Velho
Certa vez me encontrei com um velho na praça da minha cidade.
Me recordo, ele alimentava os pombos. Lembro que pensei “velhinho rebelde esse, não sabe que é proibido?”.
Notei em sua cara envelhecida, muitas rugas, cicatrizes e um olhar que ia de encontro a mim. Ele estava me encarando enquanto alimentava os pombos.
Cumprimentei-o com um aceno de cabeça cordial, não recebi o aceno de volta. Ele não deve ter visto, foi o que pensei, até o momento que ele se levanta e senta ao meu lado.
-Olá garoto. Você parece triste, aconteceu algo?
Minha surpresa, numa cidade onde ninguém se importa com nada, onde o cinza toma conta das avenidas, um velho senhor me aborda e me pede sobre minha felicidade? Fiquei em choque! Aquele dia, eu estava esperando um ex rolo ir me ver, eu estava feliz. O que raios ele viu de triste em mim?
-Olá senhor, desculpe mas acho que você está me confundindo com alguém, nunca nos vimos! Mas respondendo a sua pergunta, eu estou bem sim, daqui a pouco uma pessoa vem me ver, estou realmente bem!
-Talvez não nos conhecemos, mas você me deu olá com a cabeça, e vi em teus olhos que talvez você precisasse de alguém pra conversar.
Papo de louco, eu não precisava de conversa, E EU ESTAVA FELIZ, onde raios esse senhor viu em mim tristeza? Então ele continua a conversa:
-Teus olhos não mentem, aqui não é teu lugar. Você quer ir embora não é mesmo? Você sente algo errado não é? Já fui novo, sei como é isso, me importava demais com os outros também. E talvez eu continue me importando não é mesmo?- Ele riu. Era uma risada estranha, ligeiramente aguda e rouca. Pensei logo que aquele senhor rebelde que infringia a lei alimentando os pombos, também estava sobre efeitos de alucinógenos.
-Senhor, acho que você está realmente me confundindo, sou apenas um estudante de psicologia esperando uma garota, não entendo a sua preocupação, eu estou aqui por estar aqui oras, nasci nessa cidade e vou morrer nela!- Lembro de segurar o choro ao dizer isso, eu não gostava da cidade, ainda não gosto, e até um velho que não me conhecia conseguia ver minha insatisfação.
-Garoto, não importa se eu te conheça ou não, mas eu sei do teu sentimento. Não tente salvar o mundo inteiro, tente se salvar. Ou prefere ficar alimentando os pombos numa praça, solitário e com medo da morte vir? Você é mais esperto do que isso! -Ele bateu com a mão nas minhas costas e se levantou.
-Além disso guri, não morra! Então não fale tanto com estranhos.
Não perguntei o nome dele, e a garota não foi me ver. Eu estava sozinho, com um saco de migalhas de pão ao meu lado. Eu estava triste. Eu não me sentia em casa. E eu não entendi uma palavra do que o velho disse. E continuo não entendendo.

