Historicamente, falar sobre doença é um dos maiores tabus de uma sociedade. A automática relação das palavra doente e incapacidade, é encarada com temor e estranheza, visto que a nulidade de qualificação de um ser humano é algo a ser rejeitado por todos. Sentimentos como angústia, tristeza , medo e a própria rejeição acompanham um indivíduo doente. Existe um único lugar onde tudo isso encontra-se junto: os hospitais.

Um dos primeiros registros de hospitais na história humana, estão ligados aos locais onde se mantinham os soldados que haviam se ferido do exército romano antigo, os valetudinários. A função era basicamente a mesma dos hospitais de hoje em dia, porém sem todos os avanços da medicina atual que permitem o indivíduo cuidar, manter ou recuperar sua saúde — em latim, valetudo.

Dito isso, este que vos escreve resolveu ir ao Hospital de Clínicas de Uberlândia e acompanhar algumas horas da movimentação do único hospital de alta complexidade da região, que presta atendimento para uma população de quase três milhões de pessoas distribuídas por todo o Triângulo Mineiro e Vale do Paranaíba.

Antes de narrar minha epopeia pelo hospital, é válido ressaltar que ele vem passando por uma de suas maiores crises financeiras da história, causada pela falta de repasses de verba, o que gerou e continua gerando prejuízos imensos para a população, como o fechamento das portas para novos atendimentos diversas vezes.

Hospital de Clínicas de Uberlândia. Créditos: Guilherme Dezopa

Era o dia 19 de Junho quando entrei no Hospital de Clínicas (HC). 15h de uma tarde fria, que ventava e o sol não se fazia muito presente no céu. Entro pelo hall de entrada e me deparo com uma fila enorme em frente as atendentes. Reparo no olhar de cada pessoa que aguarda ali e me prendo a atenção em uma senhora que estava rodeada por um grupo de pessoas, todos chorando. Pelo pouco que consegui ouvir, o neto havia se envolvido em uma batida de trânsito e foi levado pro HC, ela e o grupo com quem conversava chegaram depois da notícia. “É a segunda vez esse ano, não sei o que eu faço com ele”, reclama a senhora. O cheiro metálico típico de hospitais cria uma tensão extra para as palavras engasgadas da vó que aguardava o neto.

Sempre me espantei com a capacidade dessas pessoas que trabalham nos atendimentos de hospitais de não se chocarem com o vêem diariamente. É um bloqueio mental pra esse tipo de coisa que julgo um talento natural, não serviria para tal ocupação. Todas aquelas atendentes lidam com o choro e a agonia alheia diariamente e não parecem se incomodarem muito com isso. Espero estar errado.

Sento-me nas cadeiras de espera, junto às pessoas que estão ali para o atendimento. Reparo um casal que senta a duas fileiras na minha frente, a moça, que tinha seus longos cabelos louros segurados por uma tiara de flor, segura uma feição de dor no rosto e o homem que a acompanha não e parece muito solícito, com seus olhos voltados para o tablet que segura em seu colo. Ela levanta rapidamente e corre até o banheiro, volta tempos depois com a mão no estômago, indicando o vômito.

Abaixo a cabeça para começar a anotar tudo o que acontece ao meu redor e, de repente, percebo que estou me deixando levar pela conversa de um senhor que aparenta ter seus 50 anos, grisalho e um pouco exaltado, com uma jovem de cabelos pretos e cabisbaixa ao meu lado, aparentemente sua filha. “Já estamos aqui há três horas e já passaram umas trezentas pessoas na nossa frente”, diz ele, acentuando a hipérbole. Isso me desperta o pensamento de que, mais difícil do que o profissional que delimita quem tem prioridade no atendimento, é o paciente aceitar que existe outra pessoa que está em condições mais graves do que você, e por isso, deve ir na frente. O pai levanta, se dirige às atendentes, possivelmente para reclamar da demora para o atendimento de sua filha, mas logo em seguida volta com a cabeça mexendo de um lado para o outro, indicando que o apelo foi sem sucesso. Enquanto isso, a moça de tiara de flor vai mais uma vez correndo para o banheiro.

Depois de quase cinquenta minutos sentado, resolvo levantar e andar um pouco pelo Hospital. Não dou mais de vinte passos e reparo que a quantidade de crianças aumenta, talvez o que justifique é a pequena sala decorada com um papel de parede preenchidos de personagens de desenho animado, vários brinquedos espalhados pelo chão que, por sua vez, traz estampada uma amarelinha. Estamos na ala de pediatria. Cerca de oito crianças aguardam sentadas junto as mães — ah, se não fossem as mães! — e a maioria delas segurando suas toalhinhas amarradas nos bicos. Outras cinco brincam na irônica sala. Percebo que sai de um consultório um menino loiro, magricelo e sentado em uma cadeira de rodas, insistindo para as duas moças que a acompanham, uma mais velha e outra mais nova, avó e mãe da criança, respectivamente, que ele estava melhor e que conseguia andar sozinho, mas logo foi repreendido pelas senhoras. Depois consigo escutar que a criança estava passando a tarde com a avó e subiu em uma árvore e, no momento que foi descer, escorregou e caiu lá de cima. Bem típico para uma criança daquela idade.

Parte de Análises clínicas do HCO. Créditos: Guilherme Dezopa

Subo as escadas até o segundo andar e me deparo com uma capela. Fico um grande parte do meu tempo sentado numa poltrona em frente a ela e contemplando cada um que passa. Nesse tempo, cruzaram com a capela cerca de quinze pessoas. Dez passaram fazendo o sinal da cruz sobre o peito, uma ignorou a presença do sagrado local, duas ajoelharam, oraram e leram o que a bíblia tinha a oferecer naquele momento. Entretanto, uma outra senhora me chamou bastante a atenção. Ela aparentava ter seus sessenta anos, os cabelos tingidos de preto estavam envoltos por um elástico mal ajustado. Entre suas mãos, ela carregava um crucifixo. Entre seus olhos, ela carregava lágrimas angustiantes. Ela ajoelhou-se no púlpito, levou as mãos cruzadas segurando o crucifixo até a testa e pôs-se a pedir, a qualquer entidade sagrada que estivesse disposta a ouvir seu apelo, pelo seu ente querido que estava no centro cirúrgico naquele momento. Minha reflexão automática foi como é importante termos algo para nos assegurar em horas quaisquer, mas principalmente as de agonia. Aquela senhora, naquele exato local, demostrou sua mais profunda fé e usou suas palavras engasgadas em meio às lágrimas como uma súplica. É, realmente, uma mistura de vários sentimentos em um mesmo lugar.

Nesse momento, eu já me encontrava como narrador-personagem de cada história que eu analisava, e envolto pelas diferentes atmosferas que aquele ambiente me proporcionou. É um lugar onde todo tipo de sentimento se choca: de um lado, a felicidade de saber que uma cirurgia deu certo, e do outro, a dor de um indivíduo que perdeu um ente querido. Sem dúvida alguma, é um ambiente que consegue ilustrar a complexidade do que é sentir alguma coisa.

Finalizando minha odisseia pelo Hospital de Clínicas de Uberlândia, já partindo por onde comecei minhas anotações, vejo um grupo experiente de médicos conversando com um mais novo: “Você pode dar alta assim que ele cumprir toda a agenda de remédios dele por hoje; se ele não melhorar, mande-o voltar”. O médico que recebia o conselho, um homem que beirava os 35 anos, calvo, olhou com uma cara de questionamento para os mais velhos. Provavelmente, ele não tinha a certeza de que seu paciente estava curado da enfermidade que portava. É uma profissão de constante aprendizado, pois mexer com vida, no sentido mais bruto da palavra, não é uma tarefa fácil. Se ele conseguir curar ou melhorar uma pessoa, não fez mais que a obrigação, mas caso o paciente morra, ele é o culpado.

Ambulatório do Hospital de Clínicas de Uberlândia. Créditos: Guilherme Dezopa

Finalizo assim, minha odisseia. Carrego comigo a dimensão da importância desse lugar para a comunidade que depende dele. Não merece o sucateamento que viveu pouco tempo passado e ainda sofre por causa disso. Em recente declaração, o diretor do HC afirmou que repasses foram feitos e serão usados para normalizar as cirurgias cardíacas, liberando mais leitos e ampliação do centro cirúrgico. A atual luta do HC é conseguir credenciar um hospital particular para receber cirurgias de alta complexidade do SUS na cidade.

Até lá, valetudo a todos!