Reflexões (ou não) sobre perguntas

Guilherme Arnaud
Aug 29, 2017 · 4 min read
Autorretrato. 2017.

Você certamente concorda comigo que estamos imersos em diversas dimensões. À princípio vamos usar, para o texto, duas delas: o tempo e o espaço. Ambas trabalham juntas e, sem a outra, uma não é muita coisa. No entanto, tentarei explicar vez por vez e juntá-las ao final para tentar tornar mais compreensível meu ponto. Não tenho certeza se serei bem sucedido, mas vamos lá.

Começarei comentando a segunda. Você já deve ter ouvido falar sobre a expansão do espaço. Isso não é percebido por nós, claro. Se comparados em outra escala, somos quarks de elétrons e o espaço é um planeta. O movimento do planeta não afeta a ação, tamanho ou qualquer coisa que seja na vida dos tais quarks. Não conseguimos sentir o feito da expansão graças à gravidade, outro fator e dimensão que nos afeta dia a dia, mas que não vem muito ao caso. Basicamente, a gravidade de nossa galáxia nos segura ao eixo da Via Láctea e não permite que os corpos que a compõem “voem” espaço afora. Mas, ainda assim, o espaço entre galáxias aumenta. — Não, apesar de tudo o que fizemos, fazemos e faremos, Andrômeda, Olho Negro, Girassol, Charuto, Cartwheel e as zilhões de outras não estão fugindo de nós. Todas se distanciam entre si. — Isso foi sugerido há alguns anos por um tal de Hubble, que observou o distanciamento entre os amontoados de estrelas e é aceito desde então. O espaço que ocupamos com toda nossa imensa pequenez está expandindo, “esticando” e se tornando mais espaço do que antes era.

Quanto ao tempo, após rápida pesquisa em um dos dicionários mais tradicionais da língua portuguesa, encontrei que esse é uma “Série ininterrupta e eterna de instantes”. Devo admitir que me encantei com essa frase e foi o que me trouxe até estas linhas. Digo isso pois, diferente da expansão do espaço, sentimos sua expansão, seu movimento, sua densidade e sua leveza. Sentimos o tempo. Vivemos no tempo a todo tempo e não tem como torna-lo palavras ou pensamento. Tempos verbais ou qualquer outra estrutura de nossa língua mãe são extremamente simples para a complexidade da ideia do tempo que expande. O tempo é uma esfera de mármore polido, sem começo ou fim. Somos como insetos e o tempo é um para-brisa de carro seguindo em uma autoestrada: estamos presos ao tempo e não há como ir adiante ou voltar atrás, ele apenas nos guia para onde estiver indo. Além disso, essa dimensão é como um autorretrato: qualquer ilustração ou descrição será atrasada ao que realmente e atualmente é.

Apesar de toda essa grandeza do tempo, não demora para percebemos que somos nós mesmos que o criamos e idealizamos. Não falo na materialização do tempo em pedaços que os relógios e calendários marcam, mas na idealização de uma dimensão na qual nos encontramos. Tudo bem, pode ter parecido uma afirmação covarde e astuciosa. — Muitos podem achar curioso e intrigante pensar no tempo, mas, para mim, chega a ser desesperador. — Mas pense se não é: o que seria o tempo se não a resposta que formulamos em nossa mente pensando nos instantes ininterruptos e eternos que se passaram, se passam e passarão?

Afinal, o que seriam todas coisa que imaginamos se não respostas para perguntas? Na antiguíssima Grécia de milênios atrás, as pessoas passaram a se perguntar sobre o mundo ao redor delas e buscaram respostas que, por mais que às vezes temporárias, confortaram suas mentes e sanaram suas dúvidas. E assim seguimos desde então. Tudo ao nosso redor precisa de respostas para que possamos nos confortar e conformar. Dentro de nossas cabeças precisamos de respostas e soluções para tudo e espanta conceber uma ideia sobre o desconhecido. Precisamos de explicações, e mais, e mais explicações, precisamos dar ou receber resposta para tudo, de respostas, respostas, respostas e mais respostas. Não podemos viver como ignorantes. Não podemos viver de perguntas.

Bem, ao menos eu tenho pensado assim ultimamente e isso me encarcerou nas jaulas do desespero em querer respostas. Não respostas para perguntas sobre o mundo, sobre as coisas ao meu redor ou sobre o tempo e o espaço, mas dúvidas sobre mim mesmo. Tenho me deparado com questões nunca antes enfrentadas. Por mais que eu lute, procure, me debata dentro de mim mesmo, não consigo me definir, não sei muita coisa sobre mim mesmo e nem quando vou conseguir saber. Eu sei que saberei, disso não tenho dúvidas. Afinal, aprendi recentemente que um barbudo escreveu um livro sobre comportamento no qual diz que até os vinte e poucos anos nós não perdemos todos nossos neurônios do lobo frontal do cérebro, e, até lá, acredito que estejamos no processo de descobrimento de nós mesmos. Ainda nesse caminho penso que posso juntar pequenas coisas que me formam física e abstratamente. Panqueca sem recheio, refrigerante da marca do Polo Sul, preto, Fusca. Acho elementos na minha vida que possam me agradar e definir, em primeira instância, quem eu sou. Apesar de pavorosas questões que me compõem e rodeiam, eu vez ou outra encontro respostas pelo meu caminho.

Bem, já refleti bastante para um dia só. Esperava reflexões sobre muitas outras coisas. Sobre minha forma de escrever, sobre não termos tempo (o material, criado por nós) e, ao termos, não o aproveitamos, sobre como somos meros restos de uma explosão estupidamente enorme… Sobre tudo. Esperava, ainda, me aprofundar mais no que refleti anteriormente. Atar nós com pontas que com certeza ficaram soltas. E, ainda, esperava ser mais claro para mim mesmo. Depois de horas escrevendo, não saí do lugar quanto a me descobrir através de textos. Não me tornei mais claro para mim mesmo e até gerei mais questionamentos à lá um programa da sexta à noite. Mas isso também pode ser paranoia em querer respostas e temer minhas dúvidas. Não as temerei. Encerro por aqui.

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