Sinfonia em Julia para piano de bar
Ou Variações de adeus
para Almeidinha, com atraso
Quando Julia saiu por aquela porta, eu jurei que ia ser a última.
A última vez.
A última porta.
A última Julia.
Jurei uma jura fraca, doente, que antes de morrer falou no meu ouvido, “ela vai voltar”.
Ela ia voltar e ia pedir perdão e ia pedir licença e ia pedir um espacinho na cômoda para as calcinhas dela de novo.
E como eu quis, como eu sonhei, como eu temia. Julia voltou.
Ela voltou milhões de vezes, milhões de nomes, de rostos, de vidas, de perfumes diferentes: Mariana, Catarina, Roberta, Marjorie.
Mas sempre a mesma: Julia.
E Julia sempre seria a Julia que iria embora.
Eu precisava fugir do nosso roteiro ensaiado. Então, em cada beijo e em cada afago, eu prometia:
Julia, eu não vou ser sua vítima nunca mais.
Predadora, mesquinha, cretina, te amo. Adeus.
E cada vez, eu a fazia pagar.
Em Mariana, eu entreguei a Júlia minha raiva.
Em Paula, devolvi a Julia a traição.
Em Fabiana, Júlia recebeu indiferença.
Desarmadas, todas as Julias se entregavam aos prantos e me perguntavam por quê.
E eu ria, dizia:
Julia, eu não vou ser sua vítima nunca mais.
Pegava minha caixa de discos e saia pela porta, ouvindo ao fundo o doce canto das lágrimas de Julia. Sem nunca abraçá-las, nem nunca acalmá-las, nem nunca esperar suas lágrimas lavarem no meu ombro a maquiagem de Julia que eu tão bem havia pintado nelas.
