Rente

  1. rente à projeção penumbrosa dos muros da rua, sigo o fluxo. ai de mim se não o fizesse. não fosse os cães que, quando não me enxotam enraivecidos, sequer esboçam reação à minha presença, me sentiria um morto vivo vagando pelas calçadas aéreas da minha cidade solitária. a pouca sombra cria, obviamente, caminhos preferenciais de tráfego que são precisamente desviados à iminência dos frequentes obstáculos deletérios da minha jornada.
  2. a diversão dos postes é ser mais que pedras. em um dado contexto filosófico, a aglutinação é condição sine qua non da satisfação plena. convém considerar que, além do conteúdo, forma é importante. e deixou-me um bilhete um poste: “preferes ser moldado ou entalhado?”. retornei o olhar à pedra que, surpreendentemente, permaneceu inerte.
  3. irresoluta com o olhar mais perspicaz num raio de 3 quilômetros, ela subiu a muralha do casarão na rua nova aurora. há que se descrever bem o que ocorrera, nos mínimos detalhes, para que não me digam mentiroso. a rua nova aurora é íngreme que só a moléstia e, assim como massiva maioria das vias locais desta localidade, não liga pontos muito movimentados. portanto, ninguém passa por ela sem querer ou precisar estar lá de fato. e os que precisam ou querem incorporá-la em suas rotas, o fazem com olhar fixados nas falhas do pavimento e do passeio público, a fim de se evitar uma queda drástica ou eventuais tropeços. o que leva à desatenção à minuciosos acontecimentos que coexistem no ponto de máxima inclinação, mais precisamente à frente da casa número 34, da rua nova aurora. assim estava eu, após covardemente ceder aos latidos endiabrados de um raquítico canino que fazia guarda atrás da grade de sua casa, passei a caminhar pelos paralelepípedos, para evitar ser novamente surpreendido. com respiração ofegante e passos lentos e desritmados, avistei-a. procurei fugir imediatamente o olhar quando este encontrou aquela felina, rubra, de pelos eriçados e porte descomunal. catara há pouco os restos alimentares dos residentes do casarão. percebi pelo estado em que se encontrava as sacolas plásticas pretas dispostas como banquetes sobre a calçada. apesar da aparência plena na qual se encontrava a gata, seus olhos penetrantes evidenciavam que ainda havia espaço naquela barriga possivelmente cheirosa e faminta. a essa altura já estava abestalhado, enquanto era acossado pela possibilidade de um ataque iminente, suei um pingo de gota fria improvável de acontecer naquele ambiente savânico. procurei voltar a andar, já estava tão próximo do cume da rua que era questão de segundos para todo santo me ajudar em minha descida. mas à medida que avançava, a gata vinha mais ao meu destino. não hesitei e dei meia volta. e em passos nervosos segui ladeira abaixo. olhei pra trás, não devia. fiz o que fez a esposa de lot do velho testamento. e aconteceu o que acontecera a ela: tornei-me pedra.