Esse tempos

Começou devagar. Quase parando. Mas cresceu e se apoderou dele.

Ele ouvia muitas pessoas comentarem. ‘’É incrível, indescritível!’’, ‘’A melhor coisa que já inventaram, vale a pena demais testar!’’, ‘’Tô totalmente viciado e não pretendo parar!’’, ‘’Isso é pior que crack.’’; mas ele ignorava. Nunca gostou de modismo, e sua vida parecia completa sem a tal fórmula mágica da felicidade.

Acontece que, num desses dias, ansiando por ter uma sensação que não sentia há tempos, e estando afundado no sofá passando os canais um por um, sem encontrar nada que valesse a pena assistir, começou a refletir se valia a pena entrar no submundo dos viciados. ‘’Talvez seja uma boa, sabe, ter o controle total e tal…’’, dizia para si mesmo.

Acontece que a grana estava curta, e a carteira leve, sem nada dentro. Decidiu fazer uma pesquisa sobre os prós e contras no maior oráculo moderno da história, o Google. Jogou as palavras na barra de busca e assim que surgiram, os resultados o surpreenderam. Ser o dono da sua própria vida nunca fora tão barato, pouco mais de vinte reais. E era possível fazer a compra pela internet. Não se ateve. Sacou o cartão como uma lâmina afiada, leu os números e os transcreveu pelo teclado. Pronto, estava feito. Ansioso por saber como funcionava e quais eram os efeitos no organismo do indivíduo, resolveu testar a aquisição na hora mesmo.

Foi para a sala, ligou a TV, entrou com o login e a senha e esperou. ‘’Acho que vai valer a pena’’. No fundo da sala, aonde estava o aparelho, surgiram, com a cor negra ao fundo, as letras vermelhas: Netflix. Pronto. Ele estava frente e frente com a droga virtual mais poderosa do dias atuais. ‘’Caralho! Tem muita coisa pra assistir! Vou ficar o dia inteiro aqui’’. Dito e feito, ficou. Só não passou a semana toda vidrado na tela porque tinha de trabalhar.

Uma semana depois, logo após contar para um de seus amigos que tinha saído da obscuridade da TV paga e entrado no reino emancipação audiovisual, no qual o general ele, já que podia escolher assistir o que quisesse quando bem entendesse, este lhe perguntou: e aí, valeu a pena assinar?

Sem pestanejar, ele respondeu: Demais, tô totalmente viciado!

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