Uma música, mil lembranças

Eu tinha 13 ou 14 anos. Ela também.

Ela gostava muito de Keane. E James Blunt. Mas mais de Keane, do tipo que amava o Tom Chaplin mais do que tudo, que ouvia os discos da banda em looping, que não falava de outra coisa quando nos víamos. Talvez porque eu também gostava de Keane. Na real, como qualquer adolescente que estava descobrindo seu gosto musical, ouvia de tudo um pouco e começava a entrar na seara do pop britânico.

Toda vez que ouvia qualquer música deles, lembrava dela. Toda vez que ouço uma música deles, ainda lembro. Hoje não passa de uma lembrança vaga, de uma época mais simples. Reouvir essa linda versão da Lily Allen me fez lembrar dela também, e de como o que a gente sente passa, muda.

Durante uns seis anos, mesmo afastados, ainda gostava dela. Um pouco, no mínimo. Muito, em alguns momentos desse período. Nos reaproximamos, conversávamos com uma certa frequência, e é como se aquela paixonite adolescente ainda existisse dentro de mim. Um pouco mais forte, apesar dos claros indícios de que nada disso era correspondido.

Em um certo momento, aquilo começou a me consumir. Eu nunca tinha falado pra ela sobre o que sentia, até aquele dia. De um jeito absurdamente travado, contei pra ela que gostava do jeito dela. De como ela se preocupava com os outros, de como era engraçada. E nessa hora eu via os olhos dela brilhar. Anos depois, ela jura que não eram lágrimas. Mas à luz daquela escada, pareciam. E ainda quero acreditar que eram.

Ela agradeceu pelas minhas palavras, e da forma mais educada do mundo, disse que não sentia o mesmo. Que na real, nunca sentiu. Que não se imaginava num relacionamento com ninguém, nem naquele momento, nem por muito tempo. E que em alguns momentos em todo esse tempo, ela percebeu o meu jeito. Como eu sempre me aproximava um pouquinho mais dela do que o de costume.

Naquela noite, conversamos por umas duas horas sobre a vida, sobre futuro, sobre tudo. Ao sair da casa dela, senti que estávamos mais próximos, mesmo que definitivamente amigos.

Não foi tão difícil. Até hoje nos falamos vez ou outra, nos vemos por aí. O namorado/quase noivo dela é um cara ótimo, que eu já conhecia há também muito tempo.

Hoje vejo que somos duas pessoas com muito pouco em comum, cujas personalidades se confrontariam de uma forma insuportável com bem pouco tempo. Que aquele “fora” foi a melhor coisa que poderia acontecer, por mim e por ela.

Ainda assim, lembro dela toda vez que escuto essa música. Lembro de como era ser adolescente e achar que qualquer dor que sentisse significaria o fim do mundo. De como era sentir aquele nervoso toda vez que passava por ela na rua. Lembrar disso tudo não é ruim. Definitivamente, seria pior não conseguir lembrar.