Meurlboro

Fumante inveterado há mais de 40 anos, Cristóvão se embebia de cigarros todos os dias. Toda manhã, desde os 20 anos, seguia religiosamente o mesmo ritual: acordar, lavar o rosto, escovar os dentes, se vestir e ir na padaria, antes de se dirigir para a obra(onde era mestre de obras dos mais habilidosos), para comprar cigarros. Marlboro era o seu companheiro inseparável desde que se lembrava. A lealdade à marca era mais forte que o seu amor por Irene, sua esposa.

Não se cansava de apreciar os pequenos bastonetes que vinham intocavelmente dispostos dentro do maço. Adorava a logo, o finalzinho alaranjado do cigarro, o maço vermelho e, surpreendentemente, o cheiro. ‘’Agora, antes de você me matar, sô eu qui vô te enterrar. Tenha uma morte nobre, amigo’’, dizia sempre antes de terminar o último cigarrinho do maço. Apesar de todas as contraindicações e avisos, nunca se importara com as consequências nefastas que seus pequenos camaradas poderiam lhe causar. Não é para menos, já que nunca tivera nenhum problema relacionado ao seu tabagismo.

Aquela seria mais uma manhã como todas as outras. Depois de se preparar, dirigiu-se à padaria. Deu bom dia, escolheu a dedo o maço rubro e, se preparando para pagar, tomou um verdadeiro susto. Tinham arruinado o maço do qual tão gostava.

— Que porra é essa, Joana? — disse indagando, de maneira indignada, a atendente

— Ô seu Cristóvão, agora os maços vêm assim.

— Ahn? TODOS?

— Sim, todos.

— Meu deus do céu, quem foi o idiota que tramô essa bobagi?

— Foi o Ministério da Saúde, senhor.

— Quem é esse paspalho? Não gostei do que ele fez.

— Na verdade é um órgão do governo, senhor.

— Sabia! Tinha que ser esse bando de político safado que só quer sabê de robá e mexer com o povo.

— Calma, seu Cristóvão! Infelizmente não tem o que fazer, todos os maços de todas as marcas estão vindo assim.

Não se conteve. Pulou a bancada e começou a mexer insaciavelmente em todas as caixinhas que pôde. Lucky Strike, Derby, Vogue, Dunhill, Camel. Todos continham o sinistro selo negro: ‘’Este produto causa câncer. Pare de fumar. Disque Saúde, 136. Ouvidoria geral do SUS, www.saude.gov.br’’.

— Bando de fi da puta! Todo dia eu já sei qui qui o cigarro faiz, caraio. É só lê atrás do maço, bando de jacu! Inda estragaram o maço do meu Marlborinho, tão bonito e vistoso.

— Seu Cristóvão!

Não deu tempo. O homem, ensandecido pela arbitrária atitude do Ministério da Saúde, acabou tombando. O coração, tão forte depois de tantos baques, não aguentou aquele atentado contra a única coisa pela qual seu Cristóvão tinha um apreço enorme: o design minimalista e extremamente elegante do seu querido Marlboro. Foi ao chão. ‘’Chamem uma ambulância!’’, gritou a moça atrás do balcão.

No caminho pro hospital, preso à maca da ambulância em decorrência de um princípio de enfarto, Cristóvão não pensou duas vezes: tirou o cigarro reserva que sempre guardava no bolso da camisa(era um recurso de desespero, usado sempre em situações severas de abstinência), acendeu o pequeno dentro do automóvel e deu uma tragada profunda. Antes que qualquer enfermeiro pudesse impedi-lo, deu mais uma tragada e, olhando pro cigarrinho, disse: desculpa por tudo, não te largo por nada.

Estava feliz.

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