O escritor pt.3

A ironia é o último estágio que um ser racional atinge, ao aprender a se comunicar. Essa sempre foi a máxima que o escritor repetia em seus contos e romances. Ele acreditava que a vida era uma grande comédia, com traços de tragédia e indícios mentirosos de felicidade. Talvez fosse uma maneira pessimista de encarar a existência, mas era a que o deixava menos confuso.

Naquela tarde o tédio fazia companhia ao escritor. O dia se desenrolara até ali de maneira irritantemente normal. Não se sentia inspirado a escrever, há alguns dias uma pesada sensação de vazio o proibia de terminar seu trabalho que por vezes tinha a função de terapia.

Para matar o tempo, decidiu organizar a caótica sala de seu pequeno apartamento que fazia as vezes de escritório. Não se via as paredes, o próprio escritor já não sabia sua cor original, o que havia visível em seu lugar eram estantes abarrotadas de livros e discos, além de uma confusa coleção de reproduções impressas de quadros impressionistas e surrealistas. Também pôsteres originais de filmes noir franceses, seu gênero favorito.

Sobre a mesa de centro, revistas de literatura abertas mostravam as listas de mais vendidos do mês, “uma pilha de lixo vazio” como o amargurado escritor gostava de descrever os livros que vendiam muito mais que os dele.

Do antigo jogo de sofá só sobrara a poltrona de chintz vermelha, que agora estava oculta sob um amontoado de roupa suja.

Primeiro passo da arrumação, trilha sonora. Fechou os olhos e cumpriu seu ritual irritantemente comum, passou as mãos sobre os discos e puxou um. Louis Armstrong & Ella Fitzgerald, a música, “Can we be friends?”.

Ah, a ironia.

A música desperta uma intensa onda de lembranças, de mulheres que passaram por sua vida. Enquanto organiza a estante de livros pensa nos relacionamentos que começaram com a admiração, foram para a atração, se deliciaram em prazer, em amor, se desgastaram com a rotina, desfaleceram com a reciprocidade desigual e morreram em magoa.

Uma paixão é um jogo sem meio termo. É uma prática inevitável, uma roda gigante constante que contrasta prazer com a depressão. Mas nesses tempos de solidão, até desse sentimento covarde chamado paixão, o escritor sentia falta.

Ah, a ironia.

Foi para a estante de livros, na prateleira mais alta colocava seus livros favoritos. Em sua maioria de autores beats, Hemingway, Burroughs, Kerouac, Bukowski. Livros aqueles que em anos a muito passados, tinham conversado com as dores do escritor, construído parte de sua personalidade. Ele nunca negou que foram esses autores que abriram seus olhos, o ensinaram a valorizar a liberdade, a bebida e umas ocasionais viagens de ácido.

Entre o caos, um livro fino de dimensões grandes ia para seu espaço na estante, ao pegá-lo um envelope caiu de seu interior. O escritor o pegou e viu o envelope amarelado, retirou a carta e começou a ler. Em um segundo um turbilhão de emoções o atingiu, uma mistura de saudade com melancolia, nostalgia com mágua. Era um bilhete de aniversário, uma mensagem engraçada e carinhosa de uma antiga namorada que havia passado por sua vida. Dobrou, colocou de volta no envelope e no livro de Robert Crumb, ao fechá-lo não resistiu ao ver sua capa e riu alto. Escrito em letras garrafais o título “Meus Problemas Com As Mulheres”.

Ah, a ironia.

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