revoltar (10)

(sequência de reviver)

Chão macio, sol e lua dividindo o céu, vida e arte em todo lado, a música em nuances, cada fruto como mel. Você caminha sem pensar em destino, sem pensar em um final, satisfeito apenas por estar em tão deslumbrante paraíso, sozinho. Cansado, encosta numa pedra e admira embevecido as belezas de si.

Sentado ali reflete pelo que parecem dias e só é interrompido por incômodos: O ar fica pesado e o chão duro e gelado. Nota então a ausência de som e que todo resto ficou cinza. Anda em busca da cor mas é em vão, tudo se esvaziou de sentido, correu pelo rio.

De repente um som enche os seus ouvidos, você o segue, é como se soletrasse o seu nome, você pode até sentir o cheiro.
Olha para o alto e vê a beira do abismo.
Na base da montanha a origem do som: Uma locomotiva a vapor postada na vertical. Ao olha-la você distingue o cheiro forte — o perfume da realidade. Seus trilhos seguem também na vertical, para além da beira do abismo, para um negrume que se fosse real seria o céu. Soprou nuvens de uma fumaça branca que cegava no meio do cinza, era seu convite. Olha pra trás e vê tudo como era, lindo e atraente como antes, mas não tanto quanto o cheiro do som da locomotiva. Você guarda o fundo do abismo no bolso da camisa e sobe a bordo. De imediato é engolido pela caldeira — vira brasa — vira fumaça — abraça a locomotiva — Abre os olhos.

Pela janela vê anúncios partidários que o seguirão em seus pensamentos aonde quer que vá. Levanta e salta do ônibus.

Bom estar de volta.
Saudade.