as câimbras involuntárias em meu olho esquerdo

a zoada uniforme da dita cidade grande. é um metabarulho, por definição. carrega em si uma febre onomatopeica difícil de transcrever. o som, escrito, parece quando um gato passeia pelo teclado de um computador ou, simplesmente, o nome dado ao último vulcão a entrar em erupção na Islândia. Eyjafjallajökull. prestes a entrar em ebulição estão também as cabeças de quem presta atenção aos minúsculos eventos que acontecem ao nosso redor.

Pernambuco: uma palavra singular. meu avô Antônio soube utilizá-la de maneira tal a torná-la bastante útil.

(de toponímia bastante controversa, o estado pernambucano carrega 4 sílabas compostas por 10 letras diferentes. toponímia é o estudo da origem dos nomes próprios dos lugares, especificamente, e é parte integrante de um estudo mais aprofundado, conhecido por onomástica. o que não vem ao caso, uma vez que, para meu avô, pouco importava se Pernambuco significava “buraco no mar”, “rio comprido”, ou alguma referência indígena àquilo que não fora denominado pelo homem branco).

seu Antônio trabalhava como comerciante. o conheci quando ele tinha uma farmácia. localizada no largo da rua são joão, próxima à antiga estação ferroviária do município de montanhas/rn, a drogaria detinha o slogan “AQUI TUDO É MAIS BARATO”. à época de sua abertura creio que não haviam, de fato, drogarias mais econômicas na cidade de montanhas, visto que só existia aquela farmácia naquele terreno que, apesar do nome, era nada montanhoso. anterior à venda de medicamentos, ele vendia, no mesmo galpão (anexado à residência onde vivia com minha vó, dona Autinha, e sua prole), grãos, café, açúcar, biscoitos, utensílios domésticos, farináceos e quaisquer outros produtos atrativos aos transeuntes que iam e vinham de trem no município agrestino potiguar.

de pouca erudição, mas raciocínio lógico apurado, seu Antônio percebeu um fato curioso sobre pernambuco: é uma palavra em que todas as letras são diferentes. não há repetições. há que se criptografá-la. se são 10 os primeiros números naturais, assim como são 10 as letras dessa palavra, com pernambuco eu posso formar qualquer número que eu queira.

acontece que seu Antônio fora um comerciante muito bondoso. não resistia aos apelos dos cidadãos enfermos quando estes lhe pedia descontos de maneira tão piedosa quanto realmente necessária. perdi as contas das vezes em que, sentado por detrás do balcão jogando jogo-da-velha com uma funcionária da farmácia, ouvia os lamentos das senhorinhas e dos amigos de longa data que, vez-ou-outra diziam “ô, seu ontôin…”, e ele acabava vendendo por vezes um remédio mais barato do que comprara.

e aí que entra a criptografia de pernambuco nessa história. havia, num lugar que apenas ele tinha acesso, uma nota com o seguinte conteúdo:

p = 0 / e = 1 / r = 2 / n = 3 / a = 4 / m = 5 / b = 6 / u = 7 / c = 8 / o = 9

e, assim, em cada caixa de remédio, ele inseria o código de quanto pagara pelo medicamento. se escrevesse AMR, por exemplo, e ele vendia por 600 cruzeiros, sabia que podia reduzir até Cr$ 453 para obter algum lucro. e assim seguia, alguns ajudando mais, outros menos, conforme conhecia da vida e necessidade de cada um. dessa forma ia conquistando, dia após dia, uma clientela mais fiel, mesmo quando chegaram as primeiras concorrentes da extinta drogaria são braz, mesmo quando a estação fora desativada e a rua são joão não passou de via de acesso à região central montanhense.

saudades de um barulho não turbulento, do ruído conhecido, das vozes reconhecidas, de saber de longe que o tac-tac-tac que se aproxima é da bengala do cego luiz, que a porta que range ao abrir dia após dia, não falta menos lubrificação que meu joelho, do velho trem que trazia meus compradores, da farmácia que antecedera as grandes empresas. porque hoje meu olho acordou vibrando involuntariamente, fui numa dessas redes de farmácia que surgem feito praga em milharal nas ruas e avenidas desta cidade. não encontrei sequer solução para meu problema.

antônio e maria auta de farias e luciana, minha prima
vovô antônio, vovó autinha
Show your support

Clapping shows how much you appreciated ciro guilherme’s story.