Eu sempre tive a impressão de que viemos ao mundo para sermos espectadores. Digo isso talvez por ter mais sensibilidade como apenas um bom observador, me pego diversas vezes apenas prestando atenção em coisas ao meu redor do que necessariamente me ocupando com coisas mais ou menos importantes.

Por exemplo, para mim, existem situações que acontecem somente para um espectador. Aquele tipo de situação que só você viu e que mesmo se contasse para os outros, nunca chegaria tão perto da sensação que foi presenciar tal cena.

Certa vez, há muitos anos, eu estava saindo da academia que ficava na região dos jardins paulistas. Um pouco mais para baixo da Alameda Santos próximo da Hadock Lobo. Naquele pedaço, especificamente, existem diversos condomínios de luxo. Aquela região é uma das mais caras da cidade. Naquela manhã, sem nenhum motivo, eu olhei para cima e vi que em um dos últimos andares do prédio um casal transava loucamente na varanda. Era tão alto que eu mesmo não sabia dizer se eram dois homens, duas mulheres, mas pelo padrão, parecia ser um casal heterossexual.

Independente de quem penetrava em quem, o que importa é que eram por volta das 9 horas da manhã, no meio da semana e enquanto eu estava indo trabalhar, tinha gente transando há metros acima da minha cabeça. Achei divertido, mas conto para poucas pessoas essa história, afinal pode ser apenas uma mentirinha para quem gosta de ter uma carta na manga em uma boa conversa. Mas para mim, somente para mim, naquele momento, foi real.

Com o tempo e com a idade, acredito que se nos permitimos, ainda é possível enxergar muito além do que o literal nos permite ver diante de todas estas breves situações que acontecem toda hora em qualquer lugar. Coisas que estão lá, em nossas fuças, que nascem, acontecem e morrem em menos de minutos e somente poucos ou ninguém tem a oportunidade de fala “Eu vi”.

Outro bom exemplo é a principal lembrança do bairro periférico que passei boa parte da minha vida. O cheiro de comida sendo preparada a partir das seis horas da tarde. Mas não é qualquer cheiro. Existe um cheiro específico que se manifesta quando o feijão está pré-cozido. Não é um cheiro padrão de feijão temperado ou quando você começa a refogar. É um cheiro que só aparece depois daquela primeira etapa na panela de pressão.

É nesse momento que sabe-sei-lá qual o nome da força que se manifesta no bairro, mas é como se todos os fogões e panelas estivessem sincronizados e cada esquina do bairro exalasse tal odor. Depois que saí desse bairro e morei em regiões com menos casas e mais comércios, nunca mais senti este cheiro. Aliás, raramente o encontro. Depois que “identifiquei” este “momentum feijão” sou automaticamente transportado para esta exata situação do meu antigo bairro: dezenove horas, estou chegando em casa e cada mesa de jantar está prestes a ser posta. Viver esta micro lembrança é o que me dá a sensação de estar vivo e ter a consciência de quem sou.

Agora um terceiro exemplo, talvez um pouco mais romântico, mas que ainda assim foi verdadeiramente real. Eu já tive uma grande paixão na vida, alguém que, em outros tempos, idealizei para caralho em tê-la como minha namorada. Pois bem, em uma dessas coincidências do universo, descobrimos que éramos um a fim do outro e nosso primeiro beijo aconteceu. Não houve nenhum glamour, não foi no cinema, não foi roubado, mas foi intenso. Intenso o suficiente para eu ter plena certeza de que o tempo parou infinitamente alí. Como se a própria realidade tivesse se dobrado numa folha de papel e o beijo fosse um lápis atravessando ambas extremidades. Em vinte e oito anos a mesma situação nunca aconteceu novamente e eu faço questão de manter essa lembrança viva e mim, não pelo apego emocional, mas pela observação, pelo conhecimento que isso me traz. De como nossa percepção pode ser muito mais aguçada do que estamos acostumados a ter, a viver.

Claro, isso não significa que estou cem por cento atento ao o que ocorre ao meu redor, mas o mundo é muito mais divertido quando você repara em uma expressão alheia, em alguém soltando o riso frouxo ao ler uma mensagem, na respirada funda que os outros dão quando estão tentando manter o controle da situação, naquele reflexo que parecia uma cena pornográfica, mas não passava de uma mera sombra.

Toda essa bullshitagem sem sentido hoje me fez perceber como a vida é uma questão de como observamos tudo o que está ao nosso redor, assim como também estamos sendo observados. Espero que você também entenda que observar está além do mero abrir os olhos.

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