O asno e a asneira de Boétie — um conto metafísico

Guilherme Almeida
Jul 24, 2017 · 2 min read

Jules de Boétie padecia de dois males: uma sede incessante e um gosto patológico por querelas metafísicas. Ao derramar litros de água gelada garganta abaixo, cuidava de aproveitar os minutos de tranquilidade fisiológica que lhe sobreviriam, a fim de desafiar os edifícios especulativos que sua imaginação lhe convocava.

Dentre os habitantes da pequena cidade de Artois, no século XIV, muitos se viam confusos entre a repulsa ou a admiração ao eremita mais famoso do condado.

Não havia disputa especulativa que mobilizasse mais os interstícios da sede de Boétie do que a contenda sobre a existência ou não de um fundamento metafísico do livre-arbítrio ou se deveríamos admitir sua realidade como uma mera ilusão psicológica dentre tantas outras. No ano de 1352, o estoque de tecido para escrita produzido em Artois foi exaurido precocemente: duas mil folhas foram utilizadas apenas por seus esboços, destinadas a uma obra que jamais concluiu sobre o tema.

Durante a estiagem de 1353, que o levou, compreensivelmente, a um ataque dos nervos, Boétie saltou quase nu e muito febril de sua cama e correu em direção à praça do condado. Energicamente, atou um asno faminto e sedento a uma árvore e calculou milimetricamente, em igual distância, um monte de feno e uma lata de água. Esbravejando no que parecia ser um francês de meteco, Boétie pretendia provar, às custas da morte do asno, sua tese de que a indiferença é o mais baixo grau de liberdade: por não conseguir decidir entre a bebida e a comida o asno terminaria morrendo — não deixava de repetir seu argumento a cada clérigo assustado que passava. Mas antes de concluída a prova do asno, a “a mais que perfeita prova por reductio ad absurdum da história da metafísica”, o próprio Boétie não resistiu aos efeitos de sua desidratação patológica.

Uma multidão logo se acumularia em torno do acontecimento, num misto de horror e piedade por Boétie. Do burburinho, conta-se que se podia escutar uma despedida murmurada, tímida e quase envergonhada vinda de um dos clérigos de Artois, os maiores rivais de Jules de Boétie: morre um dos asnos, fica a metafísica da asneira — há algo de belo, sublime e horroroso na teimosia.

©GuilhermeAlmeida

®2017

Guilherme Almeida

Doutor em Filosofia (UFRJ); Mestre em Psicologia Social (UERJ); Professor do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro;

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