Duas substituições e Löw mudou todo ataque

Joachim Löw promoveu duas substituições para o último jogo da fase de grupos: Kimmich e Gomez nos lugares de Höwedes e Draxler. Mas as mudanças apresentadas em campo foram muito além das posições de lateral-direito e centro-avante. Os novos nomes no time titular deram uma nova cara ao ataque alemão, que teve o seu melhor desempenho no torneio até aqui, e fizeram jogadores importantes finalmente aparecerem. Özil distribuiu ótimos passes perto da grande área do adversário, como fez ao longo da última temporada pelo Arsenal, e Müller, apesar de ainda não ter marcado gols, esteve muito mais próximo do nível de desempenho que o credencia como um dos melhores atacantes do mundo.

O jogador do Bayern de Munique apareceu nesta partida muito mais do que nas anteriores. Contra Ucrânia e Polônia, uma finalização em cada jogo. Contra a Irlanda do Norte, seis chutes, sendo dois na trave, e a assistência para o gol de Gomez. Saindo da ponta direita para o meio do ataque, Müller encontrava problemas para enfrentar os zagueiros, mas no Parque dos Príncipes ele teve uma ótima parceria com um centro-avante característico ao seu lado em invés de Götze. Como no lance que abriu o placar, os dois ajudaram um ao outro em boas trocas de passes. A referência no meio do ataque alemão funcionou dessa vez.

A outra alteração de Löw mexeu muito na forma como a Alemanha trabalha a bola no ataque. Nos dois primeiros jogos, o destino das trocas de passes era quase sempre o lado esquerdo do campo, de onde partia uma bola levantada para a grande área. A entrada de Kimmich deu mais força ofensiva ao lado direito e equilibrou o número de ações em cada flanco. No terceiro jogo do grupo, 15 cruzamentos saíram da lateral direita e 12 da esquerda. O jovem jogador do Bayern não se restringiu a chegar na linha de fundo e buscar uma cabeçada. Ele ainda mostrou chegadas muito boas na grande área e finalizou duas vezes — Höwedes não teve nenhum chute nas duas primeiras partidas.

Pela primeira vez na Uefa Euro, a Alemanha conseguiu “fazer manchas vermelhas” na ponta direita do ataque

Não foi por falta de jogadores na defesa que aconteceu o bombardeio da Alemanha contra a meta de McGovern. A Irlanda do Norte deixava seus defensores bem próximos da grande área e tanto Ward quanto Dallas recuavam de tal forma que a primeira linha de defesa da equipe tinha seis homens. Mesmo com tanta gente atrás, a equipe de Michael O’Neil se mostrou vulnerável, com muitos passes colocados entre os zagueiros. Depois de ceder 33 chutes nos dois primeiros jogos somados, a Alemanha finalizou em 28 oportunidades. O placar só não foi mais elástico por causa de McGovern. O goleiro acabou como o melhor jogador da sua seleção com oito defesas no duelo, algumas delas frente à frente com o atacante adversário.

Ward e Dallas se juntavam à última linha de defesa. À frente dela, apenas três homens para proteger a entrada da área

A defesa da Alemanha, por outro lado, teve pouquíssimo trabalho e pelo segundo jogo consecutivo Neuer não precisou fazer sequer uma defesa. A Irlanda do Norte esperava chegar ao gol em uma jogada casual, sem trabalhar muito a bola, e ela não aconteceu. Foram muitas tentativas de passe longo da defesa para Washington e seu substituto na posição de centro-avante, Lafferty, mas foi quase impossível para qualquer um deles encarar uma disputa contra Hummels e Boateng.

Como o time norte-irlandês rifava a bola logo depois de recuperá-la, a diferença no tempo de posse entre as duas equipes foi absurda. A Alemanha trocou 724 passes nos 90 minutos, contra apenas 199 da Irlanda do Norte. O domínio na estatística fez os atuais campeões do mundo terminarem a primeira fase da Uefa Euro como a seleção com a maior posse de bola do torneio, com média de 66,5% em três partidas. No placar, a diferença acabou ficando apenas em um gol, mas pelo menos dessa vez o ataque alemão fez o melhor jogador adversário ser o goleiro.