“Atmospheric View” — Jenny Clark

Os andarilhos

Na observação da manifestação das qualidades individuais (entenda-se a qualidade, contudo, não em sentido meramente positivo, mas de forma mais ampla, como um diferenciador entre uma multiplicidade de existências) é instigante tentar reconstruir os pontos de apoio que deram sustentação a tais manifestações e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, tal observação produz a sensação de derrocada de todas aquelas verdades assumidas por nós mesmos, muitas vezes, como absolutas.

Tal qual doce amargo, essa percepção nova da construção multilateral do Eu como composto de interpretações, ou como produto das mesmas, possui sabor adocicado no que toca a uma verdadeira construção do ser para-si, mas, em contrapartida, revela traços de um amargor que reside na relutância do Eu em retirar-se do centro do palco do uso da razão e entender a si mesmo como alvo de diversas projeções. Não entendamos, contudo, que tal crítica deva constituir uma imagem negativa do fenômeno que não poderíamos deixar de ser, pois é inerente ao mundo dos fenômenos que o sejam como resultado da relação entre aquele que sente e aquilo que é sentido (mais precisamente, as forças que operam sobre o corpo e o resíduo dessa operação que resulta nas individualidades). No entanto, e aí reside o potencial transformador da crítica, a liberdade parece manifestar-se no aumento do que podemos chamar de “campo de percepção” das irrealidades que formam o sujeito. Irrealidades?

Sim, irrealidades! Num universo infinito, aonde a experiência é percebida na forma de energia e matéria (e onde o tempo é apenas dimensão espacial), como podemos determinar sua forma e, a partir daí, concluir por evidência que algo é ou não é? Parece um tanto quanto egoísta, portanto, essa resistência na formação dos discursos, não apenas pela questão metafísica, que na nossa percepção “in-temporal” pode não parecer tão importante, mas levando-se em conta que o ser é, analiticamente falando, devir por excelência. Neste sentido, o ser é um andarilho, numa estrada que não termina com o horizonte, pois quem por ela viaja sabe que horizonte não é destino: é, antes de tudo, a força que desencadeia o movimento. A liberdade, como núcleo que reside na vontade humana, é uma construção, e nunca será conceito absoluto. Se assim o fosse, sua própria significação não faria sentido qualquer, e a sua busca seria apenas a representação burlesca de um roteiro escrito pelos que exercem o poder sobre o discurso que nela se apoia.

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