O você-sabe-quem

A palavra que quase escapa da boca dos que estiveram na Paulista no último dia 13, é quase um pecado

Num vídeo da Revista Brasileiros, daqueles que a gente espera toda segunda-feira pós-manifestações contra o governo, o repórter André Sampaio inicia sua jornada perguntando: "O que é tolerância?". O interessante, claro, são as respostas. A certa altura do vídeo, um senhor, que aparenta beirar os 50 anos, diz que "a gente tem que tolerar, tanto o Partido do PT [sic],o DEM, como o PMDB, temos que ter tolerância, temos que respeitar. Agora, temos que ser respeitados também." Um outro senhor alega que tolerância "é o limite da capacidade de uma pessoa tolerar coisas erradas e incorretas, e no Brasil estamos num estado de intolerância, pois os desmandos do PT e…do PMDB, também…" Enfâse nas reticiências.

Esse é o mesmo senhor, o único, o diferentão, que, numa outra pergunta, diz a palavra temida… ta ran ran ran… PSDB!!!!!!

O vídeo todo, as pessoas relacionam todos os partidos, até o DEM, vejam vocês, menos o você-sabe-quem. Parece um medo de admitir pra si mesmo que, sim, o partido pelo qual você foi as ruas, aquele que fez você discutir com seu filho "comunistinha", aquele partido daquele cara que faz vídeos no Whatsapp para você, esse mesmo partido, sim, ele roubou. Também.

É. Eles roubaram.

Esse texto não é para defender um lado e criticar o outro. Não é certo usar aquele argumento "tá vendo?! Eles roubaram também!" Não. Isso é limpar o chão com bosta.

Um texto da Eliane Brum fala exatamente sobre isso. Ele é enorme, como a maioria dos textos dela, mas, em resumo, ela reflete o quão crente os brasileiros ainda são na política, mesmo dizendo que "todos são ladrões". A insegurança em dizer "PSDB" reflete um medo de admitir pra si mesmo que estamos sem saída mesmo, que não há herói e nem vilão, não é um filme da Marvel, é um contexto político, histórico e social, algo absurdamente mais complexo do que uma luta de bem contra o mal. Admitir que você, defendendo o PSDB, está tão errado quanto quem irá às ruas no dia 18 de março, é difícil, mas é o que deve ser feito. Sem medo.

"Ah, mas o Aécio e o Alckimin foram vaiados". Verdade. Ainda bem que foram. Mas alguém tem certeza absoluta que o PSDB não vai ser forte na disputa pela prefeitura de São Paulo? Eu não diria isso depois da crise hídrica mais assustadora da história do estado e o Governador ter sido eleito no primeiro turno. Política não é feita de fatos isolados.

E isso segue até para o tratamento diferente que os politicos do PSDB têm quando são investigados por casos de corrupção. Uma senhora no vídeo diz que uma boa solução para o Brasil seria o Aécio, "que, pelo menos, rouba mas faz algo pelo país". Sério? Até quando o argumento do Maluf vai ser válido? Ou seja, Lula está sendo INVESTIGADO (perceba) pelo Tripléx e pelo sítio de Atibaia e o Aécio também está sendo INVESTIGADO, mas "ah, o Aécio tudo bem, mas esse Lula, ladrão, fora corruptos!!".

Se você pulou todo o texto, aqui vai um resumo: o problema não é, e infelizmente não é, num partido só. Se fosse, você, eu e todo mundo poderíamos levantar as mãos e agradecer quem quer que fosse. Mas não. Há um sistema político inteiro envolvido num esquema de corrupção que detonou a maior empresa brasileira. Há um sistema político inteiro trebêbado de poder, que faz os bancos lucrarem estratosfericamente, há um sistema político inteiro sem nenhuma fiscalização, e sem isso a democracia não pode e não consegue funcionar. Há um sistema político inteiro que é sujo, e que ri de todos nós quando a gente vai para a rua proteger um lado ou o outro.

Eles estão rindo.

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