Discussão virtual, ódio real: o conflito entre personalidades e o novo real

Não há nada de novo no front das relações humanas

Guilherme de Mello
Jul 23, 2017 · 2 min read

Por Guilherme Mello*

No clássico desenho Disney “Motor Mania”, de 1950, a audiência é apresentada ao senhor Walker, um típico homem de família dos anos cinquenta americano, casado com uma típica mulher, que provavelmente é autoridade em torta de maçã. O senhor Walker seria incapaz de machucar uma mosca, conta o narrador. Porém, uma vez dentro do seu carro, o senhor Walker é afetado por um estranho fenômeno e possuído por uma esmagadora sensação de poder, toda a sua personalidade muda, o senhor Walker agora é senhor Wheeler, um monstro incontrolável ao volante.

Instagram @mr.babies

Se o clássico desenho animado da Disney fosse feito nos dias de hoje, o senhor Wheeler não precisaria estar atrás do volante para se manifestar, as redes sociais apresentam-se como uma válvula de escape muito mais eficaz e segura para seus usuários destilarem seu ódio irracional. Há, porém, um agravante no que tange à esfera pública quando este ódio contamina o que os gregos clássicos chamariam de ágora virtual, a partir do conceito de ciberespaço de Pierre Lévy. Em tempos de crise política, ética e econômica, dosadas às noções tribais contemporâneas e de pertencimento político-ideológico, exercer a democracia através de um debate proveitoso na internet pode se tornar uma tarefa das mais árduas.

Este não é um fenômeno brasileiro, não nasce das raízes futebolísticas e tampouco é fomentado pela grande mídia. Acreditar nisso é esquecer-se das confusões retratadas em “Apologia a Sócrates”, de Platão, o conceito de banalidade do mal, apresentado em “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, ou mesmo dos argumentos pertinentes de “O Mal estar na Civilização”, de Sigmund Freud. Nos Estados Unidos, o fenômeno é semelhante, porém, ainda de mais baixo nível: Hillary Clinton, candidata democrata à presidência derrotada por Donald Trump, é conhecida como o “diabo em pessoa” pelas redes sociais do Tea Party republicano.

Atribuir culpa às redes sociais também é um erro. O mundo real acontece na caixa de comentários de notícias polêmicas. O problema talvez se encontre na falta consciência comunitária e empatia com o outro que lhe é estranho. Como escrevera o professor Barry Brownstein para o Foundation for Economic Education (FEE), “interagir no modo ‘eu te vejo’, demonstramos respeito autêntico pela humanidade singular do outro. Quando interagimos através do modo ‘eu estereotipo você’, vê-se o outro como “algo” categorizável em vez de se reconhecer a humanidade”. O antigo mundo real, onde se vê o outro como um igual, limita-se apenas a uma ilusão de convivência, onde molestadores são galãs de novela e senhor Wheeler é senhor Walker.

*Guilherme Mello é bacharelando de Jornalismo nas Faculdades Integradas Hélio Alonso, FACHA

Guilherme de Mello

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Jornalista, pós-graduando no Iesp-Uerj e na FGV-Rio. Gostaria de ter mais uma ou duas horas por dia, mas está preso às 24h de sempre.

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