REFUGO

Faz tempo que eu cadastrei minha conta aqui. Levei um tempão me cadastrando (mentira, loguei direto pelo Facebook), até reparar que nunca havia postado nada e morria de vontade, por achar que esse espaço de edição era maravilhoso e me dava a sensação de postar uma tese.

Bom, hoje então vai se tornar um dia inesquecível para mim: postarei meu primeiro texto, resgatando um dos meus mais sinceros desabafos no embate contra uma folha em branco. E porque também cito minha vó nesse texto.

Era só isso. Boa leitura — ou não.


Capeta mais clássico da net. Meus créditos a quem o criou.

A dificuldade de começar um conto, uma crônica, um ensaio, um artigo ou até mesmo o desabafo é grande. E isso nem é por conta da folha em branco, conforme aqueles milhões de listas de criatividade pintam.

Folhas em branco não são vilãs, tampouco criam obstáculos para uma dificuldade que começa naturalmente e vai, dia após dia, tomando corpo até gerar um curto circuito nos seus neurônios. Bom, eu não sei você, mas eu sou daquele tipo de pessoa que mastiga pensamentos, sonhos e passados mentalmente.

Parte disso é culpa da minha vó. A vida inteira ela passou me olhando sentado largado no sofá sem nenhuma preocupação na vida e proferiu a sentença que iria me assombrar pelo resto da vida:

– Cabeça vazia é a oficina do diabo.

Eu tinha medo do diabo e até hoje tenho. Então, para que ele não comece a produzir tridentes em alta escala dentro da minha cabeça e abra uma multinacional, eu começo a pensar. Mas aí eu junto tudo numa massaroca só. Vai da ex-namorada até os quinze reais que gastei ontem e não devia. Vai da briga que eu não deveria ter entrado até o dia em que eu não deveria ter ficado quieto. E as engrenagens do meu cérebro vão girando, desgastando meus neurônios e criando uma barreira que separa a minha aptidão de escrever merda da folha de papel em branco.

Hoje eu quis fugir à regra e dei uma chance pro demo promover um workshop. Sentei na cadeira na grama e resolvi não pensar em nada. Desliguei meu cérebro da mesma forma que se desliga um aparelho barulhento e que já começa a ameaçar uma pane. Escutei até o barulho do silêncio quando arquivei todos aqueles momentos do passado que eu estava remoendo.

Ah, que alegria que era calar a boca para mim mesmo. Por um momento eu pretendia ficar alheio e perder alguns minutos da vida sem saber se existia. A cada ameaça de pensamento, eu agia por instinto com um tapão na própria cara. Com as bochechas vermelhas e doloridas, já havia conseguido me convencer a guardar tudo para depois, ia apenas observar e respirar.

Vi um menininho passando com camiseta amarela. Ignorei as possíveis histórias de sua vida até então, ignorei também os motivos para ele sorrir tanto em cima de uma bicicleta. Depois, vi uma senhora bem gorda descendo a rua e se equilibrando para não cair. Também ignorei as possíveis causas de seu peso e a alegria de mostrar pro netinho que ainda conseguia se equilibrar contra a gravidade a puxando ladeira abaixo. Ignorei também o cachorro que cheirou as plantas do muro de casa e o motivo pelo qual ele queria brigar com minha poodle no portão. O capiroto deveria estar construindo uma cabana na minha cabeça, mas eu nem conseguia ouvir o barulho das serras, apenas o da minha respiração.

Comecei a perceber que respirava errado e tentei controlar o ritmo, sem pensar nele. Apenas tentando fazê-lo ter sintonia com os batimentos do meu coração. Consegui e sorri sem saber o motivo do porque estava sorrindo. Nem sabia se eu piscava, nem quantos minutos estava ali fora. Eu havia gostado da ideia de tentar ficar sem pensar em nada.

Pouco a pouco eu sentia como se flutuasse.Sentia uma leveza que eu não poderia explicar nem em um zilhão de anos. Era como se eu ignorasse todas as leis da física e voasse milímetros do chão que ainda estava encostado na minha bunda.

A tentação era grande, mas eu tinha que evitar questionar tudo aquilo. Já havia questionado demais tudo, todos e até mesmo as coisas que eu achava que poderiam acontecer e não aconteceram. Fiquei com aquela sensação por mais um tempo que eu não sabia o quanto havia sido.

Respirei fundo e me preparei para formular o primeiro pensamento desde então. Única coisa que me veio à cabeça foi um palavrão, um palavrão que funcionou mais com uma algema se quebrando do que como uma ofensa gratuita ao mundo. Era libertador, mais até do que tentar fugir dos problemas, como eu e várias outras pessoas tentávamos fazer dia após dia.

Eu não conseguia remoer nada, não conseguia questionar nada e também nem sabia se precisava de uma razão para isso. Comecei a pensar na criança, na velha e no cachorro. Comecei a pensar se conseguiria agora passar da folha em branco.

Escrevi sobre as poucas coisas que me preocupei pensar. Deixei a tela do computador desligada e evitei contato com a exposição midiática que as pessoas fazem de si mesmas na internet. Não abri páginas de livros e revistas justamente para não alimentar meu senso crítico com mais opiniões e argumentos.

Precisei me libertar de mim mesmo para poder começar a pensar em mim e formular meus próprios pensamentos. No fim das contas, deixar a cabeça aberta prum demônio qualquer fazer um workshop não foi ruim.

O foda é que eu ainda tenho medo dele, então nem vou tocar mais nesse assunto.

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