Percepção (realidades paralelas)

Percepção (realidades paralelas): são poucos os momentos em que nos damos conta da nossa natureza. Poderíamos citar, de início, e por óbvio, o ato sexual. Aqueles dois corpos, envolvidos num misto de êxtase, torpor e jouissance, unidos pela motivação de compartilhar prazer. Duas pequenas existências, frente à imensidão do Universo, entrelaçados em movimentos repetitivos em decorrência da busca para realizar os seus mais profundos desejos carnais e espirituais. Ou, ainda, o pavoroso momento em que, no mais absoluto silêncio, e na presença de outros humanos, nossas entranhas resmungam de fome. O que nos envergonha não é o fato de estarmos com fome. Simplesmente é embaraçoso o pequeno instante em que todos se dão conta do quão rústicos e selvagens nós somos.

Contudo, nenhum destes dois exemplos supera o momento de ir aos pés. Nada é mais deprimente (ou libertador?) do que perceber-se ali, despido, sentado num buraco, pateticamente eliminando resíduos do nosso corpo.

Vejam como isso é revelador: o momento em que nos percebemos como meros seres vivos é perturbador! Às vezes esse momento materializa-se num lapso, num instante fugaz; às vezes, adquire a forma de um texto. Isso, verdadeiramente, não importa muito. O que realmente importa é o fato de que é uma percepção desconcertante. A pergunta de fundo que eu quero ressaltar, portanto, é a seguinte: em que momento da existência nós perdemos a humanidade, no seu sentido mais puro, mais selvagem? Ou, alternativamente, qual o significado de liberdade num contexto social?

Quando nos damos conta do quão perturbador é o fato de nos percebermos como animais e, logo depois, chegamos à conclusão de que este é o sentimento mais puro que há, podemos notar que existem, em verdade, dois níveis de existência (pelo menos na nossa consciência): a virtual e a real.

Transportemos este sentimento para um contexto de democracia liberal. Quem nós somos, verdadeiramente? Como faremos para pensar por nós mesmos se todas as imagens (e seus respectivos slogans) são, constantemente, providos? Claro que não se pode dispensar o argumento de que estes questionamentos são possíveis num contexto de democracia; o que se quer aqui, portanto, não é questionar a democracia per se. É questionar a democracia num contexto biopolítico. Quem nós somos, ou quem nós seríamos, com (e sem) a influência totalitária de um sistema que busca reproduzir-se dentro de nós? No que pensaríamos? Quais seriam os nossos verdadeiros desejos?

É difícil dar uma resposta. Mas arrisco dizer que, inicialmente, deve ser feita a crítica. Não essa crítica corriqueira, vinda de um ambiente aonde a maioria dos gatos são pardos. É preciso, portanto, questionar as duas(?) vias que estão aí, postas, na tentativa de produzir um necessário acontecimento. Mas não um acontecimento que vislumbra-se no horizonte; esse acontecimento deve ser, necessariamente, revolucionário. É fácil cair no jogo dos discursos (inclusive aqueles dos direitos humanos que, à primeira vista, são irrecusáveis). Difícil mesmo é desconstruí-los e tentar dar-lhes nova significação sem ser estigmatizado, numa sociedade aonde as etiquetas são quase um fetiche coletivo.