a fúria colérica que sinto contra os deuses. Que glória viver em eterna guerra contra esse algoz onipresente.
Talvez a causa desse pesadelo tenha sido minhas leituras sobre a consciência. Então, venho escrevendo um pouco e deixando algumas idéias decantarem em meu cérebro com suas sinapses afetadas. Só que não há mais como recuperar meu antigo eixo. Sou passageiro de um trem descarrilado e muitos ainda se juntarão a mim. De estação em estação. De cidade em cidade.
Tento afogar-me no seu olhar de pele alva e buscar um refúgio. Mas não escapa dos meus tímpanos o choro silencioso do mundo. Reverberando tristes canções nas paredes gastas de prédios abandonados; através de becos insondáveis nos meandros de meu corpo.
Vejo de relance — voltando pra casa — um outdoor com a promessa de uma vida brilhante, o qual me gera uma melancolia imensurável, porque faz-me lembrar de nós dois e que já não temos mais nada.
E há tantos carros no cruzamento destas ruas. Parece um encontro de rios de almas. Mas que porra de almas? Somos ninguém. Apenas avatares de uma força vil e desconhecida. Anões de enfeite nesse jardim de aflições.
Preso nesta dicotomia de pensamentos contraditórios, tudo que queria era evaporar de uma vez.