A doença de Alcides Moldoveanu — outro conto de

Alcides Moldoveanu padecia literalmente, esta era a sua doença. Isto é, seu pathos era a letra. Não que Alcides sofresse ao pé-da-letra, mas aos pés das letras.
Ninguém soube dizer se sempre fora assim, desde criança, ou se teria iniciado em alguma epifania de meio-fio a gerar extravagâncias que, mediante a ocupação delirante, impedem o sujeito de vagar sem extras. Importa que - de fato e de direito - para Alcides as palavras nunca representaram as coisas, pois eram elas as próprias coisas. Que as palavras pesem, isto não poderia, portanto, ser metaforizado por Alcides. À vista disso, assistimo-lo as carregando pelo corpo (ou mesmo em sacolas que transbordavam monossílabos pelo chão, quando acumuladas durante os dias de verão). Alcides padecia literalmente, ninguém duvidou disso.
Cada pathos porta seu lógos, ruminava em silêncio um claudicante Alcides: “não há patologia que não seja do significado ou do significante”. Assim sendo, permanecendo obstinadamente mudo julgava estancar, pouco a pouco, a literalidade da sua doença. Em vão.
Pois a datilografia noética a que estava condenado lhe prestou algumas astúcias e, inadvertidamente, é por elas que Alcides transvasou. Doravante, conjugando verbos na quarta pessoa do singular, interditando aleatoriamente o uso de certos substantivos, referindo-se a pessoas por infinitivos em letras maiúsculas, confundindo adjetivos por advérbios impróprios, adulterando dicionários até esquecer o que seja semântica, adicionando preposições e conjunções antes articuladas por ninguém, pois inaudíveis à pronúncia. Não se curou, porém melhor o Alcides tem passado. Mais-que-perfeito.
©GuilhermeAlmeida
®2017
