Dividido por três

Saí de casa dando três passos para a direita. O caminho não pareceu certo como antes. Resolvi voltar, retrocedendo e percorrendo a mesma metragem em direção oposta. Daí, ouço um grito distante que parece ser meu nome. Olho para trás, e era eu. No mesmo lugar em que parei e questionei o caminho. Aquele eu me chamou para acompanhá-lo.

“Como vai o dia de hoje?”, aquela figura me perguntou.

“Bastante confuso, eu diria”, e continuei a caminhar do seu lado. Agora o caminho fazia bastante sentido.

Atravessamos a rua, e entramos em uma ladeira. Aos poucos, a rua ficava menos ingrime, e o desconforto inicial de inclinar o corpo para andar sem esforços ia passando. Perguntei o que eu fazia ali justo naquela hora.

“Resolvi te acompanhar no caminho de hoje. Se você não se sentir confortável pode me dizer”, insistiu eu, para que ele tivesse a certeza de que eu estava seguro de sua presença. Respondi que “não havia problema”, e segui o passo me preparando para atravessar a rua novamente.

“Faz tempo que não conversamos. Sinto que você mudou de certa forma. Não está mais namorando, está um pouco mais calado. Aconteceu algo grave?”, a figura me interrogava.

“Só senti que era hora de mudanças. Não estava satisfeito comigo mesmo. Aí decidi que era hora de tomar decisões”, disse para o eu.

Ele sorriu e fez que entendeu com a cabeça. Quis entender mais.

“E quais decisões foram essas?”

“Basicamente, decidi meu futuro profissional. Era algo que meu eu interior já estava tentando me dizer faz tempo, mas eu não dava ouvidos”. Enquanto já acessávamos a passarela da avenida, ele me perguntou se era eu que tinha conversado comigo para chegar a essa conclusão. Respondi que não, que na verdade tinha sido ele. E ele me mostrou que “essa era a resposta. Auto-destruição”.

“Andou vendo Clube da Luta né…”, disse ele.

“A questão é que esse conceito fez muito sentido pra mim. Por mais que eu não vá me tornar um anarquista com 5 camisas e 5 meias pretas, eu vou interpretar minha vida de outra forma”, expliquei, já tirando um chiclete do bolso previamente guardado para a ocasião.

Ele sempre gostou dessas ideias de liberdade acima de tudo, não é?”

“Sempre. Ele me influencia muito. Mas tem alguns pontos de seu pensamento que são muito radicais. Nesses pensamentos eu discordo dele”.

“A vida em sociedade não permite muito mais esse radicalismo”, disse eu.

“A menos que ele vá viver no campo. Tem horas que dá vontade, mas abandonar a família por um ideal, acho que não funcione”.

Nesse momento, já estávamos acessando a praça, e o papo plainava entre outros assuntos. Quando cheguei a porta, convidei eu para entrar. Ele recusou. “Vou passear por aí, angariar motivos pra corroborar suas decisões”.

Disse um “até breve”, e entrei.

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