Aos 29 anos, jornalista Cadu Caldas é um dos destaques do jornal Zero Hora

Cadu Caldas, jornalista do jornal Zero Hora. Foto: Mateus Bruxel.

Jornalista graduado em 2011 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em Direito Econômico pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Cadu Caldas é repórter de economia do jornal Zero Hora há quatro anos e atualmente auxilia na coluna Informe Especial, assinada por Tulio Milman. Sua decisão de cursar jornalismo ocorreu no fim do ensino médio com a ajuda de uma colega.

“Eu tinha uma amiga que queria fazer jornalismo e ela achava superdivertido. Fui influenciado por ela um período muito curto. Foi justamente no período em que decidi fazer o vestibular e acabei fazendo”, conta Cadu.

A seguir uma entrevista com o jornalista a respeito de sua vida profissional e acadêmica.

Quais foram os motivos que fizeram com que você ingressasse no curso de jornalismo? Já era a sua primeira opção?

Eu sempre fui orientado por gosto para fazer algo voltado com engenharia ou medicina. Não sou muito da área de humanas. Nunca fui. Mas quando eu estava no terceiro ano, tinha uma amiga que queria fazer jornalismo e ela achava superdivertido. Fui influenciado por ela um período muito curto. Foi justamente no período em que decidi fazer o vestibular e acabei fazendo. Hoje, ela trabalha comigo inclusive.

Ao longo da graduação o que mais chamou a sua atenção em relação ao curso?

Economia. Sempre foi desde o começo. Como eu tinha facilidade com números e eu sempre tive uma curiosidade especial em entender coisas que os outros acham difícil. Eu sou mais curioso. Então eu percebi desde o início que é um nicho de mercado difícil porque tem poucas pessoas trabalhando. Além de ter mais vagas, eu gostava do assunto. Gostava desde o primeiro semestre. Na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) o perfil do curso é um pouco diferente. Ele propicia que você faça as cadeiras básicas de redação, rádio e tv, mas você também faz as cadeiras eletivas, que são as teóricas, e escolhe onde quer fazer. Eu já direcionei desde a época da graduação as minhas teóricas para a área da economia.

Sabemos que o jornalismo econômico aborda questões amplas e de difícil entendimento para as pessoas que não entendem do assunto, mas ao mesmo tempo tenta traduzir isso para uma linguagem mais simples e de fácil compreensão. Como é o processo dessa “tradução” para que a sociedade consiga entender a notícia ou até mesmo uma grande reportagem?

De fato, me sinto um profissional que traduz para o grande público os fenômenos econômicos. Só consigo explicar aquilo que entendo bem. Quanto mais domino o assunto, mais recursos para explicar os fatos eu tenho. Isso exige dois tipos de conhecimento. O primeiro é teórico. Preciso dominar o conceito. O segundo é político-histórico. Para falar de inflação, por exemplo, precisa saber definir conceitualmente e preciso saber como o índice tem se comportado ao longo dos anos e que fatos ou medidas influenciam no resultado. São fenômenos abstratos, mas o impacto no bolso da população é bem real e isso não posso perder nunca de vista.

Com a reportagem “O time da inovação”, que apresentou um mapa com o levantamento das startups de Porto Alegre e discussão sobre a vocação da cidade para o empreendedorismo e inovação, você venceu em 2014 o IV Prêmio de Jornalismo Econômico Iberoamericano da Escola de Negócios, promovido pela IE Business. Como foi o processo de produção dessa reportagem?

Quando eu vim para a Zero Hora escrevia basicamente sobre macroeconomia e finanças (PIB, inflação, juros), que é o que eu gosto. Um dos editores teve a ideia de nós começarmos a cobrir mais tecnologia. Pode cobrir tecnologia de várias maneiras: do ponto de vista do usuário ou pode olhar a tecnologia do ponto de vista de negócios. Eu me interesso mais por tecnologia como área de negócios. A demanda da matéria era levantar quantas startups tinham em Porto Alegre. Para isso foi necessário definir o que é uma startup, pois não existe um conceito fechado. Nós fomos atrás de um conceito para definir. Depois de definido esse conceito, a gente foi tentar fazer um levantamento de quantas tinham em Porto Alegre. A prefeitura e o estado do Rio Grande do Sul não tinham um levantamento organizado porque são empresas que nascem e morrem muito rápido. Então fomos através de centros de referência: o Tecnopuc, a Unisinos, a UFRGS, e começamos a pesquisa. Fizemos um levantamento e achamos em torno de 80 startups e criamos um mapa virtual. Tu conseguias clicar no mapa e ver dentro de Porto Alegre onde ela estava, que tipo de serviço ela propiciava, quem eram os sócios e até entrar em contato. A matéria era basicamente isso. Eram quatro páginas. Depois de levantar em torno de 80, escolhemos 12 que eram as mais promissoras. Com um grupo de especialistas, definimos alguns critérios como rentabilidade, chance de crescer rapidamente, etc. Foi publicada em outubro de 2013 e ela ganhou o prêmio em outubro de 2014. Foi um ano depois. Mas foi totalmente aleatório, eu nem conhecia o prêmio. Fiquei sabendo por alguém que disse para eu me inscrever.

Você é um dos três finalistas brasileiros no Prêmio Citi Journalistic Excellence Award com a reportagem “Mais velhos e com pouco dinheiro”, que mostra os desafios econômicos sociais gerados pelo rápido envelhecimento da população gaúcha. Como surgiu essa pauta e quais foram os resultados?

Essa pauta surgiu por mim. É uma pauta que mostra o envelhecimento da população gaúcha. Era um fato que eu já tinha observado, mas eu não tinha como mensurar em números. Quando tu trabalhas com números, tu fazes muito fontes. E conversando com o pessoal da Fundação de Economia e Estatística (FEE) decidi abordar esse assunto. Foi uma parceria deles com a gente, onde eles levantaram os números e, depois de ter todos os números completos, eu fui nas cidades visitar. Essa foi a pauta. Essa matéria foi finalista no Prêmio ARI/Banrisul de Jornalismo, mas não ganhou. Foi uma grande surpresa do Prêmio Citi porque é um prêmio muito relevante. Sai em maio o resultado. Acho que só de ser finalista já é um baita prêmio.

Pela primeira vez o jornal Zero Hora está concorrendo no Prêmio Citi Journalistic Excellence Award com a sua reportagem. Qual a sensação em saber que seu trabalho é reconhecido e está entre um dos finalistas no prêmio?

Quando nós fazemos matérias, o repórter, digo eu, e tenho certeza que meus colegas também, nós nunca pensamos no prêmio. A reportagem é feita em conjunto: tem o editor, tem o fotógrafo, o editor de vídeo. Tu não te sentes proprietário suficiente. Mas claro, quando um prêmio internacional como esse reconhece, dá visibilidade, é legal porque ele mostra que o teu olhar também não estava tão errado. Eu acho um reconhecimento, entretanto não muda minha vida.

Quando você era repórter da editoria de economia e a Marta Sfredo, titular da coluna +ECONOMIA, estava de férias, você é quem assumia como interino da coluna. Os assuntos tratados eram de sua responsabilidade ou havia uma interferência para que também fossem abordados assuntos propostos pelo produtor do jornal?

O colunista tem total liberdade editorial. Claro que tu recebes sugestões de várias pessoas no jornal porque tu passas a ser referência naquele assunto. Então eu recebo de várias fontes. Eventualmente, do editor-chefe que gosta muito de economia, conhece muito do assunto. Eu converso muito com ele sobre o tema. Ele sugere sempre no sentido de agregar. Não é algo impositivo.

Geralmente colunistas de economia são repórteres mais antigos. Há algum tipo de preconceito por parte das pessoas ligadas à área de economia ao verem um jornalista jovem escrevendo a respeito desse tema?

Sim. O perfil da editoria de economia na Zero Hora ou em qualquer jornal é um perfil mais velho. Os repórteres têm mais experiência, passam por outras áreas e depois vão para a economia. No meu caso foi diferente porque eu me formei, especializei-me em economia e depois fui trabalhar. Então eu já entrei com conhecimento. Acontece principalmente das pessoas mais velhas, fontes mais velhas, terem um pouco de preconceito, mas assim, tu consegues quebrar muito rapidamente, pois eles veem que tu dominas o assunto. Caso contrário, quando eles veem que é muito jovenzinho e não conhece o assunto, eles te atropelam. Em economia tudo influencia. Desde como tu te vestes — geralmente repórteres de economia são mais bem vestidos do que os outros repórteres — , o jeito que tu te colocas, o tipo de perguntas que são feitas — a fonte responder e tu conseguir contra-argumentar, mostrar que tu entendes do assunto é bem importante. Claro que na hora de escrever o texto tu não podes querer provar para o leitor que tu sabes, tem de apenas informar.

Sabemos que poucos estudantes de jornalismo pretendem seguir na área do jornalismo econômico. Quais os conselhos que você dá para eles?

Estudar economia. O repórter de economia tem que ser curioso. Estudar teoria econômica. Não querer achar que vai chegar no mercado de trabalho e vai aprender economia. Tu já tens que chegar sabendo. Tem que dominar o inglês, tem que ler bem em inglês. Se não fala bem, ao menos ler bem em inglês. Ler publicações estrangeiras e brasileiras sobre a área de economia e conhecer as pessoas do campo econômico. E tem outras oportunidades também de você se qualificar. Por exemplo, o Estadão e a Folha de São Paulo fazem cursos de trainee depois. Eu fiz um curso de trainee no Estadão e é uma boa oportunidade.

Guilbert Corrêa Trendt

Written by

21 | Estudante de Jornalismo | Gaúcho

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