
O escritor pt.2
O barulho exagerado de uma motocicleta o traz de volta a realidade. A luz filtrada pela cortina bege fere seus olhos quando o escritor os abre, a chuva da noite anterior passou, mas a neblina e o tempo de um domingo encoberto persistem. Levanta-se da poltrona de chintz vermelha e se espreguiça, a rotineira dor no corpo resultado do costume de dormir sentado se acentua. Vai direto á cozinha americana que quase não tem utensílios. Liga a cafeteira na tomada e prepara um café forte e sem açúcar que mais se assemelha á piche. Procura um Lucky strike, acabaram. Pragueja em silêncio e leva a caneca quase transbordante do piche fumegante.
Ao sentar-se na poltrona, ele olha a pilha de papéis ao lado da maquina de escrever Remington, um emaranhado de folhas cor de creme, carregadas de letras borradas e palavras intrincadas que descrevem os habitantes e os prédios da cidade sem ninguém. Antes de dar o primeiro gole no seu elixir relaxante repara que o telefone tem uma luz piscando insistentemente. Ele o aperta e uma gravação começa a tocar. Era o músico, amigo de velha data, um alcoólatra arrependido que nos áureos tempos foi um compositor inspirado e guiou vozes famosas ao estrelato. Na gravação, feita no dia anterior antes de anoitecer, o músico estava convidando o escritor para jantarem em algum muquifo na cidade baixa. E escritor se sente mal por não ter ouvido a mensagem e por não ter respondido o amigo.
Após beber o seu piche ele se levanta e abre a geladeira, lá encontra uma caixinha de comida chinesa pela metade, os hashis ainda estão lá. Tira a tampa de uma Mikkeller Indian Pale Ale e se delicia com o frango xadrez gelado. Liga a tv, o programa que está passando mostra um grupo de pessoas cumprindo uma série de provas embaraçosas em busca de um prêmio qualquer. Muda de canal. Cai em um canal de filmes, um desses que só passa filmes antigos, era a cena final de “Manhattan”, um filme preto e branco escrito, dirigido e estrelado por Woody Allen. O escritor nunca tinha ido muito com a cara do franzino neurótico de óculos, mas não evitava o sentimento de identificação.
A cena mostrava o personagem de Woody correndo atrás de sua amada que ia passar um tempo em Londres. Com medo de que o amor morra ele implora “fique, em seis meses você vai mudar”, ele insiste pedindo desculpas pelo que passou. Ela permanece irredutível quanto a viagem, mas mostra que ainda o ama, “Você tem que ter um pouco de fé nas pessoas”. Ele sorri e á vê partir.
“Você tem que ter um pouco de fé nas pessoas”, a frase simples é como se a porta da sala se abrisse e o sol iluminasse o rosto cansado do escritor. O sentimento de solidão bateu forte e ele decidiu arriscar.