A redenção do capitalismo e a reinvenção da esquerda pela adoção dos programas de Renda Mínima

Discussão a respeito dos benefícios da intersecção entre esquerda e direita

Guilherme de Mello
Jul 24, 2017 · 3 min read

Por Guilherme Mello*

Às vezes, problemas complexos pedem por soluções simples. Decerto, não há problema mais complexo para o capitalismo do que a erradicação da pobreza. Em seu livro “Utopia para Realistas”, o historiador holandês Rutger Bregman faz uma constatação um tanto quanto óbvia: “pobreza é apenas falta de dinheiro”. Ora, então, dê aos pobres dinheiro. A solução simples, no entanto, não significa que seja de fácil aplicação, pois passa por uma mudança na ideia de Estado.

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A ideia não é nova. Foi apresentada pelo economista liberal Milton Friedman, em seu volume “Capitalismo e Liberdade”, de 1962. Dar simplesmente dinheiro para todo cidadão, mensalmente, independente da classe social, era considerado pela esquerda mundial uma solução paternalista — uma “bolsa esmola”[1]. No Brasil, apenas o então senador Eduardo Suplicy (PT) abraçou a ideia, tornando-a o projeto de sua vida. A obviedade da solução estampa a capa de seu livro sobre o assunto: “Renda de Cidadania: a saída é pela porta”.

Em 1991, o projeto foi aprovado no Senado e, em 2004, a Lei 10.835, que instituiria a Renda Mínima de Cidadania, progressivamente, era sancionada. Entretanto, o projeto que visava ampliar e aperfeiçoar o bem-sucedido Bolsa Família foi ignorado pelos onze anos seguintes. Durante o governo Dilma Rousseff, Suplicy foi por diversas vezes ignorado, inclusive quando foi visitá-la com um buquê de flores. Dilma teria outras prioridades, alegavam. Na mesma semana, a presidente havia recebido, por três ocasiões, o empresário Marcelo Odebrecht.[2]

Hoje, o pequeno município de Maricá, no Rio de Janeiro, é o maior laboratório da política no Brasil. Em 2015, o então prefeito Washington Quaquá (PT) anunciou que todos os habitantes do município residentes por mais de um ano receberiam R$10 por mês. As famílias mais pobres receberiam R$ 85. Um início modesto. Em São Paulo, a ONG ReCivitas começou a administrar a renda mínima de R$ 30, por conta própria, em Quantinga Velho, uma pequena vila de 100 habitantes. “O programa tem a capacidade de ‘mudar os sonhos’ das pessoas da comunidade, garantindo-lhes uma certa segurança e oferecendo a capacidade de investir no futuro ao invés de viverem de um orçamento incerto”, conta Marcus Brancaglione, diretor da ReCivitas.

Em todo mundo, a Renda Mínima já está sendo discutida. No Canadá, a província de Ontário começará, em março, um projeto piloto para todos os seus cidadãos. Nos Estados Unidos, desde 1982, o Alasca já aplica um elogiado programa semelhante. Na Finlândia, o programa começará esse ano com dois mil finlandeses recebendo o equivalente a quase R$ 2 mil. A Holanda também já tem planos para municípios menores, com benefícios que chegam aos R$ 4 mil! Na França, a Renda Mínima apareceu nos planos do candidato socialista à presidência Benoit Hamon.

A medida é evidentemente utópica. Mas talvez um dia venha a ser “a conquista mais importante do capitalismo”, como defende Bregman. E os resultados colhidos do Bolsa Família indicam que o caminho para se erradicar a pobreza é mais simples do que se imagina e agrega o que há de melhor na direita liberal e na esquerda socialista.

*Guilherme Mello é bacharelando de Jornalismo nas Faculdades Integradas Hélio Alonso, FACHA

[1] O neoliberal Bolsa Família http://assessoria.vrc.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=34329&sid=89

[2] Nem “mago” faz Dilma receber Suplicy http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/nem-%E2%80%9Cmago%E2%80%9D-faz-dilma-receber-suplicy/

Guilherme de Mello

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Jornalista, pós-graduando no Iesp-Uerj e na FGV-Rio. Gostaria de ter mais uma ou duas horas por dia, mas está preso às 24h de sempre.

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