Grunge, o último suspiro do rock (?)

Se avaliarmos a história recente do ponto de vista cultural, a década de 90 foi talvez a última a apresentar novas linguagens e estilos. Os anos 70 ficaram marcados pela ressaca do final do sonho hippie, o que refletiu no nascimento de gêneros musicas como o punk e o heavy metal, além dos exageros da cena disco. Os anos 80 tiveram seus mega astros e o começo da introdução de tecnologias digitais na música. E então tivemos os anos 90, década onde floresceu a música alternativa, da mais pesada a mais popular.

Mötley Crüe

No final da década de 80 o que reinava nas FM’s e na jovem MTV era a cena multi platinada do hard rock ou hair metal. Influenciados pelo apelo teatral herdado de caras como Alice Cooper e New York Dolls mais a estética andrógina do glam rock, bandas como Ratt, Poison, Mötley Crüe e Warrant fizeram a cabeça do grande público nesse período. Com um visual caprichado no laquê e na Lycra essas bandas cantavam sobre garotas, festas, garotas, drogas, mais festas, garotas e o tema mais recorrente do gênero: garotas.

E foi nesse ambiente plástico e exagerado que começou a nascer a cena grunge, no úmido estado de Whashington, principalmente nos arredores de Seattle. Como havia sido com o punk nos anos setenta, o grunge foi como um respiro de autenticidade pra música pop, enquanto o punk veio pra tornar o prog rock e a disco obsoletos, o grunge veio pra acabar com o proclamado estilo de vida poser dos hair heros.

Como boa parte das cenas culturais que propuseram algo de novo no rock, o grunge nasceu do tédio e da não identificação. Esses caras moravam em uma cidade que passa mais da metade do ano com os céus nublados, em cidadezinhas que giram em torno de parques industriais e da exploração da madeira, e claramente não se identificavam com os caras maquiados do Mötley Crüe, cantando sobre “girls, girls, girls”.

Outro grande fator de influência foi o gosto nostálgico por bandas dos anos 60 e 70, das quais o grunge herdou suas mais indefectíveis características: o sarcasmo, a irreverência é a inquietude. Iggy and the Stooges, MC5, David Bowie, Beatles, Devo, Ramones, Joy Division e muitos outros. Assim, na metade da década de 80 começou a surgir uma nova leva de bandas que iriam destronar os astros do hard rock e propor uma nova maneira de se fazer rock’n roll. Tudo isso, claro, graças ao esforço de gente como Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, os cabeças da Sub Pop Records, os primeiros a ver a importância e relevância do que estava nascendo.

Foi aí que vimos o surgimento de bandas como Soundgarden, TAD, L7, Pearl Jam, Screaming Trees, 7 Year Bitch, Mudhoney, Alice in Chains, Skin Yard, The Gits e a banda mais importante da cena, cujo o sucesso astronômico iria levar toda essa galera para o mundo, o Nirvana.

Chad Channing, Kurt Cobain, Jason Everman e Krist Novoselic, Nirvana.

Pra quem conhece essas bandas fica evidente a mais interessante e importante característica da cena grunge, a pluralidade de ideias e sonoridades. Diferente de outros gêneros vastamente difundidos como o heavy metal e o punk, o grunge não é caracterizado por um estilo melódico próprio mais sim por uma postura de negação do status quo musical, uma aversão ao pop e uma disposição a abordar temas mais pessoais como a depressão e a solidão.

Obviamente esses ideias e a nova abordagem de como se fazer rock fez com que a cena ficasse muito popular e que se tornasse o que não esperavam, famosa. Esse aspecto foi o responsável por uma grande mudança da relação das bandas com o seu público e sua música. Não foram poucos os casos de abuso de drogas e mortes entre os protagonistas dessa nova cena.

Manchete sobre o suicídio de Kurt Cobain em 1994.

No documentário “Hype!” (1996) fica claro que parte dessa galera não estava pronta para o sucesso, e que muitos se incomodaram ao ver o seu estilo de vida sendo replicado pelo mundo inteiro.

Podemos concluir que o grunge foi uma versão repaginada e mais consciente do movimento punk. O rock não foi mais o mesmo, e vemos os seus reflexos até hoje. Esse foi o último grande movimento a propor algo novo e a influenciar toda uma geração e é claro que fica a pergunta:

Veremos isso de novo no futuro?

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