Filhos da Rua

Éramos quatro

Quatro diabos cobertos de trapos.

Amávamos maconha, pitávamos tabaco

Não tínhamos vergonha. Na verdade, tirávamos um sarro

Quatro moleques levados, sujos. Moleque que sonha?

Háhá! Quem dera sonhar. Viviam na bronha

E sem vergonha! Ao ponto de parar

O ônibus apenas para o cadarço do tênis amarrar.

E ainda mostrava o dedo do meio pro cobrador, como se ele tivesse culpa de algumas crianças morarem na rua.

Paravam na rua até os carros

Pra chegar no tiozinho do farol

E falar “moço por favor me dá um trocado pra comprar um milho ou uma pamonha ali, to todo esfomeado”

“Coitado!” exclamava o tiozinho chocado com a realidade

Mas pilantragem é a traquinagem infantil dos moleques que vivem na rua.

Roubar não passa de uma brincadeira pra quem vive de trocado e sujeira.

E depois de arranjar um vintém com o tiozinho, quando se encontram os quatros sozinhos vão atrás do que? De pamonha? MACONHA! “Cara nisso eu me amarro!”

E vão pro Vale do Anhangabaú, perto da multidão considerável que anda sobre as pedras.

E o mutirão miserável louco pra queimar pedras

Pra escapar do mundo de vendedores e advogados, bem sucedidos ou fodidos e mal pagos; de um lado trabalhadores, e no outro viciados.

Cada macaco no seu galho.

Pena que o nosso galho era quebrado, fedido, não tinha banheiro e era gelado.

Mas de todo mundo enchiam o saco

Tudo pelo sarro

Paravam a barca tunada do tiozinho milionário

“tio tô com mó fome me dá um trocado” fazia cara de cachorro judiado

“Você acha que me engana? Eu sei que é pra fumar um baseado!”

Que tiozinho muquirana! Ficavam pilhados quando não conseguiam grana

“porra tio, só um trocado, tu tá aí na maior ‘nice’ e eu aqui nessa lama e barro

Pra eu não chutar o seu carro, das duas uma:

Ou compra essa balinha que eu to vendendo, ou me dá um cigarro!

Apesar de todo despudor e o escárnio, uma coisa era certa: tirávamos um sarro!