
O garoto e os manequins -parte I
O garoto fora incumbido de empilhar todas as caixas de sapatos da coleção primavera/verão no estoque, aonde aguardariam o caminhão da fábrica, na semana seguinte, para que fossem realocados noutro estoque, de aluguel (os depósitos próprios da empresa já encontravam-se abarrotados de produtos que não foram consumidos nas últimas estações). Era um trabalho chato, pois os manequins que lá ficavam guardados não eram muito de conversa (certa vez, fora preciso chutar um para que lhe respondesse um questionamento), e as horas pareciam intermináveis no silêncio.
Numa dessas ocasiões, no intervalo entre uma pilha de caixas e outra, o garoto, com os braços e joelhos cansados, escorou-se numa das prateleiras e pegou sua sacola (pensou que, com sorte, haveria um resto de Kit Kat do dia anterior) e, enquanto procurava, perguntou, em tom de curiosidade, para um dos manequins que ali estavam depositados:
“Como consegues viver em silêncio? Não gostarias de conhecer a rua, os manequins expostos em outras lojas?”.
“E por que achas que eu estaria interessado em conhecer lugar ou alguém além da loja à qual pertenço e dos manequins aqui depositados?”, retrucou, enquanto contemplava, rígido, a parede oposta.
“Não sei, pensei que a rotina lhe deixava fatigado. Não creio que seja fácil ser exposto a toda hora… Pelo menos os outros ficam aqui contigo, enquanto esperam pela próxima exposição?”. Não conseguia encontrar o chocolate, apesar de identificar um pedaço do plástico aonde dizia “Have a bre”.
“Ficam, mas de nada adianta. Só conversamos quando estamos vestidos”.
“Só vestidos?”, espantou-se o garoto. “Mas e as horas que ficam aqui, aguardando… o silêncio não lhes é perturbador?”
“Nem tanto… já sabemos o que uns pensam dos outros, e nossos sonhos não podem ser muito diferentes. Não é nosso propósito (esse de sonhar)”. E apontou, com os braços rígidos, o manequim vizinho. “Veja este. Ainda não lhe retiraram a roupa. Mas continua sendo pálido e oco, assim como todos os outros”.
O garoto largou, decepcionado, a sacola. Não havia chocolate. Aproximou-se para observar melhor e, constatou, o manequim era muito semelhante com o qual conversava (se não igual). O olhar vazio repetia-se, mas as roupas não ficavam marcadas com as sutis curvas que delineavam seu corpo. Isso, aliás, parecia satisfazê-lo (era difícil arrancar qualquer tipo de emoção daqueles coraçõezinhos de plástico). Arriscou uma pergunta:
“Essas roupas… gosta delas?”. Esperou a resposta, meio sem certeza se a obteria de boa vontade; dependendo do dia, e na maioria das vezes sem motivo, os manequins gostavam de esperar horas e horas entre uma frase e outra (e apesar de todos saberem que não faziam nada, pois estavam sozinhos no mesmo depósito, as aparências preenchiam um pouco do vazio que lhes era natural). Passados 30 segundos, ele respondeu:
“Não gosto e nem desgosto. Não é nosso propósito”.
O garoto, pensativo, olhou para o relógio. Precisava voltar ao trabalho. Retrucou:
“Mas quem determina o propósito de vocês? Não são capazes de pensar por si mesmos?”. Aquilo começava a deixar-lhe irritado.
“Ora, lógico que somos capazes de pensar”, respondeu, com um pouco de desdém. “Podemos fazer combinações entre peças de roupas diferentes, ou até mesmo modificarmos a nossa pose”.
“E nada mais lhe falta? Veja… isso foi o que todos os outros fizeram antes. Talvez daqui dez anos, ou vinte(dependendo do teu material), estarás deteriorado, sem uma perna, sem um braço… não te assustas com o vazio que restará?”.
“Não… foi assim que a fábrica nos fez. Se fôssemos preenchidos por dentro, talvez não nos importássemos com as peças de roupa que utilizamos. O problema é que o frio interior, pelo fato de sermos ocos, torna-se insuportável, e não temos outra alternativa”.
“Já pensaram em tomar providências junto à fábrica?” perguntou, olhando novamente para o relógio.
“Providências? somos meros produtos… Já lhe falei dos nossos propósitos? Nós não devemos aparecer, não devemos ser diferentes. Todos foram fabricados com o mesmo material, e para uma determinada função: a exposição. Ainda que as roupas mudem, e as poses também, a função continuará a mesma, até o fim. E o que a fábrica, afinal de contas, tem com isso? As lojas precisam de manequins”.
O garoto, já um tanto quanto cansado daquela discussão, e percebendo que não se importavam muito, por fim desistiu. Talvez as lojas realmente precisassem de manequins. Quem era ele, afinal, para questionar? As coisas já não pareciam fazer tanto sentido assim. Perguntou-se se haveria uma verdade única. Nesse momento, seu coração disparou: quando colocou a mão no bolso da calça, notou aonde havia guardado o chocolate. Nada mais importava.