África em exposição

A fotógrafa tem muito talento, as fotografias são lindas, perfeito registro de um povo em um tempo, mas… A visão do colonizador… O olhar do fotógrafo, para o ser selvagem e estranho, que “não entendo, mas é bonito, de uma forma diferente, exótica…”

Na exposição “África” só haviam brancos intelectuais, um clubinho de posse. Posse de dinheiro, de poder, de intelectualidade. “Vamos analisar o exótico do nosso trono da verdade… Na verdade, a estética tribal é de uma beleza tão peculiar, uma beleza fora do padrão… do padrão… padrão.”

Era inauguração, um evento de bebidas, canapés e cartões de visita. Vi cerca de vinte e poucas pessoas, três eram negras. Uma senhora muito elegante com alguns adereços africanos e um rastafari bem amarrado, caindo descuidadamente sobre os óculos de grife. Por um instante achei que ela estivesse entre iguais, muita gente rica, ela parecia estar deslocada, mas rica. Duas jovens negras, talvez filhas dessa senhora, também de classe bem mais alta que a minha. Nenhum outro negro a não ser os enquadrados nas paredes.

Os intelectuais discutem sobre o belo, a estética, o exótico. Eu leio o que pode ser lido nas imagens, um português de Portugal, talvez sejam de um país colonizado por Portugal. Mas qual? Cabo Verde talvez? Não sei. O programa não diz, o anuncio não diz, não há legenda nas molduras. Tudo é apenas África. Um continente imenso, imensamente igual. É tudo África, não importa onde. As fotos são lindas, a estética é linda, os ornamentos tribais, os pés sujos de lama, o corpo nu, o exótico… é tudo lindo. A África é longe, pobre e cheia de coisas exóticas, mas a fotógrafa nos aproximou de lá, mostrou a beleza exótica de toooodo um continente exótico… exótico… exótico.

A senhora negra de muita elegância e postura sumiu. As jovens negras parecem afastadas, um olhar de medo, mas aquele medo de “primeiro dia de aula”, de “não conheço ninguém… não sou daqui… tudo muito diferente…”.

Resolvi encerrar minha visita. Desviei dos canapés e proseccos e segui para a saída. Mais brancos classudos entrando e então descubro um novo negro na inauguração: está guardando os carros que chegam.