Ciudad de México

4 de Julho, Miami para Ciudad de México

Chegamos no Aeropuerto Benito Juárez pouco depois das 21h. Um dos comissários do voo estava animado de chegar na capital mexicana e logo após o pouso cantou, pelo sistema de áudio, o sucesso nacional “Mexico Lindo y Querido”, de Jorge Negrete. O aeroporto era antigo, predominava um branco encardido nas paredes e mármore desgastado no chão. Algumas reformas aconteciam por ali. Caminhamos um bocado até imigração e as malas. E depois para achar um cambio um pouco mais favorável que o da sala de retirada de bagagens. Trocamos cada dólar por 16,5 pesos. Fomos seguindo o corredor do saguão térreo até o fim, seguindo as indicações para o metrô. No meio do caminho passamos por casas de câmbio com cotações de 17,2 pesos por dólar, então a dica é: caminhe mais para pagar menos.

O aeroporto acaba e o caminho continua uma calçada coberta para por fim chegar ao metrô. Sem elevador e sem escada rolante. Descemos as malas pelos degraus mármore gasto. A primeira impressão é de que aquele mármore no México deve ser barato, pois está em todo lado. O trem antigo e sujo correu pela superfície. Em suas paredes uma esquisita sinalização das linhas e nenhum aviso de áudio sobre a próxima ou a atual parada. Descemos na estação La Raza para trocar de linha. Sai do trem, desce escada, sobre escada e caminha-se por quase 10 minutos no subterrâneo, em um imenso corredor, talvez o maior que já vi em um metrô. Passamos por uma exposição ao longo dos corredores que explicava em detalhes os pensamentos de Darwin e alguns fenômenos lunares: havia tempo e espaço para isso, de tão longa a baldeação. Chegamos à plataforma da linha que nos levaria ao hotel. Descemos na Hidalgo e, ao emergir na superfície, ficamos uns 10 minutos perdidos no escuro centro da Cidade do México, algo um pouco soturno considerando que passava das dez e meia da noite.

O interminável corredor da La Raza: determinante na evolução das espécies.

Achamos o hotel. Nos colocaram no que parecia ser o único quarto com uma micro-janela do andar. Deixamos as coisas lá e fomos para a taquería El Caïfan no outro lado da rua, famintos e prontos para experimentar um taco em seu país de origem. Pedimos também uma michelada (limão espremido e sal na borda do copo de cerveja), para garantir o respeito aos costumes mexicanos. Me arrependi da michelada naquela hora, caiu como um balão no meu estômago. Acabamos pedindo quesadillas, que estavam gostosas. Devidamente inflado, dormi.

5 de Julho, Ciudad de México

Descemos para tomar café. O salão era pequeno e um americano se atrapalhava e reclamava ora do espaço, ora do buffet que demoravam a repor. Tinham os comuns pão, bolo e fruta mas tinha também tortilla de milho, nachos, carne desfiada e dois tipos de pimenta. Dois tipos de pimenta, às oito da manhã, intenso.

Queijo, sour cream, nachos, cebola, coentro, chilli rojo, chilli verde, os chillis quentes e, no plástico, tortillas.

Saímos pela Juarez, a rua do hotel. Ela passa pelo Museo de La Memoria y Tolerancia, pelo Palacio de Bellas Artes e por pelo menos dois Starbucks antes de se transformar em um calçadão. Já com o nome de Avenida Madero a rua prossegue até o Zócalo, a principal praça da cidade, cuja área central estava em reforma e cercada de tapumes. Ficamos sabendo como era ao ver uma foto da praça no museu, alguns dias depois: basicamente uma grande área calçada, sem muitas intervenções.

Cenas da Avenida Juaréz.

No Zócalo fica a Catedral Metropolitana, uma construção tão grande quanto o número de católicos no país (98 milhões, atrás apenas do Brasil). Subimos nos dois campanários: um guia voluntário de voz fraquinha, já com uns 70 anos, nos explicava os detalhes de cada sino: peso, data, origem e o santo que homenageavam. Por 40 pesos, valeu o tempo e as escadas: além das torres, pisamos sobre algumas das abóbadas da igreja que começou a ser construída em 1573 e ficou pronta só em 1813.

Alí caminha o guia, seguro, sobre o teto da igreja.

Depois dalí passamos pelo Museu Mexicano de Diseño que, para minha tristeza, exibia uma exposição de braceletes inspirados na Mulher Maravilha. Nada contra a personagem, nada de grande interesse sobre ela também.
A loja do museu, além da típica variedade de produtos pasteurizados Kinkerland tinha à venda alguns produtos e publicações locais. Comprei uma edição da revista “Código” e de brinde ganhei uma Vice México.

As revistas. Acabou que a Código era bem interessante. E a Vice é… a Vice.

Ainda por ali, uma vitrine no segundo andar chamou a atenção: uma loja chamada Yawí, que vendia artesanatos típicos huíchol, um povo do centro do México. A principal técnica era a construção a “pintura” de desenhos e esculturas com minúsculos cristais coloridos. Levei comigo uma águia.

Ainda caminhando pela Avenida Madero entramos no Palácio da Cultura Banamex — um prédio antigo e impecável, cheio de obras sacras de pintores mexicanos e wifi. Queria entender porque uma das santas retratadas tinha a face pintada em preto e branco e todo o resto colorido, com ênfase para os detalhes dourados. Saindo dali esqueci qualquer pensamento sobre as motivações artísticas do pintor: entramos numa rua que era o paraíso das peças de máquinas de lavar. Calçadas finas, homens e peças sujas de graxa. Caminhávamos por ali rumo a um restaurante vegetariano. 
Aquele pedacinho bagunçado era o centro latino-americano por excelência e poderia ser em Assunção, Cuiabá ou Bogotá.

Chegamos ao VegAmo, um restaurantezinho de frente pra rua Revillagigedo que tem umas poucas mesas e serve comida vegetariana. Já passava do meio-dia mas, ainda assim, o menu que apresentaram era de desayunos. Não contestei, pensei que poderia ser aquilo mesmo o que eles tinham para oferecer. Pedimos o Breakfast Burrito e um suco com um monte de coisa, entre elas beterraba. Tudo bom e bem servido, a conta deu $ 250 (R$ 50).

A comida deu sono, decidimos ir pro hotel descansar. Mas, passando na frente do Museu de Arte Popular, decidimos entrar. Bem organizado, três andares dividindo a arte popular e a relacionando com o dia a dia, religiosidade, cosmovisiones, o tempo pré colombiano, etc. E tinha uma lojinha à altura e com preços razoáveis.

O Museu de Arte Popular e algumas de suas peças

Depois do museu, a esperada atração: tomei um banho e dormi uns 40 minutos. Fui até a recepção, enchi meio copo com café e outro copo na máquina de gelo (um artefato tecnológico tão eficiente que faz o aquecimento global parecer impossível). Foi o suficiente pra dar uma energia extra. Comecei a procurar lugares para irmos beber algo.

Encontrei um lugar na Plaza de La Republica, 900m de caminhada. Fomos para lá e encontramos gente com tambores e trompetes, ordenadas em uma espécie de banda marcial com trajes civis. Várias pessoas atravessam a praça com as EcoBici do sistema de bicicletas compartilhadas da cidade. No centro da praça, um gigantesco monumento que abriga o Museo de La Revolución. Lá em cima um mirante — não subimos, só observamos o elevador que subia por um túnel envidraçado, quase flutuando.

A praça com vista para a Av. de La República (continuando na Juarez), seu monumento e a cúpula com elevador.

Chegamos ao Crisanta para tomar uma cerveja. Ele fica na frente da Plaza de La Republica, em uma zona de calçadas largas que parece ter sido (bem) feita recentemente e que deixa o pedestre em primeiro lugar. Chegando lá acontecia uma espécie de streaming para algum canal no Youtube. Além disso, teria o evento que vi no Facebook: uma promoção de cervejas. Pagamos uma entrada de 150 pesos (R$ 30) que dava direito a duas cervejas e a uma participação em um intrincado jogo de rifa cuja participação dependia do download de um app que serve de guia para cervejas artesanais. Chegou uma cerveja bem politizada, no nome — Buscapleitos — e no logo, um punho cerrado ao ar. Gostosa também. Pedimos um prato de massa para acompanhar e, como em quase tudo, um pouquinho de cheiro verde para temperar. Pouco depois de começarmos a comer, uma banda absolutamente dissonante começou a tocar e interrompeu a chance de tentar conversar no local. Sentamos do lado de fora para evitar o caos sonoro, mas por sorte a apresentação só durou duas ou três “músicas”. Terminamos mais uma cerveja e voltamos caminhando para o hotel.

6 de Julho, Ciudad de México

No começo da manhã saímos do hotel e passamos pelo Mercado San Juan, um modesto mercado municipal onde se vendem legumes, carnes, peixes e frango. Bastante frango. Era até um pouco perturbador atravessar os corredores e ouvir os funcionários de cada box cortando as aves, com o barulho bem específico que a faca faz ao atravessar a carne e os finos ossos. Além de conhecê-lo, a motivação de ir até o mercado era por ele estar bem no caminho para a estação de metrô Salto del Agua.

A peixaria e a… insetaria?

O próximo destino era o Bosque Chapultepec. Embarcamos na Salto del Agua e poucas estações depois descemos na Chapultepec: a entrada do Bosque fica logo na saída do metrô. Os esquilos recebem os visitantes logo na entrada: acostumados a receber comida, chegam perto de nossas mãos ao invés de evadirem rapidamente como seria esperado. Um viaduto de pedestres sobre a ponte da Avenida Circuito Bicentenario (que lembra muito a 23 de maio) leva ao outro lado do parque, onde fica o Castillo Chapultepec, uma construção histórica de grande importância para o México e que hoje abriga o Museu de História Nacional.

Esquilos sempre atentos ao alimento.

O Castillo Chapultepec fica no topo de um morro de onde se tem uma boa visão da região central da Cidade do México. O morro era um local sagrado para os astecas. Depois de construído o castelo foi academia militar, residência imperial, casa do presidente e observatório astronômico-meteorológico antes de se tornar um museu. O espaço conta principalmente a história da nação mexicana, exibindo peças que ilustram e materializam os contextos que desde o tempo dos espanhóis até a república.

O castelo, a vista e as escadas iluminadas por vitrais.

Terminamos a visita, descemos o morro atrás de uma das EcoBici, a rede de bicicletas compartilhadas de Ciudad de México . O totem não conseguiu autorizar a transação do cartão de crédito por algum motivo e acabamos chamando um Uber usando o WiFi grátis do parque. Chegou um Toyota Avanza de 7 lugares pra levar nós dois para Roma Norte (quando se está num grupo grande nunca vem um carro assim, não é mesmo?).

Chegamos no Pan Comido, um restaurante vegetariano que tem duas unidades na cidade, essa de Roma e outra perto do parque Chapultepec. Pegamos o que foi, na minha opinião, o almoço mais interessante da viagem: tinha salada, sopa, chips e uma espécie de burrito bem respeitoso que inclusive sobrou e pedimos para levar.

Pan Comido: sopa com um ovo dentro, chips, saladinha, imenso sanduíche.

Ali perto fica o MUCA Roma (Museo Universitario de Ciencias y Arte), mantido pela Universidad Nacional Autónoma de México. Estava acontecendo a exposição “Rótulos México”, da pesquisadora e designer Cristina Paoli. Para os mexicanos rótulos não são aquelas etiquetas que se colam em latas ou garrafas: servem para denominar fachadas e placas de lojas. E há cultura forte de rótulos feitos à mão no México. A exposição coleta, exibe e valoriza essa prática em imagens e vídeos muito bem feitos (que infelizmente ainda não consegui encontrar na internet).

Os estilos variam do espaço ao marinho, passando pelo abstrato e, claro, letras góticas.

Pegamos o metrô na Insurgentes e fomos pro sul da cidade para visitar o Museo Frida Kahlo. Foi uma viagem de uns vinte minutos naqueles trens que estão sempre cheios e quentes. Descemos em Coyuacán do lado de um shopping e pareceu uma boa refrescar com um cold brew gigante no Starbucks que apareceu em nossa frente. Retomamos alguma força e continuamos a caminhada de mais ou menos 1 km até o museu.

Chegando lá, uma fila de uns 50 metros que, de acordo com um guia do museu, levaria 1h30 para ser percorrermos. Ele sugeriu que comprássemos internet (entraríamos em menos de meia hora). Mas é claro que a rede do museu era fechada e rede WiFi aberta só a cinco quadras dalí. Acabamos chegando na bilheteria em pouco menos de 1h para poder pagar quase 200 pesos (R$ 40) na entrada comum e, se quiséssemos tirar fotos, o permiso saia por mais 40 pesos (R$ 8). Os descendentes da pintora com inclinações comunistas devem estar nadando em rios de dinheiro atualmente.

Piada pronta: numa das fotos do Streetview, a fila. Na outra, os carros-fortes que diariamente devem pegar a grana que os turistas deixam lá.

O Museu fica na casa onde Frida morou por 25 anos intermitentes com o muralista Diego Rivera e onde receberam os dois diversos artistas, personalidades e amantes. Para uma casa, é enorme. Grandes jardins, bonitas árvores no terreno. Para um museu, especialmente por 200 pesos, 
é pequeno e cheio demais. Entendo o valor de Frida Kahlo como ícone de uma mulher forte e resistente e sem dúvida sua arte e principalmente sua figura ressoam até hoje. Mas o hype e o preço da entrada não se justificam.

Saímos do museu para a Cineteca Nacional de Mexico. Nunca vi uma cinemateca tão movimentada quanto essa. Um prédio grande pelo menos 5 salas de cinema e uma galeria de exposições que tinha em cartaz a de Stanley Kubrick (a mesma que passou pelo MIS SP entre 2013 e 2014). Sentamos para descansar um pouco ali. Acabei encontrando um livro e prossegui numa pequena jornada para achar o responsável pelos achados e perdidos. Ficamos pelo menos 1 hora vendo a exposição do Kubrick e ao sair pensamos ter visto o possível dono do livro, que parecia buscar algo: não era ele, ele buscava só um cigarro. E inclusive pediu se tínhamos. Acabamos ficando na Cineteca por mais algum tempo. Comemos os sanduíches do almoço em uma das várias mesas públicas e então voltamos para o hotel.

Muita gente na Cineteca.

7 de Julho, Ciudad de México

Logo cedo saímos em busca de uma casa de câmbio, nossos pesos haviam acabado. Trocamos em uma perto do hotel, apesar de a cotação ser pior que no aeroporto — contrariando todas as expectativas. Com dinheiro trocado poderíamos partir para a verdadeira missão do dia: visitar as pirâmides de Teotihuacán por conta, sem pegar um dos passeios superprecificados das agências de turismo.

Entramos no metrô Juarez prosseguimos até Lá Raza. Curiosidade: cada estação do metrô tem um pictograma específico atribuído à ela. Caminhamos pelo já conhecido longo corredor para pegar a linha amarela até o Terminal Autobuses del Norte. Depois de comprar o bilhete e passar as malas por uma máquina de raio-x (!), embarcamos no ônibus. Passamos por algumas favelas (ou meros bairros pobres) no caminho. Escutamos um homem cantar e tocar o que pareciam ser clássicos mexicanos, trajando gravata e um terno um pouquinho maior que seu número.

Os pictogramas do metrô, as possíveis favelas e o cantor do ônibus.

Depois de pouco mais de 1 hora dentro de trajeto fomos adentrando a cidade de San Juan de Teotihuacán. O engraçado é que Teotihuacán vem do náhuatl e significa algo como Cidade dos Deuses mas, mesmo assim, decidiram agregar um San Juan na frente. É o encontro da igreja Católica com os velhos deuses da maior cidade das Américas pré-colombianas. Depois de atravessar a pequena cidade o ônibus segue mais um ou dois quilômetros por uma estrada rodeada de mato e chega ao Portão 1 da zona arqueológica. Descemos e caminhamos mais alguns metros até a entrada, onde compramos os bilhetes. A caminhada inicial é pouco glamourosa: anda-se por um estacionamento cheio e, já dali, se avistam as pirâmides. Assumo que eu esperava uma caminha mais dramática.

O céu nublado e a pirâmide do Sol. Não ajudou nas fotos, mas definitivamente deixou a caminhada mais fácil.

Não há um folheto explicativo: é preciso caçar as placas que existem espalhadas pelo trajeto para tentar entender melhor o que é que você está vendo por ali. E pra cada placa tem pelo menos uns 10 vendedores de bugigangas então é sempre bom desviar o olhar em tempo para não ser perseguido por alguns metros por um cara que quer muito te vender uma máscara ou um apito ou um colar qualquer.

A zona arqueológica fica em um vale, cercada por montanhas várias vezes maiores que as pirâmides.

Passamos umas duas horas e meia explorando o lugar sem pressa. 
Sentamos algumas vezes em cima das pirâmides para ver o a paisagem e os turistas caminhando por ela.

Essas escadas anciãs foram mais bem feitas que muita escada nova por aí.

Saímos pela Puerta 3. Perguntei a um ambulante que vendia manga fresca no copo onde poderíamos pegar o ônibus de volta. Como quase todas as pessoas à quem perguntei coisas no México, ele respondeu com boa vontade que era do outro lado da rua. Uns 5 minutos depois o ônibus que retornaria à Ciudad de México chegou. Dormimos profundamente e por sorte eu acordei em um momento aleatório e vi uns trens de metrô: opa, se já tem metrô aqui é pois estamos chegando no lugar certo. Deu tempo de acordar meu pai, levantar e sair correndo para desembarcar na Índios Verdes, a estação terminal da zona norte. Atravessamos umas escadas estranhas, pagamos o bilhete, entramos no trem. A viagem seria bem mais rápida que a de ida, sem termos que caminhar pelo conector pedestrial de La Raza. Não fosse pelo fato de que nos esquecemos de uma sacola com as duas compras feitas na pirâmides dentro: uma máscara e uma pulseira.

Então lá fomos nós de novo para a La Raza. Caminhar até a linha amarela, pega o trem, desce na Autobuses del Norte. Quinze minutos esperando o atencioso funcionário da Autobuses Teotihuacán S.A. de C.V. procurar a nossa bolsa de plastico amarilla. Negativo. Não encontraram a máscara e a pulseira. A fome já batia, ficamos ambos irritados e chateados. Pegamos o metrô e mais uma vez na mesma estação. Durante a caminhada decidi contar os passos (652) e degraus (120) para tentar me distrair. Pegamos o trem para o sul até a Niños Héroes. Achei esquisito o nome, fui pesquisar: foram 6 os niños, na verdade adolescentes. Morreram defendendo a pátria durante a invasão dos Estados Unidos ao Castelo de Chapultepec em 1847, durante a guerra que o México travava com o vizinho do norte.

A intenção era compensar a irritação e a fome com uma comida gostosa. Chegamos ao Forever Vegano, que funciona em um prédio de Roma Norte que parece uma cópia (até que bem feita) da Casa Batlló, em Barcelona. Comida um pouquinho mais cara que o esperado, mas boa: uma espécie de pad-thai com um toque mexicano de aguacate e um risoto de quinoa. Pedi uma bebida rosada que chama-se mauco: borda com sal, água de coco, kombucha e algo mais que já não me recordo.

Saindo do restaurante esforçamo-nos em mais um pouco de caminhada, desta vez até um local chamada Fusión que havíamos conhecido por um flyer encontrado saguão do hotel. Era uma casa com várias pequenas banquinhas e pequenas lojas de produtos artesanais e/ou de diseño, mais ou menos parecida com todas as outras que existem por aí. Tudo meio caro demais pelo que era oferecido. Estávamos suficientemente cansados para andar o quilômetro e meio até o hotel que pedimos um Uber.

Passei o final da tarde e o começo da noite em una guerra con las cosas, tentando encaixar as coisas em uma mala, ora em outra, ora jogando embalagens fora e embalando coisas com roupas e usando soluções esdrúxulas. Qualquer coisa que tivesse potencial virava uma Matryoshka: cabo USB e pregadores plásticos dentro de uma cafeteira de vidro que por sua vez estava em dentro de uma caixa com pequenos souvenires e caneta e brinco e… etc. Eventualmente deu mais ou menos certo.

Fomos jantar no El 123, a apenas 1 quadra do hotel. Era um restaurante que (de novo?) misturava culinária asiática com a mexicana e, fora isso, tinha uma pequena galeria de arte na parte de cima. Pedi um hambúrguer de camarão (R$ 18) que veio bem feito e bem servido. Lá dentro tocavam músicas boas. Valeu a pena como última janta na capital.

Tomei uma Índio (35 pesos) e meu pai uma Colimita (70 pesos). Belos rótulos.

8 de julho, Ciudad de Mexico

Já era o último dia na Cidade do México e não tínhamos muito mais o que fazer progamado. Acordei as 08h30, demoramos a tomar café e só saímos lá pelas 10h00. Atravessamos uma praça onde era contada uma feirinha. Ainda incipiente, barracas sendo instaladas, produtos sendo colocados a mostra.

Chegamos a uma praça que tinha duas igrejas, o museu Franz Meyer e o Museu de la Estampa. No último havia uma exposição sobre a impressão editorial mexicana, um apanhado bastante completo que partia do tempo dos espanhóis até o início do século 20. Ainda assim, um pouco tedioso e, como para se tirar fotos era preciso pagar um permiso de 10 pesos, não foi uma ideia muito proveitosa. O mais curioso foi notas com atenção as construções daquela praça. As paredes dos Museo estavam tortas, o chão era ondulado, a Igreja estava inclinada em alguns graus. Se projetadas, as paralelas dos edifícios se encontram. Os pisos de pedra estão rachados ou com desníveis. A Cidade do México afunda e seus edifícios entortam, mas ainda não entendi se isso ocorreu por conta dos terremotos ou do afundamento do próprio solo.

A igreja torta, a saída do metrô e a torre Latinoamericana.

Atravessamos a Avenida Hidalgo. Justamente na altura da praça a avenida muda de sentido de direção. Para o leste, é mão inglesa. Para o oeste, não. Nunca havia visto isso ao vivo e o mais estranho é que não estava diante de uma fronteira nacional e sem no centro da capital do país.

Observar este cruzamento com atenção é certeza de confusão mental.

Entramos no Palácio de Bellas Artes, que apresentava uma exposição sobre o Diego Rivera e sua Relação com Pablo Picasso e uma exposição sobre projetos multifamiliares, essa dentro do Museo Nacional de Arquitectura, que fica no mesmo prédio. Já cansados de museus, pulamos duas exposições potencialmente boas e nos contentamos somente em observar o saguão interno do prédio, revestido em mármore avermelhado e desenhado com ângulos retos e um imenso pé direito.

Saindo dali nos deparamos com a loja Sears, um ícone das lojas de departamento no início da segunda metade do século XX. Ao lado da Sears havia um prédio colado parede com parede. Ou quase: na parte inferior eles estavam unidos, na superior havia um vão de pelo menos uns 50 centímetros. Mais um dos prédios tortos da cidade.

O prédio torto de longe, close na parte inferior e na parte superior do vão.

Entramos na loja de departamento e tomamos direto o elevador para o sétimo piso. Lá, a varanda de uma cafeteria oferecia uma vista de boa parte do centro mas o acesso, claro, era restrito a quem consumisse. Inabalados, subimos mais um andar e, ao lado de um corredor de máquinas de lavar MABE, pude fotografar a vista de um andar mais alto do que aquele de antes. Descemos as escadas rolantes para ser, atravessando a imensa loja com seus vários departamentos diferentes, expostos de maneira antiquada.

A boa vista do Palácio de Bellas Artes a partir do oitavo andar da Sears.

Seguimos para o sul pelo Eje Central Lázaro Cardenas pela calçada esquerda. Centenas nas ruas, era preciso cuidado ao andar. E dezenas de lojinhas de eletrônicos e pessoas oferecendo Corel, Adobe, Cinema 4D e outros programas piratas para PC y MAC. A pergunta padrão era: 
que programa necessitam? Algumas quadras e milhões de pesos em mercadorias falsas e genuínas depois, chegamos ao Futura CDMX, 
ao lado do Colégio Vizcaínas.

Estávamos ali pois queria ver aquele museu: ao que havia entendi, era um museu sobre o passado, presente e futuro da Cidade de México, contado pela empresa municipal/metropolitana de urbanização. O grande atrativo, no entanto, era um videomapping projetado sobre uma imensa maquete da cidade. Parecia bom, mas precisávamos aguardar 40 minutos para a sessão iniciar. Comecei assistindo sem a tradução do áudio guia e toda minha confiança em compreender espanhol foi-se por agua abaixo: a sala reverberava demais. O primeiro vídeo contou sobre a ocupação pré-hispânica da região da cidade do México e o segundo, sobre a evolução mais recente da capital. Este último era o que mais ansiava em ver, mas me decepcionou um pouco: parecia propaganda institucional do governo 
Pouca apresentação de números algumas questões claramente omitidas, etc. 
Apesar de tudo, os dois vídeos eram muito bem produzidos.

A maquete do lado de fora e a do lado de dentro. Apesar da pirotecnia, o Futura CDMX é um esforço bonito para retratar urbanisticamente a cidade.

Já eram duas da tarde quando saímos dali e fomos para o Abadía, um restaurante próximo que funciona em um antigo convento e é anexo a um asilo. Não faço ideia como conseguiram comprar aquele espaço e convertê-lo em restaurante mas foi uma empreitada de sucesso (apesar de ter leds coloridos no teto!). Pedi um Pozole de mariscos que veio bem servido e ligeiramente apimentado. Além de famigeradas tortillas, acompanhava um pratinho com pimenta calabresa, cebola roxa picada e limão, para o caso de o comensal achar que ainda falta sabor e picância no prato (não faltava).

Comida boa, lugar bonito. Só a iluminação com leds coloridos era bem estranha.

Nos apressamos pelas ruas cheias de volta ao hotel. Peguei um café, usei pela última vez a amada máquina de gelo e chamamos um Cabify. 21 min, cancelei, chamei um Uber. Três. Cinco. Sete minutos para chegar, cancelei. Chamei mais um e finalmente veio o señor Luis Antonio com seu Volkswagen Vento. Foram 26 minutos pra percorrer os 10 km até o aeroporto.

Chegando no aeroporto, tivemos uma curiosa experiência de check-in na Volaris: os computadores são PCs all in one e não totens como de costume. O bilhete e a tag de bagagem são impressos no A4 e não em papeizinhos de impressora térmica. Era agitado mas funcionou de maneira rápida e prática. Mais ou menos como resto do que vimos na Cidade do México. Passamos pela segurança e pelos corredores e salas do aeroporto e Volaris 706 decolou no horário para Cancún. Logo chegaríamos a Playa del Carmen.

Continue lendo sobre Playa del Carmen aqui.

Y4706 MEX > CUN
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