Baby Blue

O lugar estava cheio. Muito barulho, todos bebiam em suas pequenas mesas que comportavam no máximo duas pessoas confortavelmente. Mas ninguém liga muito pra conforto quando se bebe absinto, que era sempre o mais pedido.

As velhas cortinas que separavam os pobres plebeus não musicais daqueles últimos defensores dos clássicos blues jazz e folk ainda estavam fechadas. No camarim, os mesmos já citados defensores bebem uísque enquanto evitam se olhar. Pouco se conhecem, sempre se vêem, tocam apenas juntos. Velhos, sozinhos, um pouco deprimidos. Nunca falam sobre isso, é claro. Limitam-se a acordes e sustenidos.

Na porta do pequeno teatro, uma senhora de cabelos brancos e roupa aveludada vermelha, fuma. A função dela seria guardar a porta, garantir uma certa segurança ao digno estabelecimento. O fato de uma velha estar a garantir a segurança escancara a falta de recursos e total decadência deste, admitamos, não tão digno estabelecimento. Tal desamparo financeiro do local, bem conhecido por toda a vizinhança, assegurou que nenhuma tentativa de assalto tenha ocorrido nos último 25 anos, já que, para sobreviver no capitalismo voraz de hoje em dia, criminosos passaram a ter que ser mais eficientes. A velha orgulha-se destes 25 anos, e ignora completamente todo o resto.

Na esquina deserta, meio molhada por uma rápida chuva que caíra minutos antes, e apenas iluminada por um poste fraco, anda um homem. Ele caminha em direção ao teatro, sem porém parecer pertencer a tal lugar. Veste-se bem, terno bem cortado, sapato bem lustrado, um sobretudo que amedronta por seu provável preço, e um chapéu branco. No bolso interno carrega uma pistola, mas não dá pra reparar. Anda calmamente, porém bate os dedos na lateral do sobretudo como se estivesse irritado. De fato está, mas também está aliviado. Finalmente conseguirá concluir um trabalho que tinha demorado anormalmente muito. Não conseguia compreender o porquê levou tanto tempo para autorizarem. Aliás, não podia entender a razão daquele trabalho específico. Ele chega perto da velha e olha para ela sem expressar sentimento algum, enquanto tira do bolso esquerdo do sobretudo um maço de cigarros. “Tem fogo?” Sua voz é grave e rouca. Um forte sotaque britânico evidência sua origem, e de uma certa forma faz o conjunto de sua figura ser muito mais coerente. Alguém como ele só poderia ser britânico. A velha passa a ele um pequeno isqueiro bic. Ele acende o cigarro e o devolve, agradecendo com um sutil sorriso. Apesar de não ser bonito nem simpático, aquele simples meio sorriso causou um efeito caloroso na velha. O motivo é, para ela, impossível de explicar.

Na rua ressoa um som novo. O bater de saltos no asfalto molhado, que torna-se gradativamente mais alto. Dentro do teatro explodem aplausos, mascarando o som dos saltos. O espetáculo está para começar. O homem se vira, joga no chão o cigarro ainda pela metade, e olha para a fonte de tal barulho. Uma mulher, em seus 60 anos, bem vestida como ele, também armada. Não trocam nenhuma palavra, se encaram por precisamente 2 segundos, e se dirigem à porta do teatro. “Ei ei, não dá pra entrar, tá tudo cheio.” O homem olha para a velha, sorri para ela, novamente causando aquele calor estranho, e tira de dentro do sobretudo um pequeno cantil metálico. “Escocês, aproveita. Só vamos lá dentro um minuto.” A velha, guiada por hormônios que há muito já deveriam estar adormecidos e por um alcoolismo incontrolável, sorri timidamente, pega o cantil e se vira, acendendo outro cigarro.

Homem e mulher entram no teatro. A música acabara de começar, é Bob Dylan. O homem olha para a mulher discretamente. “É o pianista.” A mulher não reage. Passam-se 30 segundos sem qualquer palavra ou movimento dela. “Acaba logo, já demoramos muito nisso.” A mulher encosta discretamente a ponta de sua pistola na lateral do corpo do homem, sem desviar os olhos do palco. “C’est une belle chanson”. It’s all over now baby blue. Ele olha para ela, impassível, suspira e sai do teatro, deixando ela sozinha. Na porta, para e olha para o chão molhado refletindo a fraca luz do poste. Consegue sentir a velha olhando para ele como uma adolescente apaixonada. Suspira mais uma vez tirando o maço do bolso. “Me dá mais um pouco do seu fogo, querida.”

A música acaba. A mulher passa os olhos rapidamente pela plateia. “Très belle.”

Do lado de fora ouve-se o tiro. O homem sorri. “Finalmente.”

Não há mais pianista.

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