findada a simbiose
a ausência do hospedeiro é intolerável
o parasita morreu
Entreabre os olhos. Você se perde confuso ao retomar a consciência. Morrer foi real. Não és Lázaro mas és vivo.
Sente frio, está nú. Você toca o próprio corpo pra se esquentar. A sensação do toque em algo molhado é desconfortável. Tateia em busca do outro braço e não encontra. Faltam pedaços. Seu corpo está partido, o que resta é ao mesmo tempo líquido e sólido. Se esforça pra lembrar o que aconteceu, mas as lembranças que deseja não vem, e aquelas que vem são parciais. Assim como seu corpo seus pensamentos e lembranças também estão partidos.
É assustador. Se assusta.
Você grita. Sente náusea.
Você vomita.
Quem é esse em pedaços? Quem é esse desconhecido?
Caminha até o espelho. No reflexo se lembra de si como foi e se reconhece intacto, como era antes. O toque não mente e revela a falta. Pode o funcionamento do espelho quebrar, antes mesmo de quebrar-se o vidro? Se sente vazio. Sente o vazio. Fica pequeno diante de tanto vazio. É esmagador. Assombroso.
Medo.
Tem vontade de ser o reflexo. Tenta lembrar onde ficaram os outros pedaços para poder se refazer. Em seguida esquece do que pensou.
Parasita-Lázaro se deslumbra com as possibilidades da incompletude. Sorri.
Imprudente, você tenta correr, tropeça e se machuca. Sente náusea, vomita. Esqueceu como se controla o próprio corpo.
- Que seja então. Desatai-me e deixai-me vir.
transborda.