Paixões ou amores?

Papos de bar são como ondas no mar: vem e vão…

Algumas vezes são mais intensos e vem de uma vez (e se você estiver no mar ou no bar, cuidado com o capote), e outras vem de leve e podem durar por uma tarde. Tudo isso tem variantes, como a(s) pessoa(s) que você conversa, o bar, a cadeira, a bebida. Tudo isso vai influenciar no quanto o seu papo “go with the flow”

Certa vez em um bar desses de calçada, estava sentado com conhecidos e amigos, em um fluxo de pensamento conjunto que já durava algumas horas. Não tinha bebido quase nada, então meu cérebro começava a dar um passo na emoção (a hora em que você liga/manda mensagem pra sua ex), porém ainda conseguia raciocinar para dizer coisas que eu sóbrio não me envergonharia no dia seguinte. O papo foi como uma flanela que estava na Rua da Bahia, tomou um vento em direção a Afonso Pena e foi parar na Pampulha. Simples assim.

Era uma turma com homens e mulheres, em sua grande maioria já bem resolvidos quanto a 90% dos assuntos da vida, e que começaram a jornada boêmia querendo apenas chorar as pitangas da vida universitária com algumas cervejas e cigarros de palha (eu era a minoria que não fumava).

O assunto foi ficando cada vez mais passional quando estávamos discutindo sexo. As intimidades foram jogadas como as roupas de um casal louco de prazer e entregue um para o outro em direção ao quarto (ou o lugar mais próximo e confortável que aguentasse o peso de duas pessoas). Entre desejos, repulsas e prazeres, a conversa se guiou para motivações do futuro.

-Caco Barcellos. Eu quero ser ele.

-Versão feminina, Ana Paula?

-Tipo isso. Vamos ver se eu consigo né?

Como um jogo de cartas, foi passada a vez da fala para as pessoas na mesa em sentido anti-horário. Eu era o último, e talvez o objeto de mais interesse ali, pois pouco comentava sobre meus desejos e paixões. Claro que quando você fica tocando bateria ou guitarra imaginária, as pessoas já imaginam o que seja. Porém isso poderia ser apenas uma inquietação natural.

A apreensão foi aumentando. Faltavam duas pessoas antes de mim. Era como se estivéssemos em uma sessão do Alcoólicos Anônimos, onde cada um se apresentava, e dizia o que estava fazendo em um passado recente, combinado com as suas paixões e vontades pro futuro.

E então, totalmente encolhido na cadeira de plástico com braços, tive de me manifestar. Todos olhavam com um sorriso e um pensamento que ecoava em minha mente dizendo “vamos Guilherme, fale conosco”.

Comecei me apresentando para aqueles que já me conheciam. Disse meu nome, idade, ocupação atual, posição política, doce preferido, pepsi do que coca. Enrolei até onde deu. E aí, veio o bombardeio de perguntas sobre a minha maior paixão: música.

-Qual tipo de música que você ouve?

-Você toca algum instrumento?

-Me recomenda alguma banda que você gosta…

E as minhas respostas eram basicamente um “ehh…” contínuo, de forma a desinteressar as pessoas sobre meus gostos, principalmente de algo tão pessoal. Só que o efeito foi inverso. As perguntas só aumentavam e eu me sentia cada vez mais enclausurado. Minha mente não funcionava, eu só pensava o quanto eu ficaria desconfortável realmente respondendo as perguntas. Até que decidi me concentrar e comecei a responder devagar. E então veio a pergunta derradeira:

-O que a música significa pra você?

Um pouco mais confortável, respondi primeiramente com uma calma na voz. fui me tomando de uma euforia leve, que foi aumentando com o comprimento da resposta. Aos poucos, aumentei minha voz ao ponto de não me segurar sentado na cadeira. Me levantei, gritando para o mundo e apertando minha camiseta:

-MÚSICA É MINHA VIDA, PORRA!

O primeiro espanto foi seguido de um aplauso, como se eu tivesse feito uma intervenção na rua ou algo do tipo. Foi uma resposta teatral. Quando me sentei a cadeira novamente, percebi que estava voltando ao estado normal de espírito, e que tudo que eu tinha imaginado sobre as respostas tinha sido um pensamento, uma imaginação.

No final, não tinha passado de ilusão. Não fui perguntado sobre minha paixão, tinha sido apenas um devaneio que me tirou por segundos daquela mesa e me levou pra outro lugar, o qual toda aquela cena tinha acontecido.

Assim, continuo silenciosamente anônimo sobre minhas paixões. Ou não…

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