Ah, o tempo…

Ainda jovem, logo que se entendeu como gente, Luis teve os primeiros contatos com carinho familiar. Gostou daquilo.

Ainda jovem, Luis entendeu que tinha um talento natural atlético. Era apenas brincadeira de criança, mas ele já levava a sério.

Ainda jovem, as primeiras competições povoaram a vida de Luis. Eram infantis, mas ele se sentia um adulto, um atleta.

Ainda jovem, Luis quis ir mais longe. Passou a competir em provas de atletismo com atletas mais velhos. E ganhava todas.

Ainda jovem, Luis conheceu uma breve fama. Não sabia o que era, mas gostava.

Ainda jovem, Luis se apaixonou pela primeira vez. A decepção se somou à tristeza de perder uma prova para seu rival estadual. Pensou em desistir.

Ainda jovem, Luis conquistou marcas importantes no atletismo estadual, o credenciando para disputas em nível nacional.

Ainda jovem, Luis começou a namorar. Descobriu a vida com Natália. Altos e baixos, porém uma companheira a qual ele poderia sempre contar.

Ainda jovem, a Confederação Brasileira de Atletismo convidou Luis para ser o representante brasileiro no Mundial que seria disputado dali a dois anos. A preparação passaria por dois campeonatos brasileiros da modalidade.

Ainda jovem, Luis redescobriu a fama. Foi alçado a maior esperança do Brasil no Mundial. Matérias com seu nome estamparam capas de jornais durante os dois anos antes da competição.

Ainda jovem, Luis se seduziu pela vida da fama. Terminou com Natália e foi para a noite. Mulheres e um mundo novo. Experimentou de tudo.

Ainda jovem, Luis partiu para a primeira competição de nível mundial em sua carreira. Toda a expectativa e torcida do país estavam com ele.

Ainda jovem, o império de Luis ruiu. Uma fraude que foi endossada pela sua patrocinadora de calçados para corrida o permitiu ganhar. Descoberta, a farsa acabou com a carreira dele antes mesmo de chegar no Brasil.

Já adulto, Luis chegou ao Brasil com olhares de metralhadora. Ninguém no país a não ser sua família estavam do seu lado.

Já adulto, Luis teve seu rosto colocado em todas as esquinas do país como bode expiatório. Era a vergonha nacional, ninguém mais poderia perdoá-lo.

Já adulto, a vida boêmia que Luis tinha se perdeu. Ninguém mais gostaria de ser visto ao lado dele, tamanha projeção o escândalo teve na imprensa.

Já adulto, Luis abandonou a carreira, não porque quis. A Confederação expulsou ele, e o proibiu de se filiar durante trinta anos. Tempo que não fazia nenhum sentido.

Já adulto, Luis arranjou um emprego em uma empresa de telecomunicações. Preferiu o anonimato, mudando completamente a sua aparência.

Já adulto, Luis se casou com Flávia. Mulher que calhou ao período de vida dele, mas era completamente diferente.

Já adulto, Luis se divorciou de Flávia, e teve o convívio dos filhos limitado a fins de semana. Ao crescer do mais velho, ouviu dele que “preferia mil vezes o padrasto do que a vergonha de andar do seu lado”.

Já adulto, Luis, foi para uma cidade do interior, a qual quase ninguém o conhecia. Foi viver o resto da vida sem querer ser lembrado.

Já idoso, Luis foi relembrado pela imprensa. O caso foi um exemplo de injustiça. O atleta teve 0% de envolvimento no caso da fraude do tênis. Seu técnico, a época já falecido, foi todo o responsável por adulterar seu tênis.

Já idoso, teve muito do reconhecimento de amigos e família novamente. Muitos ligaram, outros o visitaram, mas já não era a mesma coisa.

Faleceu então, um pouco satisfeito, porém angustiado com o que ele poderia ter sido.

Ficou pelo tempo. Ah, o tempo…

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