Sobre nosso Futuro

Os humanos tem a capacidade de fazer uma coisa que nenhuma outra espécie têm: criamos histórias/mitos/religiões que nos descolam da realidade objetiva externa às nossas mentes. Dinheiro, cristianismo, capitalismo, comunismo, país/nação, essas são histórias que escolhemos viver e que nada têm a ver com a realidade objetiva dos animais, florestas, montanhas e mares (apesar de hoje influenciá-los profundamente).

O dinheiro não tem valor objetivo. Aquela nota sozinha não te alimenta, não te mantém quente nem te traz segurança. Ela é uma história que adquire valor na medida em que outros humanos acreditam nela também. Uma montanha é uma montanha, uma floresta é uma floresta, qualquer animal pode identificar. Direitos humanos? Países? Isso tudo só existe porque criamos esses mitos e cremos neles juntos, pois não há nada biológico ou físico que os definam naturalmente.

Essas histórias são cruciais para que possamos cooperar com grande maleabilidade e escala, dão sentido à nossa vida e em muitos aspectos explicam como conseguimos chegar onde chegamos como espécie.

A maleabilidade da nossa cooperação nos diferencia das abelhas e formigas. Elas também cooperam em escala mas numa ordem que não muda rapidamente. No formigueiro não há revolução das formigas para mudar sua organização em um curto espaço de tempo e em nome de um ideal. Elas estão aí há tempos adaptando o que fazem e assim continuarão, mas isso não mudará em 50, 100 ou 200 anos. Nós mudamos. É só notar o papel do estado e mercado que nos últimos 200 anos transformaram totalmente o papel da família e comunidade nas nossas vidas.

O mesmo se aplica à escala. Chimpanzés se relacionam de maneira complexa e com quem conhecem, mas se surge um chimpanzé do outro canto do mundo, ele precisa viver intensamente numa comunidade para fazer parte dela. Eu chego num país desconhecido e meu dinheiro é aceito na hora por uma pessoa que nunca me viu e nunca me verá novamente.

Após a invenção e adoção de cada mito, podemos conviver com quem não conhecemos mas que compartilha dele também em um tempo relativamente rápido.

Os mitos de hoje

Me parece que os mitos mais relevantes de hoje são o dinheiro, as nações, o mercado e o capitalismo. São essas as nossas religiões. É importante reconhecer que elas são fruto de um complexo processo histórico (quem criou o capitalismo não foi o Warren Buffet e tampouco Obama criou as nações) e que suas definições variam (não investi tempo aqui nas definições, prefiro arriscar o desalinhamento a tornar o texto ainda maior).

Recentemente me pus a estudar sobre esses +/- 70.000 anos da história dos Homo Sapiens para entender como os mitos sucederam uns aos outros e ter um entendimento mais profundo do que se passa hoje.

Estudando nossa história aprendi que possivelmente não somos os Homos (nossa espécie) mais Sapiens (sábios) que existiram, que até hoje vivemos as conseqüências demográficas da invenção da agricultura, que na maior parte da nossa história vivemos sem crescimento econômico, que as mulheres entraram no mercado de trabalho graças à indústria alimentícia e guerra, e que os estados nações são relativamente novos.

Não sou contra nações, democracia, dinheiro ou outras religiões mencionadas. Me parece que cada religião encontra-se num estágio de relevância diferente para o que estamos vivendo hoje. Reconheço o valor dos textos que tratamos como sagrados e que fundamentam essas religiões, como a Bíblia, Vedas, a Riqueza das nações e Das capital, mas percebo que eles têm limitações importantes na hora de responder às nossas questões contemporâneas, embora tragam muita sabedoria. Quando esses livros foram escritos, não estávamos em eminência de colapso ecossistêmico com risco de nos eliminar como espécie, tampouco estávamos agindo como Deuses, criando plantas, animais e pesquisando formas viáveis de nos tornarmos ciborgues amortais. Nessas épocas não tínhamos armas nucleares para nos extinguirmos em 24h e nem tecnologia ou a própria ideologia de indivíduo que permitiria que centenas de milhares fossem às ruas transformar suas realidades.

Escrevo esse texto porque sinto que estamos carentes de mitos contemporâneos para nortear nosso futuro e quero compartilhar isso com o mundo como um convite para diálogo.

Historicamente muitas vezes os próprios mitos nutriram o nascimento das alternativas que os substituíram. Ao visar expansão rápida, os impérios usaram financiamento privado e perderam poder na medida em que esses investidores escolheram outras alternativas de organização social, foram as guerras que nos motivaram a criar armas nucleares que nos impedem há 70 anos de entrar numa guerra global.

É claro, nada é tão simples nem determinístico. Não é impossível que ocorra uma guerra nuclear mundial amanhã e é importante ressaltar tanto a complexidade dos movimentos históricos quanto minha ignorância sobre o tema, de qualquer maneira se o leitor entender que isso é uma simplificação para caber num texto relativamente pequeno de um curioso em busca de mais conhecimento, podemos continuar navegando.

O que acontece é que eu sinto falta de um mito que me represente.

Qual a nossa ideia de Brasil? Proteja a você e quem você ama e que se f*** o resto? Até mesmo os EUA que teoricamente tem uma ideologia tão clara e inspiradora… não é claro que o sonho americano não só não está sendo vivido como é defasado?

Qual a nossa ideia de humanidade? Escravizem os animais e usem o máximo da “natureza” (como se não fôssemos parte dela), mas não o bastante para comprometer a produtividade das plantações/criações que nos nutrem?

Qual a nossa ideia de mundo? …

Me parece que para a maioria de nós existe um vácuo, estamos no piloto automático, fechando o olho para possibilidades inéditas e também as poderosas e silenciosas alternativas contemporâneas que tem surgido.

Os mitos de amanhã

Há décadas somos ciborgues. Minha avó tem marca-passo, um computador que a mantém viva. Essa é uma valiosa contribuição da medicina.

Existe algum limite para essa evolução da medicina ou tudo o que vier é lucro? Já temos braços e olhos mecânicos, em breve cérebros melhorados geneticamente e, por que não, conectados? Estamos reinventando o que quer dizer ser humano, mas não só nessa dimensão de acoplar computadores e mudar nossa própria genética. Em algum tempo é bem possível que alguns poderão viver para sempre, “curar a morte”. Seremos Deuses?

Quais os impactos políticos, sociais e econômicos disso? Tudo isso em nome de quê? Repare, não sou contra esses avanços, adoro ter a companhia da minha avó e da possibilidade de cegos enxergarem, mas gostaria de conversar mais sobre isso. Tiramos a figura de Deus do pedestal e botamos a ciência há alguns séculos atrás, tanto aceitando nossa ignorância com relação a como o mundo funciona, como também desafiando o nosso intelecto para criar o inédito como nunca. Quais os impactos que isso tem no nosso entendimento da nossa razão de viver? Por que existimos?

Quais as crenças que criaremos e que trarão bem estar individual e em escala?

Pelo que tenho lido, assim como na invenção da agricultura, esse mito bio-tech que vemos emergir beneficiará a raça humana (ou sei lá qual nome vamos dar a nós) no sentido de fazê-la prosperar por mais tempo na terra, mas talvez não beneficie os indivíduos contemporâneos à sua chegada (nós e nossos filhos), especialmente acompanhada da quarta revolução industrial, quando a maioria de nós será inútil economicamente.

Quem leu o livro “Sapiens” sabe que a linguagem desse texto tem como base o livro em si, que mexeu muito comigo. Ele foi minha leitura mais recente e complementa bem o que tenho estudado nesses últimos anos com John Croft, Michel Bauwens, Charles Eisenstein, Yochai Benkler e tantos outros que tive o privilégio de conhecer e trocar umas ideias.

Criei para mim (temporariamente) o mito de que serei feliz na medida em que criar harmonia e paz dentro de mim e transbordar isso à minha volta, respeitando meus corpos, meu ritmo, minha vida. Em poucas palavras, esse seria a religião “todos somos umismo”.

Há alguns anos tenho vivido a transição pra essa visão de mundo. Como consequência disso, mudei meus hábitos alimentares, meus amigos, meu trabalho, como me relaciono com minha família, minha namorada, com quem mora comigo e mais importante, comigo mesmo. Sou bem mais feliz hoje do que era há anos quando acreditava no ser-racional-competitivo-individualista e outros mitos que considero defasados para o mundo que vivemos. Esse mito lembra (embora não seja ctrl c ctrl v) com o budista, o da “espiritualidade” em geral, o que vive-se na Schumacher College, Piracanga, visão de mundo de muitas culturas indígenas e outros lugares onde nutri meu Ser.

Apesar de estar feliz comigo mesmo, me preocupo bastante com o olhar coletivo que me transborda, sendo co-depende de mim (afinal faço parte dele e da sua formação) e que obviamente me afeta profundamente pois molda os sistemas políticos, econômicos, sociais e outros dos quais participo.

Vivo numa bolha de bem estar sabendo que ela não está isolada do mundo e que não é um reflexo da sociedade como um todo. Gostaria que mitos que incluam mais a ideia da humanidade como um coletivo e o mundo como um organismo vivo ganhassem escala. Percebo que existem ainda mitos passados sendo vividos com estupros grupais, estados podres e falidos e grupos religiosos decapitando gente. Isso é real, confronta minha visão de mundo e suga muito da nossa atenção. Sinto que é importante cuidarmos disso, mas que é importante também ir além! Esse mito que emerge no vale do silício, por exemplo, deve influenciar muito as nossas vidas e da humanidade em geral. Apesar de silenciosos, me parecem muito mais poderosos do que esses antiquados xenofóbicos ou machistas que vemos por aí (apesar de gerarem muito menos dor no nosso dia a dia).

As tecnologias sendo criadas são, no mínimo, muito interessantes! O que me preocupa são as questões proprietárias, econômicas e políticas que se desenrolam. Quem terá acesso a isso? Se nós viveremos até os 120, e há tecnologia para viver 600, quem tem acesso a ela? Como isso impacta a democracia e nossas liberdades? Se podemos “melhorar” um cérebro 500 vezes, quem poderá te-los?

É importante ter em mente que durante a revolução industrial muitos seres humanos eram necessários para apertar parafusos e invadir o país vizinho com um rifle, mas com a automatização de tudo, desenvolvimento de insetos drones e etc, nossos sistemas sócio-político-economicos trabalharão sob premissas fundamentalmente diferentes das que as conceberam e com as quais trabalhou (mesmo que só teoricamente) em toda sua história.

Se não criarmos outros mitos, poderemos ter uma sociedade não só desigual economicamente, mas desigual biologicamente também (entre tantas outras coisas que não consigo ver e nomear). Isso é inédito e me dá arrepios.

Que mitos queremos para nosso futuro?

Se o “capitalismo” (cuja idéia me parece algo diferente do que vemos hoje e se diz capitalista) ou a leitura de que teríamos uma natureza competitiva-racional-individualista é que vai guiar nosso futuro, não me parece que o horizonte é muito promissor. Fico curioso para saber que outros mitos podemos criar que são mais adequados à nossa realidade, que ressoam dentro de nós e com conhecimentos científicos recentes que desenvolvemos? Vou chutar umas ideias aqui para botar a bola pra jogo, por favor me ajudem!

Podemos inventar a história da “Aldeia Global”. Uma ecovila com mecanismos de governança distribuídos, que na medida em que desenvolver essas bio-tecnológicas em domínio público/comum (diferente de ser público, do governo) deixa a nossa população cair (muitos de nós morrerá naturalmente) e aí tornamo-nos TODOS amortais. Viveremos todos 500, 600, 1.000 anos, acumulando conhecimento, empatia, sabedoria, nos conhecendo e baixando vertiginosamente nossa taxa de natalidade. Todo filho é filho dessa aldeia e cuidamos deles como nossos próprios.

Podemos inventar a crença do “Ser Único”. Conectaremos todos os nossos cérebros num cérebro só, onde suas memórias são minhas memórias, seus conhecimentos são meus também. Criaremos então esse ser único, que soma todos os humanos e que tem diferentes corpos andando por aí como se fossem apenas mais braços do mesmo organismo.

Podemos inventar a religião do “Ciclismo”. Nela, morrer é importante, pois respeita os ciclos da vida e da natureza, então vamos botar um máximo de tempo de vida de 300 anos para cada um (a não ser que algum acidente te leve antes) e aí você sabe que quando a sua hora chegar, você estará dando lugar a outro ser para desfrutar dessa experiência maravilhosa que é a vida. É seu último ato de bondade na terra. No seu último dia você terá a saúde de um jovem de 18 anos hoje e durante uma festa, celebrará sua memória e vai dessa para melhor com quem te ama ao seu lado, dando boas vindas também a quem chega para te suceder aqui na terra.

Não sei que outras histórias podemos inventar, mas penso que se continuarmos dando vista grossa não só às mudanças climáticas, como também às consequências da atual evolução tecnológica, que nos últimos 100 anos, a cada dia, nos proporcionou quase 10 horas a mais de vida (em média, não consegui fazer a conta desconsiderando mortalidade infantil), temos uma perspectiva de futuro muito incerta, aberta, e desconversada.

Sinto que as discussões antigas de esquerda e direita, governo ou mercado, por ex., respondem a perguntas antigas, e enquanto nos distraímos com elas, emerge um novo mundo sem que falemos dele.

Ao contrário do que aprendi na minha educação newtoniana-cartesiana-simplista, entendo que os processos de mudança não são barulhentos, nem vão aparecer nas capas de jornal. Não será um grande acontecimento, uma agenda clara, com planejamento de longo prazo, um herói ou uma nova ideologia que vem com mais força do que a atual e que vai substituí-la. São as ações de cada dia, cada decisão de cada indivíduo que num processo híper complexo e imprevisível definem como estaremos lá na frente. Nada do que falo aqui são previsões, mas variações de muitas possibilidades. Cabe a nós empoderarmo-nos desse diálogo e vivermos uma nova agenda com o que queremos lá na frente, hoje. Isso implica, e muito, na sua e na minha escolha de trabalho, de consumo, de conversa.

Concluo voltando à minha posição mais adequada, que é a posição de curioso-aprendiz. Gostaria de saber o que vocês tem visto como respostas possíveis ou melhores perguntas a serem feitas.

Que outros paradigmas emergem em paralelo e que propõem outra visão de mundo? Que novas crenças criaremos? Me parece que o paradigma do bem comum (commons em inglês) (não confundir com comunismo), cultura livre/open source e P2P vem de alguma maneira respondendo às nossas crises e a essa emergência da classe biologicamente diferenciada utilizando nossas ferramentas mais modernas de uma maneira que não é retrógrada na sua linguagem, tampouco desumana na sua abordagem, sendo inclusiva e atual, apesar de ter um zilhão de poréns e limitações hoje.

O que você está vendo aí do seu ponto de vista?

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