Johnson’s baby
(ou Contra quedas e o efeito do tempo)
Das calcinhas
E das cortinas
Da respiração que me embalava pra dormir
Adeus.
Mas o cabelo
Ele apareceu no meu travesseiro
nos meus lençóis
No ralo do chuveiro
O cabelo apareceu nas minhas camisas
O cabelo invadiu os meus sonhos
Brotou no meu armário
Invadiu minhas gavetas
Cabelo
No enchimento do sofá onde a gente adormecia
Entre as coxas das moças
Que encontrei nas sextas cansadas
De sentir saudade
Cabelo
Era tudo o que eu comia
Tudo o que eu cheirava
E no fundo de cada copo
Dentro de cada garrafa
Era tudo o que eu bebia
E quanto mais eu tentava
eu limpava
Mais eu varria
Mais eu cortava
E mais eu corria
O seu cabelo
Ele aparecia
Pra me lembrar.
Tudo que eu via
Que eu pensava
Que eu escrevia
Era cabelo.
O perfume de xampu e suor e sexo
As curvas bagunçadas que nunca terminavam
Entraram no meu nariz
Cresceram na boca
Desceram goela abaixo
E meu último suspiro
Foi de alívio
Porque eu deixei o mundo
Do jeito que eu queria
Perdido no seu cabelo
