21 lições de Augusto Boal para o Teatro

por Guilherme Dearo


Dramaturgo, diretor de teatro e ensaísta, o carioca Augusto Boal (1931–2009) é considerado uma das figuras mais importantes do teatro mundial. Membro do Teatro de Arena de São Paulo, criador do Teatro do Oprimido, Boal levou o sonho do teatro político de Brecht a um novo nível. O jornal britânico The Guardian chegou a dizer que “Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislavski”.

A partir de sua autobiografia, “Hamlet e o Filho do Padeiro”, ficam algumas lições de Boal para atores, diretores, dramaturgos e qualquer um que queira fazer Teatro. Ainda há muitas outras lições preciosas em obras como “Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas” e “200 Jogos Para Atores e Não-Atores”.


1. Questione-se: qual o destinatário do seu teatro? Se o povo, que povo? Uma coisa é fazer teatro de uma perspectiva popular. Outra coisa é o povo estar sentado na plateia.

2. Não encene uma peça que você não ame.

3. O espetáculo deve ter coração. Teatro tem que ser em carne viva. Do contrário, é mero entretenimento.

4. Quando inovar, quando criar algo novo, prepare-se para ouvir “O que você fez é ótimo, mas não é teatro”. Responda: Eu sou teatro! Teatro é o que faço!

5. Teatro não é a reprodução da realidade, é a sua representação. E, como tal, de algum ponto de vista é feito. Ponto este situado na sociedade, não no cosmos.

6. Fazer teatro é dominar a dor. As dores mais cruéis tornam-se belas.

7. É preciso questionar a função do teatro e do seu trabalho. Dizer o quê ao público: o que sentir ou o que acha que ele deveria pensar? Pensar o que você pensa ou o que ele deveria pensar? Testemunho ou catequese? Teatro deve divertir ou educar? Educar vem do latim e quer dizer conduzir. Você tem o direito — ou poder — de conduzir seu público? Onde?

8. Teatro é arte coletiva. Respeito e disciplina são essenciais. Um poeta pode acordar no meio da noite e escrever belo poema. Um pintor pode pintar um quadro em minutos ou anos, como sentir melhor. Mas artistas das artes coletivas não podem convocar espectadores às três da madrugada, alegando que só nesse momento sentem que baixou o santo.

9. O alicerce de todo espetáculo: dois atores se olhando. O olho é a parte mais vulnerável do corpo humano. Por isso procuramos, recatados, esconder nossos olhos em momentos de emoção. Ou oferecê-los, em momentos de amor. Os atores devem-se oferecer seus olhares. É no olhar que se cria a estrutura do espetáculo. É no olhar que nascem os personagens. É no olhar que se descobre a verdade. Teatro é amor, que a dois se faz.

10. Cuidado em transformar seu teatro político em teatro evangélico: o teatro político mensageiro pode se transformar em teatro que evangeliza, que leva uma palavra indiscutível de uma organização ou partido.

11. Cuidado com a falsidade da forma mensageira do teatro político. Você não tem o direito de incitar seja quem for a fazer aquilo que não está preparado você mesmo a fazer.

12. Não deixe nenhuma palavra atirada ao vento. Cada suspiro deve encontrar ouvido atento; cada movimento, olhar vigilante.

13. A palavra que se pronuncia não é nunca a que se escuta.

14. O ator não entra no personagem: falso. Nenhum ator pode interpretar um personagem que não exista dentro de si. O personagem sai do ator, que o levava dentro. Sai pelos olhos! O ator entra, sim, no personagem dos outros. Entra pelos olhos!

15. Cada espetáculo tem o tamanho do teatro onde se representa: muda o espaço, muda o tamanho do espetáculo.

16. Se um clássico é universal, é porque também é brasileiro, do contrário não seria universal.

17. O artista não sabe tudo nem deve saber. Um artista é apenas um artista que deve aprender o prazer de perguntar. Deve saber a arte de perguntar a boa pergunta.

18. Teatro é desejo, luta corporal, defesa pessoal. Em teatro se fala a verdade, propõe a busca de si mesmo, de si nos outros e a dos outros em si. Propõe a humanização do ser humano. Isso não se faz sem luta. Teatro é arte marcial!

19. Libertar-se é transgredir. Transgredir é ser. Libertar-se é ser. Invadindo a cena, o espectador pratica, consciente, um ato responsável. Pois a cena é representação do real, ficção. Mas o espectador não: existe em cena e fora dela. Transformando a ficção, ele transforma a si mesmo. Libertando-se, o espectador permite o artista se libertar, exercer plenamente a sua arte. Ganha-se o direito de falar porque se aprendeu a ouvir.

20. Fora do palco, interpreta-se a vida inteira, se faz teatro. No palco, se vive. No palco, é vida.

21. A sociedade resmunga: não, não é, não pode, não faça, não queira, não diga. Teatro é o contrário: é arte que diz Sim.

Bônus: Em São Paulo, se chove às cinco da tarde, metade dos espectadores desistem de ir ver a peça à noite.

Ensinamentos escritos a partir do texto adaptado de Augusto Boal em sua autobiografia “Hamlet e o Filho do Padeiro” (Cosac Naify, 2014, São Paulo)