E o que não me serve mais

Guilherme Aniceto
Aug 24, 2017 · 1 min read

na vida, tudo o que querem é
que sejamos polinizadores de cordialidades
oi, porteiro
oi, moço bonito que acorda do meu lado e me dá beijo na nuca
oi, vizinha que fala mal de mim
oi, passarinho que toma banho na poça suja
oi, lixeiro que leva embora o que não me serve mais
oi, moça de touca que me entrega o pão de manhã

mas eu não dou oi
eu não dou oi para ninguém
não sou de dar oi
eu recebo oi e devolvo o sorriso mequetrefe
do tipo que acorda querendo silêncio
mas não consegue evitar ouvir a saudação matinal

talvez um dia
caso você seja importante para mim eu te dê um poema
um poema, sim,
é minha definição de cordialidade

acho que todo mundo devia se cumprimentar
com um versinho
mesmo que sem-vergonha
como quem não quer nada
do tipo bom dia flor do dia
ou tudo bem neném
ou mesmo oi seu pai tem boi

é que eu gosto de rimar
a vida insípida dos dias
e a chuva fina que até alegra
e a poça suja
e o pássaro que toma banho
e o porteiro o lixeiro a vizinha o moço bonito o beijo na nuca a moça de touca o pão de manhã
e o que não me serve mais.

)

Guilherme Aniceto

Written by

Poeta, pai de gatos e cachorros, marido de marido, filho só da mãe.

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