rascunhos sobre o tempo

Pensar o tempo como dimensão, e não tanto a partir da concepção de tempo com a qual estamos acostumados, abre-nos algumas possibilidades de maior entendimento da realidade. Tatear essa “abstração” com a finalidade de buscar aumentar o campo de percepção, ou de apreensão, do real, é como embarcar numa jornada sem destino: as pequenas distorções percebidas como ‘agora’ possuem tantas possibilidades e tamanhas dissonâncias, de um observador em relação ao outro, que o próprio ato de determinarmos um agora mostra-se um equívoco.
São infinitas portas, com infinitas possibilidades. Todas as existências (todos os ‘agora’), que compõem o que poderíamos chamar de um “momento de consciência”, estão unidas, justamente, pelas suas distâncias. Apesar da concepção de tempo parecida, a verdadeira noção deste não é, nem de longe, a mesma. As relações vivenciadas, a experiência acumulada, os sonhos, os medos, tudo isso influi no momento de apreensão da realidade. E todas essas realidades distintas influenciam-se, umas às outras, na construção do real coletivo. Energia e matéria: essa combinação de forças, esse movimento, que rege tudo, desde os mais ínfimos átomos até as maiores galáxias.

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o fato é que ninguém sabe de nada. Caminhamos, há séculos, sob o sol (ou sob a luz) de um modelo de vida que não exercita a potencialidade do pensamento, mas que prefere, ao contrário, determiná-lo. Não existe o certo e o errado, o justo e o injusto. O que existe são interpretações -

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Era engraçado observá-la no inverno: as bochechas ficavam vermelhas, e as roupas pesadas faziam-na diminuir de tamanho. Caminhavam em silêncio, por entre as ruas paralelas à casa, enquanto desviavam das poças d’água, formadas pela chuva da noite anterior no chão de terra batida. Não sabiam o que seria do futuro, e nem ocupavam-se em tentar descobrir. Enquanto estavam juntos, era como se o tempo nem existisse.
Aliás, nada parecia realmente impossível. Se quisessem ir embora, iriam. Iriam até o fim do mundo, se fosse lá que acreditassem ser realmente felizes. Era um sentimento de plenitude que, paradoxalmente, não seria possível sem o outro. E talvez por isso que seu olhar gerava-lhe um certo fascínio: parecia chamá-lo para um universo inteiramente novo que, aos poucos, confundia-se com o seu próprio.
Energia e matéria… pareceu entender finalmente. Pegou-a pela mão. Pensou que, se vistos de longe, pareceriam dois pontinhos sumindo no horizonte. Mas tinha certeza que, se vistos de muito longe, seriam mais uma estrela no céu.

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Existências que se encontram: é um lapso, uma efemeridade. Mas estão os dois ali, naquele momento, sendo um para o outro. Só sendo; o que é, de fato, não há como saber. Cada palavra, cada respiração, cada centésimo de segundo, os olhares, o sangue correndo: tudo aqui e agora. Tudo marcado eternamente no tecido do espaço-tempo, e acessível a qualquer momento. Parem os relógios… eles não servem pra nada…

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