Encontros íntimos

por Guilherme Ginane

Um hospital. Minha mãe numa cama, e eu, escutava de um médico que ela teria somente mais seis horas de vida. Ele com todos os termos técnicos me dizia os nomes científicos da doença. Era rara. Os funcionários do hospital que passavam, com suas roupas beges, pareciam se solidarizar comigo. Ela, minha mãe, desacordada, já estava instalada num daqueles quartos com uma cama cheia de aparelhos em volta. Foi um golpe duro. A ansiedade e a tristeza foram brutais. Os minutos iam passando e eu processando aquela situação. Somente seis horas? Como? Olhava para cama e ela lá, deitada junto ao emaranhado de fios, que a cobriam e mediam todos seus níveis, na sua maioria, desconhecidos por mim. Perguntei para uma enfermeira se eu podia me aproximar da cama, ela me disse que sim, mas que eu não poderia ficar lá por muito tempo. Me aproximei de minha mãe e cheirei seus cabelos, ela voltou a vitalidade que sempre me demonstrou. Conversamos um pouco e me afastei. De longe voltei a vê-la de olhos fechados e todos fios que a cobria. Os médicos que passavam queriam me demonstrar alguma esperança em seu caso. Eu sabia que ali já não havia o milagre que eles tentavam me oferecer para eu alimentar minha imaginação. Voltei até a cama dela. Cheirei seu cabelo e novamente conversamos, dessa vez menos por que se aproximou de nós uma enfermeira para colher seu sangue. Mais pessoas tentavam me animar trazendo palavras que supunham uma reversão do triste quadro. Porém, as vezes que me aproximei da cama e consegui conversar com ela, e rir com ela, me deram a paz para saber que aquelas palavras eram para inflar um balão furado.

Sentado em um dos bancos duros da espera do hospital, o médico mais inteirado do caso avisou da possibilidade de ser suspendida a alimentação dela. As seis horas de vida sugeridas por eles na chegada iam se esgotando. De fato a aparência dela era cada vez mais abatida, porém, os sinais vitais continuavam, aos meus olhos, ainda indo bem. Os médicos, que revezavam conforme a especialidade, me traziam notícias que contrastavam de forma gritante com o simples sinais que eu visualizava. Por todo este tempo, eu voltava a cama de minha mãe, pelo menos de vinte em vinte minutos. Sabíamos, eu e ela, que estávamos sujeito a interrupção de um enfermeiro ou um médico, mas os papos rendiam como se falássemos por horas. Ela não demonstrava, em nenhum momento, que estava no fim de sua vida, e eu, surpreendentemente, apagava todo o clima pesado que carregava o quarto do hospital. No meio de um dos papos, eu até perguntei se ela estava com vontade de dormir, e ela me respondeu de forma sacana: « Que dormir é bom quando se está cansado, mas para estar cansado, tem que viver muiiito», rimos juntos, a beijei e me afastei mais uma vez. Voltei a ver a cama coberta de fios e apitos por todos os lados. Me juntei aos médicos a aos visitantes que iam aparecendo aos poucos. De longe, e junto aos outros, eu podia ver a degradação rápida do corpo de minha mãe. O assunto da suspensão da alimentação ficava cada vez mais forte entre nós. A decisão precisava ser tomada. Alguns de minha família tendiam ao não, outros tendiam a faze-la. A palavra final caberia a mim. Pelas idas constantes a sua cama, e depois das conversas descontraídas com ela — que contrastava com a decadência de seu frágil corpo — tendia pela suspensão. O corpo, minuto à minuto se degradava, e a decisão do corte da alimentação foi tomada. A partir daquele instante, saberíamos que a vida do corpo de minha mãe duraria no máximo alguns derradeiros minutos, afinal, o tempo estipulado pelos médicos já havia expirado. Assim que a decisão foi tomada, eu voltei para mais um encontro com ela. Pela constância das idas, cheirar seu cabelo virou a senha de acesso para nossos papos. Ela sempre de bem, com o frescor de que nenhum problema acontecesse ao redor. Pensei em falar para ela sobre a decisão que havia sido tomada minutos antes, mas não falei. Continuamos a falar sobre o passado, o presente e o futuro. Me despedi, disse que daqui há alguns minutos voltaria para um novo papo. Me voltei para as pessoas que cercavam o quarto, até mesmo uma enfermeira negra, cheirosa, que se afeiçoou a nós, tinha lágrimas nos olhos. Os sinais vitais, que agora nem meus olhos os viam indo bem, rapidamente começaram a mudar. Os médicos já haviam avisado que o procedimento da suspensão da alimentação faria com que seu corpo se debilitasse ainda mais rápido. A tristeza que cercavam a todos me tomou e também me fez chorar. Voltei próximo ao leito de minha mãe para ver se espantava esse sentimento. Cheirei seu cabelo, e logo vi seus olhos azuis, bem abertos, me reparando como em plena juventude. Antes que eu falasse qualquer coisa, ela me perguntou se a lágrima que eu trazia no rosto era salgada. Rimos, e mais um encontro onde a alegria crescia diante da tristeza que cercava aquela cama enfiarada. Beija-a na testa e voltei ao encontro de todos. Os números iam zerando, os barulhos cessando e o corpo se despedindo. O médico veio anúnciar o óbito. Todos os familiares se abraçavam, trocávamos parte de nossos corpos para nos tornamos um ser único e forte para aguentar tanta dor. Voltei a beira da cama, os cabos já estavam desligados mas o cabelo se mantinha macio e cheiroso. Cheire-os, e ela da mesma maneira atenta, me olhou esoltou um palavrão. Falamos sobre suas cachorras, e eu, falei sem que ela entendesse bem, dos meus projetos futuros. Ela estava sonolenta, afinal, desde a hora que começamos nossos encontros ela não havia descansado uma só vez. Eu também estava cansado. Retornei, agora para ante-sala que juntava algumas pessoas que vinham sabendo do que tinha ocorrido. Precisava cuidar da parte prática, compra do caixão, contato com a funerária, cemitério, etc. O responsável pela remoção do corpo chegou no hospital uma hora depois do óbito. Se apresentou a mim, sua mão era só calos. Da ante-sala que estávamos vi que colocaram o corpo de minha mãe no chão, devia ser para melhor apoia la na remoção. Saí de lá, fui até a casa dela para pegar os documentos que o cemitério exigia. Quando entrei no seu quarto, estava lá o travesseiro ainda amassado pelos cabelos macios e cheirosos. Fui até ele e o cheirei, usei-o como senha para continuar nossos encontros. Batia uma brisa fresca e uma luz alaranjada de final de tarde iluminava todo o quarto. Minha mãe tinha o olhar macio, acordara do sono que tinha começado há algumas horas atrás. Um pássaro tentou entrar entre a pequena fresta aberta da janela, olhamos juntos, ela abriu um pequeno sorriso. Falamos pouco, e eu disse que tinha de ir cuidar das coisas do enterro dela. Foi quando ela falou exaltada: « puta que pariu! que merda, heim? vai lá e não deixa de se alimentar! » rimos juntos e eu sai. Todo o processo foi muito cansativo e triste. Papéis, lágrimas, abraços. Os dias iam passando eu me acostumando com a nova situação. Os amigos, poucos, mas sem fim, foram fundamentais.

Passado poucos meses, fui à uma cafeteria próxima de casa. Eram cinco da tarde. Pedi um café e resolvi pegar uma cocada para adoça-lo. Na primeira mordida, percebi que seu sabor me serviu como senha para os encontros que mantive com minha mãe nas suas últimas horas de vida. Ela, ao meu lado, me xingou e perguntou porque eu não apareci mais, eu disse que não imaginaria de encontra-la numa cocada! Ela de pronto me repondeu: « onde eu estaria, porra?! » rimos e conversamos, falei de como estavam sendo tristes meus últimos dias, e ela disse que tudo era uma grande frescura. A partir daí as senhas para nossos encontros foram se espalhando, e nesse ano que passou venho à encontrando frequentemente, em músicas, cores de finais de tarde, cheiros, etc. Mas nunca fui ao cemitério visita-la.

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