Oásis Invertido

Estou passando pela frente da igreja quando ouço o ônibus vindo e mantendo a tradição de passar pelo meu bairro justamente quando estou indo para o ponto e não estou na frente do mercado para valer a pena uma corrida à pega-lo, qual é esse? "Ok" diz nos lads onde deveria estar o nome do ônibus, "então Ok!" penso. Opa! aí vem mais um que não vou pegar, viro e olho, é daqueles que vão de cidade a cidade, esqueci o nome desses, mas este vai pra Barra do Sul, conhece? Não te culpo, é um balneário pequeno - de maneira que conheço cada canto daquele lugar - aqui de Santa Catarina, os únicos motivos de eu gostar de lá são subjetivos, não é uma das praias mais bonitas, espartanos costumavam jogar as crianças em seu mar como treinamento militar, se elas sobrevivessem voltariam como reis. Suas dunas... espere, "dunas", são menores que um quarteirão, me preocupa como elas vem se deslocando para a direita, para longe do mar, em direção a cidade, e com o passar dos anos há tanta vegetação lá que é questionável lhe identificar como duna, é um oásis invertido, e conforme a duna anda revela restos demolidos de prédios antigos, é a Atlanta invertida, não há como não amar este lugar.
Passei cada verão dos meus 19 anos lá em uma casa que minha família toda divide, um quarto para cada tio ou tia com sua família. A melhor parte, na minha infância, era morar na mesma casa que meus primos, onde brigava...brincávamos juntos, hoje ninguém mais vai tanto quanto antigamente, ainda não sei ao certo o que mudou, talvez não tenham tempo, interesse, talvez tenham percebido que barra do sul é apenas barra do sul. Porém isto não aconteceu comigo, a nostalgia não deixa, ainda lembro de acordar e ir para varanda de pisos brancos e ver a luz do sol das 8 refletindo neles fazendo doer os olhos recém abertos num dia de sol com algumas nuvens, acompanhados com a melhor brisa, uma que não tem em minha cidade, e ao som do mar. A hora de ir para praia era a melhor, lembro ainda do pequeno Marcos se matando para carregar a cadeira de praia na pequena rua de areia que ao final virava a esquerda e dava direto no beira mar, isto enquanto usava uma sunga vermelha e azul e tinha pequenas partes de protetor solar mal espalhadas em seu corpo. O frio das areias que não foram aquecidas pelo sol e as que foram molhadas pelo mar me lembram de tempos de liberdade, tempos em que minha única tristeza era perder meus bonecos na areia, por que eu os enterrava?, a fraqueza para andar na areia e a fome depois de tanto brincar na água era sempre compensada com o banho (de chuveiro) em casa, sendo enxugado depois - de maneira tão carinhosa que a criança quase sangrava - pela minha mãe, seguido pelo almoço - do qual sempre espiava ser cozinhado ao sair do banheiro (que todos usavam) enrolado na toalha - que as mulheres preparavam (quando não era churrasco, neste caso eram meus tios).
Mas memórias a parte, voltemos a uma mais recente. Três anos atrás, o carro estava cheio com as malas para passar o verão, estávamos chegando por uma das 2 entradas (não sei como ladrões de banco conseguiam fugir daquele balneário, bastava só bloquear as 2 saídas e deixar eles tentarem a sorte pelo mar) sempre olhando a esquerda, já que, quando entramos, é neste lado que fica a lagoa a beira da estrada, mas pelo acaso ou não, deste mesmo lado tinham casas que, ao se passar em movimento pela estrada, estas obstruiam a visão da lagoa fazendo a visão desta sofrer rápidas interrupções, era possível decifrar um código Morse da frequência destas interrupções, talvez elas revelem o nome verdadeiro de Deus, ou não. Voltando à história, neste dia em especial, em uma das casas, uma de madeira da qual a humildade era proporcional a sua "aconchegância", havia uma garota olhando o movimento dos carros na rua pela janela, com a cabeça apoiada em sua mão e com o cotovelo apoiado na janela, sua beleza era tanta junto com o fato de ela não fazer o meu tipo, que desde então não tenho mais um tipo estabelecido, era de uma pele morena que faz falta quando não presente, e cabelos bem loiros no melhor estilo surfista, combinação mais inesperadamente (para mim) maravilhosa que já vi. Quase quebrei o pescoço para continuar a ve-la conforme o carro andava, "que foi Marcos?" disse a motorista minha mãe, "nada, nada..." eu quase quebrei meu pescoço por nada! 
Depois de nos estabelecer-mos na velha casa, no dia seguinte, peguei a bicicleta de meu tio, estava disposto a ir olhar aquela casa novamente, continuei disposto mesmo depois que a rosca de metal que prendia o guidão da bicicleta, na bicicleta, se afrouxou, mesmo depois de eu virar o guidão e a roda não acompanhar, mesmo depois de andar no lado dos carros na rua de lajotas pela falta de ciclovia ou tentar a micro "calçada" passando por entre os postes e os muros, o guidão frouxo foi útil nessa hora quando eu o virava para caber na passagem e a roda continuava reta. Enfim, ela não estava lá, nem naquele dia nem no ano seguinte, mas sua presença na minha vida, de tão abstrata, me surpreende ser benéfica, de maneira a sempre refletir o ser que admira.