Um homem no chão
Ele era um homem no chão. ‘Eu tive medo. Esse pessoal é tudo bandido.’ Um homem no chão. ‘Quem sabe um criminoso, cachaceiro.’ Apenas um homem e o chão. ‘Eu tive pena, mas depois não. Ele devia tá trabalhando. Vagabundo!’ Um cão pestilento teria mais valor do que ele. ‘Eu até não tenho medo, mas a culpa disso daí é do governo, eu que não vou dar comida, assim vicia e ele não vai sair mais daqui.’ A cagada de um pombo despertaria mais revolta do que a visão daquele homem. ‘O seu B disse que ele é um tarado.’ Afinal era só um homem. ‘Eu tenho vontade de chutar a cabeça dele.’ E o chão. ‘A gente podia jogar gasolina e depois tocar fogo, deve ser divertido ver ele correndo e queimando.’ Ele era um nojo: um homem no meio do lixo, dormindo sobre sobras — nada mais do que lixo — alimentando-se de lixo. ‘Isso nem sente mais nada. Se tirar daí da rua não se acostuma com banho nem com comida boa.’ Ele era um lixo no chão. ‘Virgem!, vou pro outro lado…’ Deitado na calçada do lado esquerdo da rua paralela a uma avenida de um bairro da grande cidade. ‘Coisa boa não deve ter feito pra tá assim na rua. Deve ser bandido mesmo.’ O que é, então, um homem-lixo na rua engolido pela ruidosa fome da cidade? ‘Não encara não, isso não gosta que olhe.’ Ele é só fome e ela só ruído. ‘Isso pede esmola e fica com raiva se a gente não dá!’ Ele perde, ela vence. ‘Não chega perto, meu filho, isso se faz que tá dormindo pra assaltar a gente.’ Ela é movimento e passos apressados; ele é olhos baixos e lixo. ‘Virgem!, vou pro outro lado…’ Ele era um lixo no chão. ‘Eu não sei como o padre permite esse tipo por aqui. A gente sai da missa tão cheia do espírito de Deus e se depara com esses marginais aqui.’ Um lixo!