As Doutrinas do ENEM

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é, talvez, a prova de mais visibilidade no país quando se pensa em vestibulares e derivados. Servindo como porta de entrada para várias faculdades, além de programas de apoio do Governo, a prova sempre é um reflexo da educação no Brasil (afinal, serve como parâmetro para a mesma), e da sociedade que forma o país.

Eu resolvi fazer a prova neste ano, para ver como me saía e porque pretendo voltar a estudar. Acho interessante dividir com vocês o que achei interessante nesse meio:

1Sai do colegial há 6 anos. Desde então, não toquei em materiais de conhecimentos que não fossem gerais, ou específicos da minha área. Com isso, foi a segunda vez, em 6 anos, que vi logaritmos. Ou que calculei o raio de algo. Ou que precisei calcular probabilidades mais complexas do que uma pessoa comum, sem uma profissão na área de exatas, precisa. Imagino que o mesmo sirva para qualquer pessoa com um foco maior em biológicas, ou em exatas, ao responder questões de outras áreas. E me lembrei de que esses ensinamentos específicos tomaram o tempo que poderia ser dado para aulas sobre sociedade, sobre trabalho, impostos, sociologia (no meu tempo nem tinha aula, e agora, apesar de ter, ainda é pouco).

A educação brasileira te ensina a passar no vestibular, mas não a ser um adulto melhor. Muito menos a escolher direito sua profissão. Tendo que estudar pra tudo, decorando inúmeras fórmulas que nunca mais serão úteis ou datas e nomes que pouquíssimo lhe importarão pelo resto de sua vida, sobra pouco espaço para você, para desenvolver suas habilidades direito, descobrir o que gosta. E assim se passa em um vestibular, desiste, presta outro, muda de curso, tranca faculdade, entra em crise, volta pra faculdade, volte 3 casas, repita tudo novamente.

Interessante também foi notar como nada mudou nos 6 anos desde que prestei a prova. Chega-se cedo, fica sentado nervoso, faz uma prova que deveria durar mais, tendo que chutar umas questões por falta de tempo. Repita novamente no dia seguinte, e no mês seguinte, e mais umas 2 ou 3 vezes, dependendo do número de vestibulares que prestar.

2 Nós estamos sob o governo mais conservador das últimas décadas. A briga entre “direita” e “esquerda” é contínua, cheia de acusações dos dois lados, e cada um tem seus podres. Enquanto isso, a sociedade briga, se divide, o machismo e a religião tomam conta do congresso, há falta de representatividade para inúmeros grupos sociais, as vítimas se tornam culpadas por tudo, bandido bom é bandido morto, Sheherazade e “Bolsomito” são os senhores e nada me faltará. De um lado é coxinha e do outro é comuna.

Aí o ENEM, que poderia ter tudo errado, me começa a prova uma questão feminista. Uma redação feminista. Autoras feministas, lésbicas, latinas, em sua bibiografia. Cultura negra, africana, autor angolano, tudo marcando presença na prova. Temas que fazem conservadores tremer (Bolsonaro e Feliciano estão aí para provar). Tem questão de mercado também, tem publicidade, mas isso não interessa muito, isso a gente vê direto. O que a gente não vê é milhões de pessoas tendo a chance de falar sobre o abuso contra a mulher, a gente não vê mulher ganhando a oportunidade de ter mais voz. O ENEM virou um palco e um presente para importantes minorias, e tem gente que não pode suportar isso. Teve negro se vendo no exame, teve mulher escrevendo sobre o que precisa enfrentar diariamente.

Isso não é ser comunista, isso não quer dizer que o Brasil vai acabar, nem que você vai acordar numa ditadura esquerdista cubana marxista. Isso quer dizer que podemos ter um futuro melhor se as pessoas se educarem mais nessas questões. Se é pra ficar 5 horas sentado em uma sala, que algo seja aprendido nesse tempo.

O ENEM reflete a educação geral do país. De quem prestou a prova não dá para saber ainda, só daqui alguns meses. Mas já mostrou que tem muita gente errada observando quem faz a prova. Indivíduos (nem podem ser considerados pessoas) alterando as páginas com informações sobre Simone de Beauvoir, gente formada e com poder no país falhando em compreender um simples texto, hashtags contra o tema da redação… não faltam provas de que há muito atraso em parte da sociedade.

Se o governo “doutrinou” as pessoas a conhecerem culturas de minoria, a dar mais voz para elas, a gente só tem a ganhar. Se você não gostou das vozes que ficaram mais altas e próximas, talvez seja o momento de rever sua mentalidade. E, caso não queira, fica tranquilo, o choro sempre será livre.

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