Petrópolis, Teresópolis e Rio

Comecei a escrever estes relatos muito tempo depois de viajar. Geralmente me forço a escrever assim que chego em casa, mas esse foi diferente. Provavelmente alguns detalhes daqueles mais estranhos e mundanos, fiquem de fora.
Vou fazer o melhor.

15 de junho, quinta

Pegamos o avião as 10h. O voo era de Curitiba pra Congonhas e de lá para o Santos Dumont. Como dita o padrão na escala peguei uma bela quantidade de mini sanduíches, chás e doces na salinha do cartão. Queria muito um café mas não pude: uma gastrite me perseguia há alguns dias. Chegamos no Santos Dumont umas que, do lado de dentro e de fora é o aeroporto mais charmoso de sempre. Pelo menos do Brasil.

A Ilha Fiscal, um navio de marinha e o A12, o único porta-aviões do Brasil (agora aposentado). Ao fundo, o Santos Dumont.

Pra mim é bem pouco usual descer de uma avião e partir pro volante de um carro, mas é isso que faríamos dessa vez. Alugamos um carro por 3 dias por R$ 200. Iríamos para cidades menores, tínhamos pouco tempo, as estradas pareciam bonitas: nós fizemos um roteiro no qual o carro alugado se encaixava tão bem e, ao mesmo tempo, o roteiro foi feito sabendo que estaríamos com um carro alugado. Depois de uns 10 minutos no balcão e meia hora esperando a van, pegamos nosso Ford Ka. Dica: com pouca mala é mais rápido ir do terminal ao pátio da Avis à pé do que de van.

Arrumei os espelhos e o banco, engatei a primeira. Passamos pelo MAM e tomamos o rumo para Petrópolis. Pegamos a General Justo e logo entramos no gigantesco túnel Prefeito Marcello Alencar que teletransporta os carros embaixo do centro do Rio a 80 km/h. Era domingo, pista relativamente vazia, tanque cheio, carro novo. Mas o óculos de sol ficou em Curitiba. Paciência. Passamos por um lugar muito fedido perto do Galeão e seguimos num retão imenso até começar a subir a serra. Não tínhamos almoçado ainda, sentia a gastrite me acompanhar. Paramos num restaurante na estrada pra ir ao banheiro —teimosos, não comemos nada — e continuamos subindo.

No finalzinho da subida um mirante. Estacionamos o carro ali, subimos, tiramos umas fotos. No ponto mais alto do mirante, uma cruz. Lá embaixo se via o Rio de Janeiro, encoberto por um pouco de névoa mas, de fato, era o Rio e toda sua Guanabara. Estávamos a 850 m acima do mar e o tremendo aclive da serra adicionava bastante dramaticidade.

O quase-cume da estrada.

Continuamos pela estrada e logo chegamos na cidade. Decidimos parar no Palácio Quitandinha, já que passaríamos por ele de qualquer maneira. Nunca vi nada parecido no Brasil: era como se tivéssemos acabado de chegar ao Grande Hotel Budapeste, mas sem a paleta rosada. Um terreno imenso com gramados e um lago emoldurava o prédio. Estacionamos o carro com o flanelinha irritantemente sugerindo manobras. Entramos no prédio, que tinha a parte histórica mantida pelo Sesc. Descobrimos que ainda tínhamos 8 minutos para fazer a visita — sorte.

Bem vindos ao Grande Hotel Quitandinha.

Caminhamos pelos saguões e salas e salões imensos. Corredores com mármore e cerâmica em um estilo meio indecifrável que, de novo, só faria sentido em um filme esquisito. Algumas exposições de arte. Uma cozinha abandonada e gigante, revestida com azulejos brancos perturbadora. Ali fazia-se comida para todo aquele prédio de 10 mil metros. E de ver a cozinha me lembrei que tinha muita fome. Continuamos a visita. Uma espécie de bar dançante, um teatro. Uma sala redonda de uns 30 m de diâmetro que reverberava um estalar de dedos por cinco ou seis vezes. E uma pista de boliche que parecia um pouco com a pista de boliche da Casa Branca.

A cozinha, o teatro e o corredor.

Saímos dali e seguimos na direção do centro. A fome era forte. Olhos ao mesmo tempo no restaurante e no caminho para a casa do AirBnB. Passamos da entrada da casa. Nada de restaurante. Retorno arriscado com o carro alugado, de volta para o caminho e por fim chegamos na grande casa, com um grande quarto com móveis antigos. O banheiro ficava do lado de fora e a cozinha em uma espécie de edícula. Tínhamos trazido comida de Curitiba e potinhos de queijo e manteiga surrupiados da sala vip do aeroporto. Conseguimos enganar a fome por mais alguns minutos mas logo partimos para o centro em busca de uma refeição de verdade.

A cama do não foi arrumada para a fotografia.

A avenida pro centro tem jeito de estradinha antiga e uma pista para cada sentido. Era um começo de noite de quinta feira e o centro começava a esvaziar-se, mas ainda havia uma movimentação agitada, típica dos momentos que antecedem um feriado. Paramos o carro numa vaga a 45˚ em uma rua qualquer: era o único lugar que encontramos para estacionar. Demos uma volta na quadra e nada de restaurantes que parecessem apetitosos: só um terminal rodoviário, lojas fechando e um mercado. Entramos no carro e saímos um pouco à esmo: o lugar que estava aberto ia ter sertanejo universitário, fora de cogitação.

Prosseguimos para o que parecia ser um bairro meio chique de Petrópolis e encontramos um restaurante japonês. Seria ele uma boa opção para alguém com gastrite? Talvez sim, mas só se fosse mais barato. Achamos no mapa um Hare Burger e fomos pra lá. Comida vegetariana no preço certo e que provavelmente seria saudável. Só que não tinha banheiro. Esperei a comida sozinho enquanto Flávia se aventurava pelas ruas da cidade em busca de um banheiro para chamar de seu. Chegou. Primeiro a Flávia e depois a comida. Foram vários tipos de alívio enquanto dividíamos aquela sopa de lentilha e o hambúrguer vegan.

Depois de comer fomos dar uma voltinha nas redondezas, havia uma pracinha bem agradável. Um dos cantos da praça tinha vista para a Catedral de Petrópolis. Nos bancos da praça bastante gente, alguns namorando, outros com cachorros. Crianças brincando. Achamos esquisito tanta gente na rua tão tarde da noite, mas a verdade é que isso só mostrava como estávamos cansados, pois mal passara das 20h.
Fizemos o que era mais correto e voltamos para o a casa dormir.

Deu vontade de andar por essa rua, mas deixamos pra amanhã. Boa noite, Petrópolis.

16 de junho, sexta

Acordamos e, depois de uns passos no piso de madeira que sempre rangia, descemos para a cozinha. A hospedagem pelo AirBnB tinha café da manhã incluído, uma raridade. Tinha mais dois casais lá, ficamos tentando adivinhar sem sucesso de qual deles eram os indiscretos ruídos da noite anterior. A comida era simples mas bem razoável, nos deixou alimentados.
No banheiro vi a melhor vista da casa. Podia ser no quarto, mas tudo bem. Arrumamos as malas, colocamos no carro e deixamos o quarto antes das 10h da manhã. Outra vantagem oculta de alugar um carro: dá pra jogar tudo dentro dele, você não precisa voltar pra pegar as malas se for dar uma volta antes de ir embora da cidade.

Era meio incrível e um pouco injusto que a vista do banheiro fosse assim tão boa. A do quarto era sem graça.

Pegamos o carro e fomos para o centro de Petrópolis. Estacionamos do lado da praça onde havíamos passeado na noite anterior. A moça de amarelo que vendia o estacionamento rotativo estava ali por perto e garantiu que não estavámos estacionados ilegalmente (apesar de parecer que sim).

Fomos para a casa do Santos Dumont. Podia ser um pouco mais barata para entrar, mas valeu a visita. Pitoresca. Pequena para a personalidade e os feitos do Sr. Alberto. Sem cozinha já que a comida vinha diariamente do hotel vizinho. E com a famosa escada que leva o nome do inventor, variando a espessura maior do lado direito ou esquerdo a cada degrau.
Durante a visita alguém comentou que ele fora um precursor até no estilo de casa que escolheu para suas estadias em Petrópolis: aquela casa era verdadeiramente um loft.

A casa do Alberto, quando ele cansava do 8˚ arrondissement

Depois da casa do inventor do avião cruzamos a Praça da Liberdade e fomos no rumo da Catedral, atravessando a Avenida Köeller e seus vários casarões. Um deles é o Palácio Rio Negro, usado como residência oficial de verão pela Presidência da República principalmente antes da transferência da capital para o Planalto Central. O lugar é charmoso, espaçoso e bem decorado.
Mas precisa de reparos caso alguém queira voltar a usufruir dele. Revestimentos descascando, coisas sujas aqui e acolá, piso precisando de uma reforminha. Mais ou menos como a democracia.

Detalhes da casa de verão dos presidentes, em situação condizente com a da política.

Caminhamos até a Catedral, entramos e olhamos. Na saída nos esquivamos de um vendedor de amendoim insistente, fomos abordados por um pedinte com motivação social-religiosa e, finalmente, chegamos ao Palácio Imperial. No entanto já batia a fome e a gastrite mandava o recado: hora de comer.

Almoçamos no San Te Tang, mais um restaurante vegetariano taiwanês para entrar no rol dos visitados. É sempre uma grande curiosidade ir comer em um vegetariano desses, mesmo já tendo uma ideia do que está por vir. Neste a experiência foi boa, mas não fugiu ao comum. Vários pratos com fritura, muita coisa ligeiramente fria, cházinho grátis no final. Ainda precisamos criar um guia de restaurantes vegetarianos taiwaneses e descobrir por que é que há tantos por aí (ao menos um em cada grande cidade: Assunción, Montevideo, Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Curitiba e, agora Petrópolis).

A típica comida vegetariana-taiwanesa globalizada.

Saímos no restaurante e entramos no Palácio Imperial. Na primeira fila dele, na verdade, para o ingresso. Quase meia hora depois, ingresso em mãos, fila n˚ 2: da entrada. Essa levou mais meia hora ou quarenta minutos.
Vantagens nem sempre percebidas de não se viajar sozinho: revezamos visitas ao jardim enquanto o outro ficava na fila. Tinha um Dom Pedro II em uma pose engraçada no meio do jardim.

Entramos no edifício. Primeiro se calça um protetor de calçados. Depois deixa a bolsa e a câmera no guarda-volumes: fotos lá dentro são proibidas. Mesmo sem flash, mesmo sem tripé, mesmo tendo pago pra entrar e mesmo sendo (talvez por isso?) as origens do Brasil que estão lá dentro. Quase duas horas lá dentro vendo quadros, tapetes, móveis, pratarias, berços da família real, etc. Um museu rico, mas um pouquinho cansativo. Saímos com um pouco de pressa: estava vencendo o estacionamento rotativo.

A única foto do Palácio Imperial, já que por motivo desconhecido não se pode tirar fotos do lado de dentro.

O caminho estava congestionado para chegar ao Palácio de Cristal, nossa última parada antes de ir embora. Resistimos no trânsito, afinal não havia um retorno ou segunda opção. Conseguimos uma sortuda vaga perto do Palácio e, em 5 minutos, visitamos o local.
Era um espaço que tinha ao mesmo tempo jeito de salão de baile e estufa botânica. Algo antigo, medianamente cuidado mas com algum charme dado especialmente pela praça simpática em que se encontra.

O Palácio de Cristal, que é uma versão mais humilde do homônino madrileño.

Aproveitando a vaga da sorte fomos até a Cervejaria Bohemia, já pensando que não faríamos a visita completa (que custava mais de R$ 30).
A não-vontade de visitar foi mantida quando pisamos lá dentro: parecia
uma feirinha qualquer de produtos alternativos comprados por gente que descobriu nos últimos anos que gosta de cerveja, cof, artesanal. Inegável que o espaço e a fábrica eram mesmo bonitos: tijolos aparentes, vidro e toneis gigantes e lustrosos davam o tom industrial do local.

Por fim pegamos a estrada no sentido norte. Antes da entrada para Teresópolis pegamos um leve congestionamento. Mas logo estávamos na estrada Philuvio Cerqueira Rodrigues que serpenteava pela serra na direção leste. Paramos em um terreno para ver o sol se pondo. Ali era uma escola mas, agora, era a casa de um homem solitário que pôs-se a elogiar aquele lugar e a dizer como a vida dele ficou melhor depois que ele largou Petrópolis e se mandou para o meio do serra. Seguimos mais um pouco e encontramos um mirante oficial. Era incrível a vista.

Poder parar na estrada pra ver um pôr-do-sol desses é um dos principais motivos pra alugar um carro.

Chegando em Teresópolis paramos para algumas compras em um mercado e então fomos para a casa do AirBnB na estrada Terê-Fri. Tínhamos fome e cogitamos comer o miojo que levamos, mas abortamos a ideia e partimos para um restaurante italiano com cara de diner americano que vimos antes na estrada. Era esquisito demais e caro demais. Seguimos à próxima opção, um restaurante chamado Green Valley dentro de um condomínio-clube. Igualmente esquisito e caro, mas lá ficamos e comemos um peixe com arroz e purê. Muito arroz e purê. Mandamos empacotar a sobra. Estávamos cheios e absolutamente cansados. A cama nos recebeu bem.

Que lugar estranho e brega em que viemos parar.

16 de junho, sábado

Mais uma vez acordamos com uma bela vista, mas dessa vez era no quarto mesmo. Tomamos o café comprado no dia anterior no mercado e conversamos com nossos anfitriões, um casal de pouco mais de 50. Ele aposentado, ela dona de um salão de estética num shopping de Teresópolis. O homem se prontificou a nos acompanhar no passeio da manhã.
Mesmo se a gente quisesse de verdade, foi difícil recusar (e talvez
a gente quisesse, na verdade).

O varal com as roupas de cama serve pra dar o tom de realidade.

Entramos no carro os três e pegamos a estrada Terê-Fri no sentido Terê.
Uns cinco minutos depois pegamos a esquerda para tomar o sentido sul na Rodovia Santos Dumont. Uns 20 minutos depois chegamos a um trevo ao lado de um mirante com um estacionamento cheio de carros: é o Alto do Soberbo, um mirante de onde se vê o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, a cidade de Guapimirim logo abaixo e a baía de Guanabara ao fundo.
Uns 180 graus de variedade geográfica ao alcance dos olhos.

É preciso acreditar que embaixo das nuvens existe a baía da Guanabara.

Depois dali seguimos para a Feirinha do Alto, uma feira de artesanatos misturada com comida e itens que provavelmente foram fabricados na China. O nosso simpático anfitrião do AirBnB não nos largava, mas sentiamos que era hora de ficar sozinhos (e parecia que ele também). Pedimos uma tapioca, ele não comeu mas nos observou. Quando decidimos procurar um suco, por fim ele decidiu ir embora: ia encontrar sua mulher ali perto e nós seguiríamos a sós para o Parnaso (Parque Nacional da Serra dos Órgãos).

Compramos um refrigerante esquisito no mercado, voltamos para o nosso Ford Ka alugado e fomos para a entrada do Parnaso, a menos de 1 km dalí. Já era perto do meio dia e uma fila havia se formado na entrada do parque. Aguardamos uns 15 minutos no acostamento. Gradualmente a fila crescia atrás da gente. Pagamos uns R$ 40 no parque: pelo estacionamento e pelas duas entradas. Pouca sinalização pelo caminho, fomos subindo até onde parecia o lugar certo para começar a caminhada. Descemos do carro, subimos uns 5 minutos mas… Vontade de ir ao banheiro. Onde tem? Só la embaixo, mais pra baixo de onde ficou o carro. E lá descemos por mais uns 5 minutos até o banheiro. Ouvi um casal falar que atravessou o parque desde a entrada de Petrópolis mas que o carro deles ficara em Petrópolis e agora teriam de ir até a rodoviária pegar um ônibus para voltar ao outro lado e pegar o carro. Que trabalho. Voltamos para a subida.

Havia uma árvore no meio do caminho.

Primeiro se caminha por uma estradinha. Vez ou outra passa um carro esperançoso de um lugar para estacionar num ponto mais alto. Entramos em na trilha da Primavera, 450 m. Pelo meio do mato, para ir se acostumando ao local. A saída dela nos deixou de volta na estradinha. Subimos um pouco mais e entramos na trilha Cartão Postal, dificuldade moderada, 1200 m. Foram uns 40 minutos caminhando e subindo e descendo, pisando em galhos e cruzando outros turistas, de crianças enjoadas de andar a idosos esforçados em seguir adiante. O final da trilha é a justificativa de seu nome.

O Dedo de Deus é a pedra que parece um dedo. Há pessoas lá em cima. E as nuvens sobre a Guanabara já tinha ido embora.

Fizemos o caminho de volta, descemos toda a estradinha e chegamos ao lugar onde havíamos largado o carro. Foi bom sentar no assento do carro depois daquela caminhada, acelerar e sentir o chão se mover sem grande esforço de nossas pernas. Seguimos em direção ao centro. Passamos por uma praça com uma igreja e encontramos o estacionamento que nosso anfitrião do AirBnB nos recomendou: R$ 2 a hora.

Difícil decidir se mais incrível era a vista ou pagar R$ 2 a hora para estacionar.

Deu tempo de visitar a Casa da Cultura Arthur Dalmasso. Era um lugar que contava a história da cidade de Teresópolis em banners impressos. Os banners eram um pouco feios e podiam estar na internet ou em qualquer outro lugar. Mas a história era interessante: ingleses, holandeses, alemães, veio gente de vários cantos empreender (e explorar) a cidade fluminense com clima europeu que ficava perto de Petrópolis, a cidade-sede do império durante o verão. Curiosamente, em seus primórdios, Teresópolis era mais facilmente acessada a partir do Rio do que de Petrópolis, já que a Serra dos Órgãos se fazia naquela época um obstáculo ainda maior que hoje.

Enquanto estávamos na Casa de Cultura recebi um sms (!) de meu amigo Guilherme, que conheci num hostel de Santiago, Chile, em 2011. Encontrei ele de volta aleatoriamente nas ladeiras de Valparaíso e pareceu acaso suficiente pra manter contato nas redes sociais deste então. Marcamos na sorveteria Gioia, a 2 quadras dali, em 15 minutos. Guilherme chegou com uma entourage variada composta de irmã, cunhado, namorada e um francês. Conversamos algum tempo por ali enquanto uns tomavam café, eu e Flávia comíamos uma torta (mesmo sabendo da minha gastrite) e outros não consumiam nada. Saímos da sorveteria para ver outros grandes atrativos
do centro da cidade e, na falta destes, demos uma olhadinha rápida
no Sesc e decidimos subir um mirante qualquer que
ficava perto da entrada da rodoviária.

Voltamos andando pro estacionamento, que não era nem longe nem tão perto mas acima de tudo uma subida. Colocamos o mirante no Google Maps e acima fomos, desconfiados da possibilidade de estarmos subindo uma potencial favela. Chegamos lá e eles já lá estavam. Na verdade, já estavam indo embora. Não tinha certeza se veria aquele sujeito novamente, mas foi um passeio engraçado, tão aleatório quando o encontro em Valparaíso. Tiramos umas fotos da cidade anoitecida ali de cima e corremos pro carro, já que não parecia super seguro ficar por ali. Observamos um pouco mais do morro de dentro do casulo automotivo e logo descemos.

Lá em cima do morro, de dentro do carro, com o farol ligado.

Fomos de volta pra região da Feirinha do Alto, em uma cervejaria recomendada pelo Guilherme. Acreditamos piamente no Google Maps e seguimos por uma vila absurdamente apertada. Um ônibus de linha ia em nossa frente e nos dava a segurança de que aquilo não era um beco um beco sem saída e que, se ele passava, nosso Ka não haveria de entalar.

Eu realmente estava com medo deste lugar.

Não bastasse a gastrite havia também o carro em minha responsabilidade, portanto ir à uma cervejaria foi um ato de imensa bondade com Flávia, a única que poderia beber. O lugar era bem pequeno mas uma das 5 mesas estava livre para nós. Boa música de vinil tocado em um som chiado como haveria de ser. Boa cerveja, provei alguns mililitros inofensivos. Eram dois estabelecimentos gêmeos: o da cerveja artesanal e um bar mais clássico com garrafas 600 ml da AMBEV e umas comidas de bar. Pedi uma sopa portuguesa que vinha com pão e ovo metidos dentro de um copo americano extra grande. Era muito esquisito mas conseguiu ser bem gostoso. Pelo menos bem interessante, isso com certeza. Algum tempo depois Guilherme chegou e conversamos mais um pouco. Dalí a pouco eles iam para um jantar num restaurante que servia massa com queijo derretido no maçarico, o que era um impedimento para minha condição gástrica e uma grande tristeza psicológica. Queijo e maçarico, como não ficar triste de não aproveitar?

Saimos do bar e cruzamos Teresópolis na direção norte da estrada Terê-Fri. Chegamos e encontramos nossos anfitriões vendo algum programa qualquer na TV. Comemos o o arroz e purê que sobrou da janta do dia anterior.
Um pequeno festival de carboidratos logo antes de dormir.

17 de junho, domingo

Acordamos cedo e tomamos o resto do café que tínhamos levado. Juntamos as coisas e colocamos tudo no carro. Demos uma leve arrumada no quarto, nos despedimos dos anfitriões e entramos no carro rumo ao Rio. Mesmo caminho do dia anterior até o mirante do Soberbo e dalí para baixo pela serra, que termina em Guapimirim e dalí até o Rio é só reta.

Chegamos no Rio perto do meio dia e meio perdidos, sem muitas opções em mente, fomos pro centro. O centro no domingo estava extremamente vazio mas, ainda assim, conseguimos estacionar o carro num local proibido. Descoberto o erro o carro foi reposicionado e seguimos andando umas 4 quadras até o CCBB pra descobrir que, aos domingos, é possível estacionar de graça na porta do centro cultural.

Vimos a exposição numismática permanente nas portentosas salas dos pisos superiores do edifício. Depois, uma bem produzida exposição sobre o biquíni que tinha cheiro de protetor solar e areia de verdade.

Depois de espiar o caríssimo buffet de saladas do Verso, o restaurante dentro do CCBB, fomos almoçar ali do lado no Bar do Gengibre, onde nos serviram um justo prato-feito. Enquanto comíamos se aproximou um jovem de mochila daquelas que o pessoal da firma usa. Aquelas que combinam com uma camisa social sem graça e um fim de tarde na Berrini. Fora isso ele vestia uma camisa, bermuda e, se bem me recordo, Havaianas.
Era uma escolha peculiar de roupas e acessórios que casava bem
com a disciplicência fashion comum do Rio mas não com o que ele falaria:

Oi, tudo bem, desculpa incomodar… Sou mochileiro. Eu tô querendo almoçar e to juntando dinheiro pra comer um PF ali do lado (no Cais do Oriente) mas falta R$ 7 ainda. o PF é R$ 25 e tá faltando R$ 7.

O cara tava pedindo grana. Pra comer. Um PF de R$ 25. VINTE E CINCO REAIS. No Cais do Oriente, que o Google resume assim: “A restaurant with a high-end varied menu in a converted warehouse with simple décor & exposed beams.”.

Eu só recusei, falei que não tinha grana pra dar e que távamos na mesma dele (há pouco recusamos a salada cara pra pegar um PF de R$ 21) e ele, como que ironicamente, respondeu: espero que vocês não passem muita necessidade igual a mim. Muita raiva. Um “mochileiro” de mochila social? O cara veio de Seropédica passar o dia no Rio e enganar otário, só se for.
Eu fiquei com vontade de procurar o cara depois e escrachá-lo verbalmente. Mas só reclamei no Facebook mesmo.

Do restaurante caminhamos pela região em busca do Centro Cultural da Marinha. Eu queria bastante ir fazer o passeio até a Ilha Fiscal mas, ao mesmo tempo, estava com preguiça e queria ir logo pro hotel. Andamos pela área “revitalizada” do centro até perto do Museu do Amanhã: estava tudo novo mas o cheiro de xixi era (continuava?) uma constante. Voltamos para o carro, que sobreviveu intacto no centro vazio. Seguimos para a locadora do Santos Dumont para devolver o veículo, mas antes passamos num posto para encher o tanque (de álcool!) pelo pesado valor de R$ 130. Será que combustível no Rio é caro ou todo lugar é caro assim?

Saímos da Avis e fomos caminhando até o Prodigy Hotel Santos Dumont, que fica literamente junto ao aeroporto. Apesar de cara a diária, parecia valer a pena, especialmente com um desconto de U$ 40 do Booking. Entramos no apartamento e fui direto pra janela: vista para uma praça de alimentação, com direito a brisa de fast-food entrando pela janela. Um pouco triste, mas é o que se tinha direito pagando a diária menos cara. Ao menos o quarto era bonito, grande e confortável.

Praça de alimentação / Quarto / Praça de Alimentação / Quarto

Subimos até a piscina, no terraço. Geralmente tudo vale a pena se a piscina não é pequena. E até que não era pequena. Mesmo fria, entrei na água, em meu eterno auto-compromisso com corpos d’água. Foi gostoso estar ali dentro e acho que melhor ainda se secar ao sol no terraço.

Momentos refinados.

Ficamos ali em cima algum tempo, nas espreguiçadeiras ou caminhando pelo terraço. A (minha) maior diversão era o aeroporto. De um lado se podia acompanhar os aviões na volta descendente rumo ao pouso na 02L
do SDU. Do outro, o movimento dos carros chegando ao terminal.

Saímos do hotel para caminhar pela orla marítima da Glória. Passamos pelo MAM mas não entramos — pra essa viagem já bastaram os vários museus de Petrópolis. Seguimos até a Marina da Glória, ex-propriedade de Eike Batista e que foi reformada para um padrão gourmetizado ao melhor estilo da palavra. Acontecia lá um festival de cinema ao ar livre com sessões lotadas em quase todas as datas de exibição. Era fim de tarde e os prédios do centro do rio emergiam atrás dos mastros oscilantes.

Para mim, uma vista inédita do Rio.

Tomamos o que achamos ser o caminho de volta: era um acesso sem saída para a pontinha da Marina da Glória. Voltamos caminhando pelo piso de concreto da própria Marina e não encontramos ninguém ali até chegar no Santos Dumont. Entramos no Bossa Mall, o shopping junto ao hotel, e fomos até o burger joint comer um hambúrguer vegetariano. Surpresa: a opção vegetariana do local substituia a carne por um gigantesco queijo empanado. Foi a prova de fogo da minha gastrite. Comi e nada aconteceu. Ufa.

Voltamos ao terraço para observar a noite. O centro do Rio devia estar ainda mais vazio do que durante a tarde. As torres de escritórios, quase todas escuras, aguardavam o dia seguinte.

Domingo à noite no Rio.

O trânsito no aeroporto continuava frenético, era final de noite de um domingo de feriado e muita gente devia estar voltando pra casa. Ou indo pro trabalho. Nós voltaríamos na manhã seguinte, no voo das 6h. Era prudente ir dormir.

18 de junho, domingo

Acordamos às 5h30 da manhã e fomos direto pro café que, obrigado hotel, já estava aberto. No salão do refeitório a TV com o sistema de informação do aeroporto mostrava que nosso voo estava com o check-in aberto. Enquanto comíamos, passou pra embarque próximo. A partida era as 6h50 da manhã. Saímos do hotel às 6h15, caminhamos alguns metros pelo shopping, entramos no aeroporto e às 6h27 estávamos dentro do avião, mesmo depois de uma fila imensa (porém veloz) na inspeção de segurança.
Terminamos a viagem ao Rio com um recorde no que diz respeito a deslocamentos para o aeroporto. Antes das 7h da manhã já estávamos no ar.

Até mais, caro Aeroporto Santos Dumont.
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