Os outros

Outro dia teve manifestação em São Paulo.

Todo mundo que participou tinha uma posição muito apaixonada sobre o governo e sobre a oposição. Todo mundo ali sabia que tinha razão e quem discordasse tinha que ir viver no país que pior representasse o modelo contrário.

Do lado de fora da manifestação, tinha um grupo — na rua, na internet, nas varandas — que também tinha uma posição bastante apaixonada sobre aquilo tudo. Uma opinião contrária à do povo da manifestação. Esses aí usavam palavras de cunho culinário ou neologismos políticos para menosprezar a opinião dos que estavam na rua.

Mas esse texto não é bem sobre nenhum deles.

Outro dia, também, teve um grupo de indivíduos que, sob pretexto religioso, invadiram um museu no Iraque e destruíram todas as esculturas que eles consideravam “objeto de adoração”. Eles sabiam que tinham razão em destruir tudo. Tanto que voltaram a repetir o ato em outros lugares depois.

Mas esse texto também não é bem sobre eles.

Outro dia, quiseram tirar uma novela do ar porque teve um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo. Os que pediam o fim da novela sabiam que tinham razão e diziam que essa novela estava acabando com o modelo tradicional da família brasileira. Uma dessas pessoas, inclusive, tem três irmãos homossexuais.

Mas esse texto ainda não é bem sobre essas pessoas.

Outro dia um contato meu publicou no seu mural do Facebook um texto que terminava assim: “e quem concordar com (pessoa de opinião contrária), pode avisar aqui, que hoje eu quero fazer uma limpeza nos meus contatos”.

Esse texto é sobre esse contato, sim. Mas eu já falo sobre ele.

Antes, um pouco sobre a plataforma onde ele escreveu isso.

O Facebook, assim como o Google e a maioria dos grandes portais (ainda chamam eles assim ou eu parei em 99?), funciona como um filtro. Ele usa as informações que você vai inserindo dia a dia para entender cada vez melhor o que você gosta ou não de ver. E com isso, vai priorizando mensagens na sua tela. Se você sempre põe Like em videos de gatos, cada vez que alguém subir um vídeo de gato, esse vídeo vai parar no topo da sua timeline. Se você sempre lê as postagens da sua ex, sempre que ela escrever alguma coisa, também vai aparecer como prioridade na sua timeline. E todo o resto vai sendo jogado para baixo, e às vezes pra fora do seu campo de visão.

Assim, a nossa internet inteira (como eu falei, o Google também trabalha assim com os seus mecanismos de pesquisa) vai se transformando aos poucos em um mundo virtual maravilhoso, onde tudo o que existe são coisas que a gente gosta, coisas que a gente gosta de ver, gente que a gente escolhe e opiniões que só fazem confirmar a nossa.

E quando aparece uma falha nessa matrix, quando o mínimo detalhe foge do nosso esperado, quando a máquina ousa deixar passar qualquer nuvem que impeça que o céu da nossa internet seja de brigadeiro do começo ao fim, encarnamos a rainha de Copas quando viu que todas as rosas não estavam pintadas de vermelho: cortem-lhe a cabeça! E, óbvio, no seu mundo, tudo são palmas, aplausos, urras por essa decisão sensata. Quem ousa discordar?

Ontem tinha um senhor na televisão explicando a diferença entre as duas formas de dizer “outro” em latim:

Alter, que é o “não eu”. Tudo o que pertence ao meu universo visível, exceto o eu.

Alius, que é o “não se identifica”. Tudo o que não pertence ao meu universo visível.

Alheio, o que não me condiz.

Alien, nome dado aos imigrantes na língua inglesa.

Da alienação (alius) do outro (alter), da extirpação da opinião e da figura do próximo do nosso universo visível, é muito fácil chegar à intangibilização e deshumanização de tudo o que não seja condizente com o nosso ego. E tudo o que não é humano, não é digno, não merece o nosso respeito.

É a mesma tática do exército nos filmes, para fazer com que os soldados não lembrem que estão matando seres humanos: não têm nomes, são apenas “alvo”, “missão” e “objetivo”. Pode atirar.

Por isso podemos quebrar estátuas que não são da nossa religião.

Por isso podemos exigir que homossexuais não tenham os mesmos direitos que nós.

Por isso podemos gritar “petralha” e “coxinha” e sair na mão por uma política muito mais complexa que qualquer coisa que eu ou você jamais vamos conseguir entender.

Porque é muito fácil agredir e até eliminar aquilo que não faz parte do nosso universo, aquilo que não é humano, aquilo que é alheio. Bilhões de mini-holocaustos simultâneos, onde quem morre não são raças ou cores, mas visões. Todas as visões, mais especificamente, que não a nossa. A visão superior. A visão certa. Sieg Heil.

Voltando ao meu contato, ele passa bem. Postou agora há pouco avisando que conseguiu com sucesso eliminar mais de 20 amigos do Facebook. Depois desse pequeno entrave com a sua rede, ele pôde voltar ao seu estado natural de catatonismo intelectual. Esse texto é sobre ele. Eu venho em seu nome pedir que todos respeitemos o sono dele e, por favor, evitemos discordar dele em público, para ele não começar a achar que a sua opinião não é a única, a mais perfeita e mais inargumentável. Na verdade, pra evitar acordar os outros pacientes, vamos evitar ter opiniões. Assim ninguém se chateia.

Grato pela sua cooperação.

PS: O SMBC falou melhor e com menos palavras.

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