O turbante mágico de Eliane Brum

eliane brum, xamã da branquitude

1.

Eliane Brum, conhecida e respeitada jornalista, famosa por seus textos extensos (para o padrão da internet) que abordam assuntos caros ao chamado “progressismo” (genocídio indígena, ateísmo, feminismo, etc), escreveu uma “carta-aberta” como seu último artigo. O link está aqui, para quem quiser ler inteira.

A carta, cujo título é “De uma branca para outra”, é endereçada a Thauane, a jovem (branca) que passa por um câncer e ficou famosa recentemente por contar uma história na qual foi abordada por uma mulher negra incomodada com o seu uso de turbante. A polêmica seria uma branca usar turbante, “símbolo dos negros” (e a isso se chamaria “apropriação cultural”) e Thauane, que se recusou a reconhecer pecado na sua escolha vestuária, virou cavalo de batalha para quem critica os excessos do movimento negro, e alvo especial para quem critica a ignorância da branquitude.

O expediente “carta-aberta” costuma ser razoável quando dirigido a uma figura pública, que serve mais como símbolo de para onde o debate se encaminha do que como pessoa real. Escrever abertamente usando a pessoa como interlocutor silencioso é sempre, de certa maneira, uma violência, uma objetificação. Brum não queria verdadeiramente conversar com Thauane — caso ela quisesse, ela teria ido até a menina e entrevistado ela. O objetivo era usar a figura da jovem — que já está sendo atacada por bastante gente — como objeto sobre o qual a escritora poderia projetar (e expiar) a sua culpa (branca, cristã, vocês decidem).

Frente esse texto francamente grotesco — que encena uma performance de empatia através do formato sentimental da carta, repetindo o nome da “interlocutora” a cada parágrafo enquanto a desumaniza e despeja autoritarismo mal justificado em cima dela — pensei em escrever de volta uma carta explicitamente “violenta” dirigida a Brum. Como sou uma pessoa melhor que ela, desisti dessa mesquinharia e resolvi só criticar o seu texto mesmo.

2.

O texto de Brum já começa muito mal, com uma extensa torrente sentimental na qual ela elogia o formato “carta” por ser onde ela consegue expressar “o seu afeto”:

E, assim, a carta é o gênero com que posso melhor expressar meu afeto.
Eu acredito muito em cartas, Thauane, porque elas pressupõem um remetente e um destinatário. E elas expressam algo ainda mais fabuloso, que é o desejo de alcançar o outro. Poucas coisas são mais tristes que cartas perdidas, extraviadas. Cartas que não chegam ao seu destino. E quando a gente conversa com um muro no meio, as cartas não chegam. O muro barra o movimento da palavra.

A repetição do nome da interlocutora, esse teatro condescendente que parece simular a linguagem de uma professorinha passando uma bronca “carinhosa” para uma aluna malcriada, se repetirá no texto todo, portanto não falaremos mais disso.

O problema aqui, como já indiquei antes, é a simulação de um diálogo onde não há nenhum. Brum não quer alcançar Thauane — caso quisesse, teria marcado uma entrevista com ela. Brum quer fazer vodu com a figura fantasmagórica “Thauane” que existe na sua cabeça, no máximo. É bem fácil perceber como não há diálogo aí: caso Thauane quisesse responder, faria o quê? Escreveria na sua coluna no El País? Não foi aberta uma via: Brum só jogou uma bomba para o outro lado e fechou a porta.

A seguir, Brum resolve explicar a Thauane o que é ter câncer, como dói, etc, e porque a jovem gostava de usar turbante, porque se sentia acolhida com essa vestimenta, etc — sempre amparada pela justificativa “acredito profundamente em vestir a pele do outro”, o que no caso de Brum significa menos empatia e mais tentar fazer dos outros marionetes das suas posições políticas.

Brum segue por uma tangente na qual diz que é mais fácil se ver na pele da jovem menina com câncer do que na de quem criticou seu turbante, pois ela (Brum) é branca, e começa a falar de si mesma, da sua infância branca, herança européia, da cidadezinha racista na qual cresceu, da sua boa posição a favor de cotas raciais, etc. Notem que esses parágrafos todos dizem muito pouco sobre a aventura polêmica de Thauane, mas dizem muito sobre como Brum é virtuosa e progressista, mesmo tendo saído de uma cidade racista e má.

Enquanto comenta mais ainda sobre como o racismo é terrível no Brasil, Brum começa a desenvolver a ideia de “existir violentamente”, que será resgatada mais para a frente, e reforça mais ainda sua virtude, dizendo que ela reconhece que tem privilégios vivendo em um país racista (como é boa Eliane Brum!), e então solta esse trecho:

Quando a gente ouve um “não”, Thauane, nossa primeira reação é dizer um “sim”. Sim, eu faço. Sim, eu vou. Sim, eu posso. Especialmente numa época em que se vende a ideia de que podemos tudo. E de que poder tudo é uma espécie de direito. Mas não, não podemos tudo. E nos deparamos com essa realidade a cada dia. (…) Mas tenho aprendido, Thauane, e isso me veio com o envelhecimento, que, muitas vezes, mesmo quando a gente pode a gente não pode. Ou, dizendo de outro modo: o fato de poder não quer dizer que a gente deva. Assim, é verdade. Você pode usar um turbante mesmo que uma parte significativa das mulheres negras digam que você não pode. Mas você deve? Eu devo?

Sei que prometi não comentar mais o tom condescendente e patronizing do texto, mas é impossível — esse “você deve? eu devo?” é infantilizador a ponto de ser ofensivo. É curioso que no fim das contas a mensagem passada aqui trafega entre o truísmo irrelevante pois óbvio — “não precisamos fazer tudo aquilo que temos a capacidade de fazer”- ou o reacionarismo sincero — esse trecho poderia ser substituído por “liberdade não é libertinagem”.

Brum vê uma pessoa reclamando de ter sua liberdade tolhida e sua identificação é com o censor. “Sei que você tem vontade de ser livre, mas não, não pode.”. Não há justificativa ou explicação para isso. Devemos ter fé em Brum.

Em seguida, Brum diz que a resposta para a pergunta “posso ou não?” deve ser perguntar à polícia, digo, às autoridades epistemologicamente legitimadas no assunto. Ela reproduz um grande trecho do texto de Ana Maria Gonçalves sobre o assunto. Eu já discuti esse texto anteriormente , e não tenho mais paciência para comentá-lo de novo. Vamos nos ater a Brum.

Eu compreendo que, para você, o turbante também significava abrigo. E talvez abrigo da dor. Mas você tem outras formas de encontrar abrigo para sua cabeça nua. Assim como eu tenho outros jeitos de me expressar através do que coloco na cabeça. As mulheres negras nos explicam que não. Que para elas o turbante é memória, é identidade e é pertencimento. É, portanto, vital. O que as mulheres negras nos dizem, Thauane, é que não querem que o turbante, que tão precioso é para elas, vire mera mercadoria na nossa cabeça. Então, Thauane, acho que eu e você precisamos escutá-las. E podemos não usar um turbante. Aliás, não usar um turbante é bem o mínimo que podemos fazer.
(…)
Se as mulheres negras me dizem que não posso usar um turbante porque para elas o turbante é um símbolo de pertencimento, eu escuto. E compreendo que não devo usar um turbante. Sim, Thauane, acho que você e eu e todas as brancas deste país em que a abolição da escravatura jamais foi completada podemos e devemos baixar a nossa cabeça em sinal de respeito e não usar um turbante apenas porque as negras dizem que não podemos. Apenas porque as fere que usemos turbantes. Há muitos outros argumentos, mas só este já me parece suficiente.

Temos aqui o momento de alquimia fundamental do texto: Brum de alguma maneira acessou o grupo platônico e infalível “mulheres negras”- “as mulheres negras me explicam que não”, escreve Brum. Quem são as mulheres negras? É só Ana Maria Gonçalves? Ou são amigas de Brum? Quem lhes dá a autoridade para decidir que roupas podem ou não ser usadas? Como elas chegam a essa decisão? Se uma mulher negra disser que tudo bem usar turbante, ela deixa de ser mulher negra? Aliás, quem dá a Brum a autoridade para definir esse grupo “mulheres negras”? Se Thauane tem amigas e conhecidas negras que lhe disseram que é ok usar turbante, o que acontece? Quem vale mais, as negras de Brum ou as potenciais negras de Thauane? Não é absolutamente semelhante a “tenho amigos negros, não sou racista” toda essa discussão? Não está em curso uma objetificação estranha dessa figura “mulheres negras” para tentar conferir posição de autoridade a uma branca?

O texto de Brum não responderá a nenhuma dessas perguntas. Ele apenas usará essa figura nebulosa e mal-definida “mulheres negras” (como se define? é uma pesquisa de opinião no país todo, e a maioria definirá a posição de toda a classe “mulheres negras”?) como supertrunfo argumentativo para calar questionamentos. Quem ousaria discordar das mulheres negras, que tanto sofreram e sofrem?

Daí para a frente, Brum listará horrores do racismo e machismo que existem no Brasil, na tentativa de fortalecer seu argumento. Esses horrores são inegáveis — ninguém questionaria o quanto se sofreu e sofre com isso até hoje. O problema é que Brum é totalmente incapaz de estabelecer uma conexão compreensível entre esse sofrimento e violência racistas e o bendito turbante na cabeça de Thauane. Não há nem sombra de tentativa de explicar como o Turbante de Thauane piora a vida de mulheres negras ou contribui com o racismo e o genocídio negro. Há apenas esse eterno apelo ao incômodo metafísico das “mulheres negras” com o turbante.

Não reproduzirei aqui os trechos nos quais Brum comenta o sofrimento racial no Brasil, os estupros, as estatísticas assustadoras, etc — o texto de Brum usa essa dor extremamente real de maneira pornográfica, tentando apelar à empatia do leitor (e à sua voracidade em busca de sofrimento cinematográfico) para empurrar argumentos soltos. Aqui, Brum é o sujeito que, no meio de uma discussão sobre o Estado de Israel, começa a bombardear o interlocutor (crítico de Israel) com fotos macabras do holocausto, enquanto repete “é isso que você defende, Thauane?”.

Brum segue fazendo sua expiação de pecados, dizendo que todo branco aqui é racista, vive segundo privilégios, etc. Ela volta à ideia “existir violentamente”, segundo a qual apenas nascer aqui sendo branco já é violentar (algo? alguém?). Ela critica também pessoas que se esforçam para não serem racistas e se orgulham disso, pois isso já seria racista em si só.

É duro, Thauane, reconhecer e sentir nos ossos, a cada dia, que existo violentamente. Não posso escolher não existir violentamente, porque esta é a condição que me foi dada neste momento histórico. Mas penso que há algo que posso escolher, que é lutar para que meus netos possam viver num país em que um branco não exista violentamente apenas por ser branco. E para isso eu preciso escutar. E, principalmente, preciso perder privilégios. Me parece que hoje uma das questões mais cruciais deste país diz respeito a quanto estamos dispostos a perder para estar com o outro. Porque será preciso perder para que o Brasil se mova, para que o mundo se mova.

Aqui Brum dá a entender que sua luta virtuosa por um país menos racista passa por “perder privilégios”, e um desses privilégios seria a liberdade na hora de decidir como se vestir, como exibir seu corpo em público. Não há nenhuma explicação sobre como funcionaria esse processo — em que medida o não-uso de turbante cria um país melhor para negros? Que magia é essa? Brum não compartilha o segredo conosco.

O mais impactante nesse trecho é a ideia de que alguns precisam perder para que outros ganhem. A mentalidade de Brum fica explícita aqui: ela é incapaz de visualizar situações onde a soma total (de direitos, de bem-estar) não é zero. É impossível para ela imaginar um mundo no qual todos tenham o direito a se vestirem de maneira livre — ela só pensa em um mundo no qual alguns perdem um pouco para que outros ganhem um pouco. Essa falta de imaginação mística — uma postura vulgarmente religiosa na qual o “karma” de alguns compensa o de outros — permeia todo o texto.

Depois disso, Brum reforça que ela e Thauane, como brancas, são pecadoras, mas podem superar a sujeira de suas almas fazendo sacrifícios para o deus “Mulheres Negras”, e termina o texto dizendo que quer romper muros, mesmo tendo passado o artigo todo erigindo uma muralha para esmagar Thauane.

3.

Como comentar o texto todo? É difícil argumentar contra Brum pois ela não traz argumentos. A autoridade platônica “mulheres negras” torna a necessidade de argumentar irrelevante, pois já é em-si-só um tribunal cuja palavra não pode ser questionada.

Podemos pensar em alguns pontos, já tocados: qual a ligação do uso de turbantes por brancos com a violência racial sofrida por negros no Brasil? Em que medida o não-uso de turbantes por brancos faz com que o racismo diminua? Se negros sofrem racismo quando usam turbantes, o fato de mais gente (brancos E negros) estarem usando turbantes não contribui para a “normalização” dessa vestimenta e, portanto, para a diminuição do racismo?

Mais: quem se importa com esse uso “apropriado” de turbantes? Quais mulheres negras são essas? São uma maioria? É uma questão apenas religiosa ou perpassa todos os negros?

Mais: quem define quais símbolos culturais pertencem a qual “povo”? O turbante é uma exclusividade “do negro”? O turbante não foi usado historicamente por diversos povos, muitos deles não-negros — como sikhs, persas, etc? Como definir que o ato de colocar um pano na cabeça é exclusividade de uma raça?

Mais: dizer que o turbante pertence “aos negros” não é em si só uma forma de racismo? Essa tentativa de transformar “os negros” em uma categoria unívoca não é uma operação grotesca do apagamento das diferenças? Não é algo semelhante dizer “o turbante é da África”, como se o continente africano fosse uma peça constante e não uma rede conflituosa e pulsante de diferentes povos e diferentes culturas?

Mais: o argumento “não podemos usar isso porque ofende tal grupo”, usado quando se defende o não-uso do turbante por motivos religiosos (“é sagrado para o candomblé, ou a umbanda, ou etc”), não é absolutamente perigoso no quão amplo pode ser? Cristãos conservadores não se ofendem também com a vestimenta de muita gente? Judeus pró-Israel não se ofendem com quem critica as ações desse Estado?

Mais: todo o argumento machista não foi calcado na ideia de que a maneira como a mulher dispõe do seu corpo “ofende”? Não é um contra-senso defender “meu corpo, minhas regras” e logo em seguida resolver que sabemos melhor do que uma jovem com câncer como ela deve vestir esse corpo?

E por aí vamos. O texto de Brum é um castelo de cartas extremamente frágil, construído sobre um não-argumento oculto. A não explicação de como a interdição do uso do turbante melhoraria a vida da população negra torna todo o texto um exercício supérfluo em condescendência violenta contra uma jovem com câncer.

E aqui jaz o problema: pragmaticamente, o texto e o discurso que o cerca são absolutamente ineficazes. Ninguém será convencido da urgência da luta contra o racismo a partir disso. O que Brum fez aqui é o contrário: instrumentalizou uma luta urgente, necessária, violenta (ela cita todas as estatísticas brutais sobre racismo no texto: mulheres negras morrem mais cedo, morrem mais violentamente, sofrem mais no parto, e por aí vai) em prol de uma questão etérea, mal explicada.

O leitor comum que chega ao texto de Brum encontra isso: uma senhora que se diz anti-racista perseguindo de maneira grotesca uma jovem com câncer. Esse leitor comum fará a associação “caramba, esse pessoal contra o racismo não respeita nem uma menina doente”. Esse leitor comum não sairá do texto mais propenso a lutar contra o racismo. O texto só alcança dois grupos: quem já faz parte do movimento negro identitário, e abraça todos os seus dogmas, e pessoas brancas desesperadamente preocupadas em demonstrar que não são racistas (ou seja, Eliane Brum).

Mais do que isso: quando Brum evoca a noção “nós brancos existimos violentamente”, e reforça a ideia de que todo branco é racista mesmo sem saber, ela trabalha contra a luta anti-racista igualmente. Ao apontar essa vara-de-condão moralista para a totalidade das pessoas, Brum apaga a diferença entre o branco que quer lutar contra o racismo, o branco que não se importa e o branco ativa e ostensivamente racista. A mensagem transmitida é óbvia: não adianta se importar, o pecado não sairá de ti. O incentivo aqui é um só: não lute contra o racismo.

É essa a sina do texto de Brum: tanto moralmente quanto pragmaticamente, Brum fracassa em tudo que tenta fazer. Não fortalece a luta anti-racista nem oferece empatia e diálogo. Tudo que ela faz é falar de si e brincar com seus fantasmas e medo.

4.

Eu pensei em dizer que o texto de Brum era “inacreditável”, mas ele é na verdade previsível — e velho, muito velho. Toda a estrutura da carta é antiquíssima — Brum fez aqui um auto-de-fé.

Para os que não conhecem, autos-de-fé eram eventos públicos nos quais hereges eram humilhados e expiavam seus pecados. Assim como nos tribunais stalinistas, o único caminho era reconhecer seus erros e maldades, pois a negação e a autodefesa sempre seriam considerados indícios de mais pecados escondidos.

O curioso nesse caso é a transmutação do tribunal, no qual a autoridade era externa (a Igreja), para o modelo atual, no qual a autoridade existe dentro do próprio pecador.

Brum não precisou ser acusada (“rachada”, no dialeto das redes) de nada para executar seu auto-de-fé. A autoridade violenta que julga os pecados já vive dentro da sua própria cabeça — Brum não precisa de uma polícia, já há uma habitando o seu cérebro.

A crueldade, claro, é que Brum não se contenta em penitenciar apenas por si mesma — ela precisa arrastar Thauane junto. Como Thauane não tem um tribunal na cabeça, Brum fará um favor a ela e será sua juíza. O turbante mágico que Brum não usou lhe deu a capacidade sobrenatural de ser o superego dos outros. À maneira stalinista, Brum pode fazer a “autocrítica” do próximo, sem precisar da contribuição dele.

O curioso aqui é que uma pensadora “de esquerda” e atéia, que já até escreveu sobre como é difícil a vida do ateu no Brasil, reproduza nos mínimos detalhes os processos religiosos mais perversos. Fica claro aqui como é difícil fugir ao moralismo punitivo e sentimental do cristianismo: até mesmo quem vive ostensivamente fora dele o reproduz.

Com uma diferença crucial: o cristianismo, mesmo com toda sua violência, ainda acreditava em perdão. Em Cristo você poderia verdadeiramente expiar os seus pecados e se redimir. A religião de Brum não é tão bondosa: existe apenas o reconhecimento eterno dos pecados e o apontar para si mesmo como sujo e mau, mas a redenção nunca chega. Não é uma fé muito atraente.