Relatos de Asunción

Para chegar a Asunción, voamos para Foz do Iguaçu e, de lá, pegamos um ônibus. Na foto, Foz e Ciudad del Este.

9 out

Depois de uma viagem de ônibus que levou 6 horas chegamos no Terminal de Omnibus de Asunción, que parece que parou na década de 70 ou 80. Tudo tinha cor de tijolo ou era verde escuro, encardido. Pegamos o primeiro táxi que apareceu: uma perua velha asiática, sem cinto de segurança e com um imenso porta-malas. Apesar de tudo, o taxista pareceu confiável e ligou o taxímetro. Como era tarde da noite, nos cobrou uma tarifa extra de 30%.

O táxi.

Acompanhei o trajeto pelo mapa do celular, que milagrosamente mostrava nossa posição mesmo sem rede de dados. Por algum motivo, nenhum dos endereços que marquei em Asunción tinha o número do estabelecimento na rua. Chegamos perto do hostel e não o achávamos. Por pouco pensei que ele não existia mas foi só dar a volta na rua e pronto, lá estava o Arandu Hostal.

A reserva de 3 noites saiu por 30 dólares a noite no quarto privado, com banheiro, TV e ar-condicionado.

Estava com sede de alguma coisa gelada e perguntei ao recepcionista. Ele deu a direção de uma loja 24 horas que ficava a umas 5 quadras de distância. Já passava da uma da manhã mas mesmo assim ele falou que era tranquilo caminhar até lá. De fato foi.

Compramos um suco de laranja e 2 alfajores da variedade mais barata. Antes de nós na fila do caixa, um morador de rua pagava sua mini garrafa de whiskey. Voltamos para o hostal, tomamos o suco e comemos o alfajor, que não era bom.

Não comprem este alfajor.

10 out

Acordamos perto das 8:30 e tomamos o café no hostal. O quarto era ótimo, grande e a equipe do local atenciosa, mas o café simples demais. Basicamente pão, ovo, manteiga, suco café e cereal. E bananas (tinha visto no Booking reclamações de que lá não haviam frutas no desayuno, as bananas devem ter sido a solução que eles adotaram).

Logo ao lado do hostal estava a Iglesia de la Encarnación. Entramos rapidamente na construção do final do século 19. Atualmente está bem conservada, mas seu terreno é diariamente ocupado por uma absurda quantidade de carros que lá estacionam.

A Iglesia de la Encarnación, abençoada pela Santíssima Trinidad del Coche, Humo y Aparcamiento.

Saímos caminhando até a Plaza Uruguaya e lá sentamos um pouquinho. Várias pessoas usavam a praça, seja para ver o celular, aguardar algo ou simplesmente para não fazer nada. Algumas pessoas estavam morando na praça também. Além disso, em dois cantos da praça existiam lojinhas de livros meio esquisitas — lembravam um pouco coisas da Rua da Cidadania. Não encontramos nada de muito interessante por ali.

Atravessamos a rua e fomos para a frente da Estacion Central del Ferrocarril. A visita era cobrada, acabamos não entrando. Gosto de trens, mas museus ferroviários costumam ser repetitivos e tristes. Me arrependi ligeiramente depois de saber que Asunción teve o primer ferrocarril de Suramérica.

A calçada que dá acesso a Estação. Hoje, não passa mais qualquer trem por ali.

Pegamos o caminho para o Museo Nacional de Bellas Artes e passamos por uma rua que tinha a calçada escondida por uma barreira de plantas. Atrás dessa barreira, prostitutas aguardavam o próximo cliente, em frente a dois ou três “hotéis”. Foram algumas quadras caminhando pelo calor até descobrir que Museu não abre na segunda-feira, ao contrário do que dizia o Google. A caminhada deu sede e compramos na farmácia próxima uma bebida de Aloe Vera. Dali, seguimos para almoçar.

Escrevendo este texto, resolvi editar o horário. Você não sofrerá o que nós sofremos.

Tínhamos marcado no mapa um restaurante indiano vegetariano chamado Govindas. Supostamente ficava na rua Mandovira, mas não o encontramos: o número nem existia. Por sorte, o segundo restaurante vegetariano que havia marcado ficava na mesma rua, estava aberto e era muito bom. O menu do dia era composto por uma sopa seguida por dois hambúrgueres de feijão e uma salada com brócolis e mandioca — os paraguaios amam mandiona. Água gelada com limão foi uma cortesia muito bem-vinda. O restaurante chama-se Pink Cow e o menu sai a 32 mil guaranis por pessoa.

Prato principal: dois hambúrgueres, mandioca, brócolis verde, brócolis roxo.

Com todo aquele calor e a barriga cheia decidimos voltar ao hostal para dormir um pouquinho. Duas horas depois saímos na direção do Rio Paraguay, a fim de passear pela Costanera. Durante todo o caminho estávamos procurando uma cerveja, mas acabamos não comprando. Tínhamos certeza de que encontraríamos alguma para vender na Costanera.

Infelizmente chegamos lá e descobrimos que não só não havia cerveja para vender como era também proibido o consumo de álcool naquele local. De acordo com um comerciante de um caminhão de comidas, se bebessemos por ali teríamos problemas com a polícia.

A costanera, nenhuma cerveja e um moleque usando uma bicicleta claramente pequena demais para ele.

Passamos pouco menos de uma hora por ali e decidimos subir de volta para o centro. No caminho, um policial nos parou e pediu de uma maneira muito esquisita por nossas identidades. Entregamos as identidades brasileiras e ele perguntou se nós não tínhamos identidades paraguaias. Isso pareceu algum tipo de isca muito marota para dar margem a algum motivo escuso pelo qual ele pudesse nos pedir alguma propina. Depois de explicar que éramos meros turistas ele devolveu os documentos e deixou-nos seguir tranquilamente.

Ainda querendo tomar aquela cerveja passamos por alguns bares e restaurantes e acabamos decidindo por um local que já havia sido jocosamente cogitado: o Hard Rock Café. Nenhum de nós havia ido a um Hard Rock Café antes, mas foi exatamente como imaginávamos: uma espécie de parque de diversão do rock. Soubemos pelo Facebook de uma promoção 2 hambúrgueres por 1 e isso bastou para superarmos nosso preconceito. Entramos no recinto. Logo na nossa frente entrou um grupo de brasileiros (daqueles tiradores de selfies top), o que aumentou ainda mais a repulsa por aquele local.

Pedimos dois chopes, que estavam muito bons. R$ 11 cada. Depois, pedimos os hambúrgueres vegetarianos, também muito bons. Valeu a pena ir a este famigerado local.

Procurei uma foto dos hambúrgueres mas lembrei que não tirei, pra não me igualar aos conterrâneos que critiquei.

Em um bar bem fuleiro compramos duas latinhas de cerveja e fomos ao Hostel. como era cedo decidimos tomar as latinhas antes de dormir.

Depois de tomar banho de alguma briga com os mosquitos, dormimos.

11 out

Tomamos café no hostel, o mesmo café simples do dia anterior. Não vimos mais nenhum hóspede. Saímos do hostel pouco depois das 09h da manhã e fomos até a Casa Cultural Manzana de La Rivera, logo em frente ao Palácio de Lopez, o local de trabalho do presidente do Paraguay.

Na quadra do Palácio e da Manzana de la Rivera, muitos policiais munidos de imensas armas de assalto. Homens de terno com walkie talkies espalhados pelo local — até dentro do café que há dentro do Centro Cultural havia um. Não conseguíamos entender bem o que se passava por ali, mas era algo grande.

O Palácio, em raro momento sem os agentes de terno.

Dentro da Manzana uma exposição de moda com vestidos pintados a mão. Um museu sobre a harpa paraguaia. E o único museu que realmente queríamos ver — sobre a história de Assunção e do Paraguai — estava fechado para manutenção. Seguimos para o Cabildo.

No caminho até lá, mais policiais. Um blindado com câmeras no topo e lançadores de água de alta pressão. Chegando, o motivo de tudo isso: um protesto do que parecia ser o equivalente ao MST paraguaio. Ficamos por ali um tempo tentando entender as motivações do público. O Cabildo estava cercado e parecia impenetrável, mas também não perguntamos se era só imagem ou se poderíamos entrar ali. Logo atrás daquela construção rosada, entre o centro de Asunción e o Rio Paraguai, uma favela com pouquíssima infraestrutura. Irónico.

Nessa péssima foto vemos um vendedor de chipa oferecendo seu produto a manifestantes que, já cansados, sentaram-se.

Partimos para a Casa de La Independencia, onde uma senhora não muito simpática contou-nos sobre a proclamação da república do Paraguai, destacando que fora uma das únicas independências latino-americanas que ocorreram sem derramamento de sangue. Ao longo dos cômodos da casa, velhos móveis, roupas e armas: o típico que se esperaria de um lugar destes. Um mapa da cidade contemporânea se contrapunha a isso, com imagem de satélite impressa e edifícios recortados em isopor aplicados sobre mapa. Um dos edifícios de isopor tinha cedido e tentaram recolocá-lo com fita, resultando em tremendo insucesso.

Dali queríamos ir a Loma San Jeronimo, um bairro pitoresco a oeste do centro. Decidi perguntar a uma das funcionárias do local se haveria onde comer algo típico por lá: depois de uma ligação, ela nos deu duas opções de restaurantes, alertando tratar-se de locais super familiares.

No caminho do centro até a Loma San Jeronimo, a região portuária de Asunción.

Caminhamos os quase 2 km até Loma San Jeronimo. No caminho, passamos pela região portuária. Como quase todaregião deste tipo, era antiga e com grandes galpões e algumas construções abandonadas. Ao contrário de muitas, no entando, esta não passava insegurança.

Chegamos a Loma. Subimos a rua junto a uma senhora que voltava das compras no centro. Fora ela, mais ninguém por ali. Andamos pelas poucas ruas da região: no final de uma delas avistamos duas turistas que logo desapareceram. Em uma espécie de mercearia, perguntamos onde poderíamos comer — as sugestões foram as mesmas da funcionária: el Mirador e Tía Carmencita. Compramos uma curita (1000 guarani) por lá e a dona do local nos deu uma breve aula sobre como identificar as moedas de Guarani.

Voltamos o caminho em busca dos restaurantes. Passamos pela frente de uma das opções, pareceu pouco promissor. Uma criança de cara quis me cobrar 2000 guaranis para estar ali, mas perguntada o motivo da cobrança, calou-se. Fora batatas fritas e outras porções que não configuravam almoço, nada se servia ali. Descemos. Mais um restaurante, desta vez do mapa, fechado.

Enquanto estávamos ao pé deste escada, surgiu o homem que nos levaria a nosso almoço.

Um homem passava. Pedi a ele lugar para almoçar. Depois de perguntar se éramos dos Estados Unidos, nos levou ao local onde ele próprio estava indo comprar uma quentinha. Um restaurante muito simples, mas bem cheio de gente que devia trabalhar por aí. Uma televisão de tubo passava o jornal do meio dia. Eu pedi polenta, salada e pão e Flávia ficou com um ensopado de carne. Pedi dois refrigerantes Pulp: o de laranja pior que o de poemlo. A comida não era ruim, mas a combinação incomum. Nenhum de nós completamente satisfeito com o almoço. E achei que não sairia tão caro quanto 30.000 guaranis. Talvez pelos dois Pulp?

O restaurante, em seu esplendor popular, transmitia o telejornal do meio-dia.

Como almoçamos cedo, pensamos em passar no mercado municipal que, sabíamos, fecharia nas primeiras horas da tarde. Pesados do almoço e sob o sol do meio dia, a caminhada de 2 km cansou — ainda mais pela barulhenta Rua Colón.

Entre o restaurante e o mercado, uma mulher armava o varal em cima de um bar.

Chegando no mercado, o desapontamento de perceber que havia por lá uma dezena de restaurantes servindo de tudo. Parecia bem melhor que onde havíamos almoçado. E fora os restaurantes, não havia mais nada para ver. Chegamos na hora certa, no lugar certo, depois de ter almoçado errado. Voltamos ao hostel para dormir um pouco.

Pelas 15h30 levantamos e saímos para o Café Literário, ao lado da Plaza Uruguaya. Bonito e parecendo mais velho do que 1999, pedimos um frapuccino no local. Zero por centro cremoso, com gelos esparsos, o café não estava bom e nem de longe valeu os 20 mil guaranis. Eramos uma das duas mesas ocupadas. A outra por um homem que há muito já havia tomado seu café e aproveitada o ambiente para ler um livro emprestado das prateleiras do café. Saímos dalí.

Pisando na rua Estigarribia, foi impossível deixar de notar o céu cheio de fumaça. Perto dali, um incêndio manchava o céu de cinza. Era bonito assistir, da mesma maneira que qualquer coisa monumental enche os olhos sem dar muito espaço para julgar o que está por trás daquilo. Caminhamos ao Museo de Bellas Artes com os olhos no céu. Dez minutos depois, o caminhão dos bombeiros finalmente chegou ao local, mas o incêndio ainda duraria longe. Depois, descobriu-se que o fogo vinha da GT Scientifics, uma importadora e exportadora de equipamentos médicos e laboratoriais e que a fumaça era muito provavelmente tóxica.

Aonde há fumaça, há curiosos.

Foi bom chegar ao Museu de Bellas Artes e vê-lo aberto, ao contrário do dia anterior. Pequeno, guarda 3 cômodos de pinturas europeias e 3 de pintura paraguaia. Ar condicionado forte, bem mantido e organizado. Mas, de longe, o ponto mais interessante é a história do roubo — até hoje não solucionado — da mais cara pintura do museu: El Tintoretto, de Iacopo Robusti. Foi roubado em 2012 por ladrões que alugaram uma casa defronte ao museu — naquela data em outro endereço no centro. Cavou-se um túnel e por ele entraram e levaram as obras mais preciosas. O simpático responsável pelo museu contou-nos a história, poupando a leitura da placa.

O Museo de Bellas Artes.

Partimos dalí Avenida Peru. Esperamos, na quadra da Embaixada do Brasil, chegar um ônibus da linha 30. Nosso destino era o Shopping del Sol. Queria visitá-lo para talvez comprar algo mas, acima disso, para ver um outro lado de Assunção — o centro novo da cidade. O ônibus chegou e seguiu por avenidas mais largas que as do centro, com calçadas mais arrumadas, casarões, lojas de decoração e de carros de luxo. Como passava das 5h da tarde, havia trânsito. Viajamos todo o tempo em pé e, para sair, perguntei a homem onde deveríamos descer. Agradeci com gracias e ele respondeu um thank you.

WTC Asunción.

Descemos no shopping e tentamos entrar nele pela Forever 21. Sem sucesso — metade do shopping estava fechada para reforma e a entrada era mais distante — desistimos do shopping e fomos caminhar pelas ruas do bairro. Era bastante parecido com o que se vê nos Jardins — mas com muros menos altos e mais pessoas nas ruas. Caminhamos umas poucas quadras por ali e voltamos para a Avenida Aviadores del Chaco. Logo nela, a 1 quadra de uma área claramente nobre, uma valeta com água suja correndo e ausência de calçadas. E para completar, foi por ela que chegamos ao Paseo La Galeria — um shopping majestoso com uma pequena floresta em sua entrada. Depois de olhar 2 ou 3 lojas e desistir de comprar qualquer coisa, fomos seduzidos pela promoção da Pizza Hut: 2 drinks pelo preço de 1. Tomamos caipiroskas. Passamos no supermercado que havia ali e compramos alfajores e miojo — nossa janta.

Uma pequena floresta na entrada do Paseo La Galeria.
Da área de alimentação do shopping, vê-se o arborizado bairro nobre da região.

Chegando no hostel fizemos o miojo e tiramos da geladeira o vinho branco que compramos no dia anterior. Comemos em cadeiras ao ar livre, intercalando o bom proveito do vento noturno e o zunido dos pernilongos. Enquanto o vinho não acabava, algumas fotos da varanda do hostel.

A vista da 15 de Agosto com Humaitá.

Depois, fomos dormir.

12 out

Em nosso último dia em Assunção, acordamos um pouco mais cedo. O café manteve-se idêntico — já um pouco cansados dele, comemos para não sentir fome. Algumas ruas para cima pegamos novamente a linha 30 e fomos ao Museo del Barro. Chegamos lá e encontramos um museu muito mais interessante do que todos os outros que vimos em Assunção.

Máscaras cordiais recebem o visitante do Museo del Barro.

Construído em tijolinhos — à exceção de uma fachada em alvenaria pintada em azul que remetia a uma máscara — o museu apresenta principalmente artefatos de barro, é claro. Bem organizado, conta em detalhes de onde cada artefato e etnia vieram. Além disso, conta com uma seção para pinturas contemporâneas e espaço para exposições temporárias — na data, uma com fotos azuis sobre a Patagônia. A lojinha do museu foi a primeira que suscitou desejo de compra: bichos em madeira a bons preços.

Voltamos ao centro, almoçamos no restaurante La Nutravida — de chineses ou taiwaneses, como costumam ser restaurantes vegetarianos buffet.

O mesmo restaurante vegetariano chines-taiwanes de sempre.

Voltamos ao hostel para pegar as malas e entramos na linha 38 rumo a rodoviária. O ônibus de Assunção para Ciudad del Este partiria as 14h20 e o coletivo urbano em que estávamos viajava lentamente pelas ruas próximo ao Mercado Municipal n˚ 4, o maior da cidade. Ali o Paraguai confirma o imaginário popular: bagunça e camelôs por todo lado. A cada minuto, um novo vendedor entrava dentro do ônibus: suco de leite e morango, carregadores de celular, suco em pó, água, acessórios variados, etc. De tudo se vendeu na meia hora entre o centro e a rodoviária.

Atravessando o Mercado Municipal n˚4 com a Línea 38.

Chegamos ao Terminal de Omnibus de Asunción e fomos direto ao guichê da NSA — tida por nós como a única confiável para e viajar. Conseguimos comprar passagens para o ônibus das 14h20 e fomos informados que a viagem de 320 km duraria não 5h mas sim 7h. Ligeiramente contrariados mas sem outra opção, atravessamos os peculiares saguões do terminal e embarcamos no ônibus vermelho, operado pela Expresso Guaraní.

Partindo da cidade.

Depois de três filmes, paradas em Caacupé, Coronel Oviedo, Caaguazu e talvez mais alguns lugares, chegamos na rodoviária de Ciudad del Este perto das 20h30 da noite — com meia hora de antecedência. Por sorte, meu amigo já nos esperava no saguão. Antes de entrar no carro, fui ao banheiro (2000 guarani) e me deparei com uma frase de despedida do Paraguai: “No Orinar Por La Pared”.

Fim.

(Veja todas as fotos, incluindo as que não apareceram aqui, no Flickr :)