Sinfonia em Julia para piano de bar

Unphu
Unphu
Feb 23, 2017 · 1 min read

Ou Variações de adeus

para Almeidinha, com atraso

Quando Julia saiu por aquela porta, eu jurei que ia ser a última.

A última vez.

A última porta.

A última Julia.

Jurei uma jura fraca, doente, que antes de morrer falou no meu ouvido, “ela vai voltar”.

Ela ia voltar e ia pedir perdão e ia pedir licença e ia pedir um espacinho na cômoda para as calcinhas dela de novo.

E como eu quis, como eu sonhei, como eu temia. Julia voltou.

Ela voltou milhões de vezes, milhões de nomes, de rostos, de vidas, de perfumes diferentes: Mariana, Catarina, Roberta, Marjorie.

Mas sempre a mesma: Julia.

E Julia sempre seria a Julia que iria embora.

Eu precisava fugir do nosso roteiro ensaiado. Então, em cada beijo e em cada afago, eu prometia:

Julia, eu não vou ser sua vítima nunca mais.

Predadora, mesquinha, cretina, te amo. Adeus.

E cada vez, eu a fazia pagar.

Em Mariana, eu entreguei a Júlia minha raiva.

Em Paula, devolvi a Julia a traição.

Em Fabiana, Júlia recebeu indiferença.

Desarmadas, todas as Julias se entregavam aos prantos e me perguntavam por quê.

E eu ria, dizia:

Julia, eu não vou ser sua vítima nunca mais.

Pegava minha caixa de discos e saia pela porta, ouvindo ao fundo o doce canto das lágrimas de Julia. Sem nunca abraçá-las, nem nunca acalmá-las, nem nunca esperar suas lágrimas lavarem no meu ombro a maquiagem de Julia que eu tão bem havia pintado nelas.

    Unphu

    Written by

    Unphu