Uma moeda regenerativa?

Moedas complementares estão por todo lado, mesmo que muitos de nós não o reconheçamos. De programa de milhagens a "compre 9 brownies carimbando esse papel e o décimo vem de graça", de moedas dentro de comunidades como a Maré, até o WIR, importantíssima moeda que a Suiça tem e poucos sabem, que torna a economia deles muito mais resiliente a crises, ao proporcionar uma possibilidade de troca para o empreendedor suíço para além da moeda do governo local (Franco Suíço/Real/Dólar), que em tempos de crise torna-se escassa e enforca muitas empresas, criando efeitos em cadeia muito chatos (desemprego/violência/falência/etc).

Bernard Lietaer me inspira a pensar ecossistemas monetários ao invés de monoculturas monetárias (que é basicamente o que temos hoje). Muito antes do advento do blockchain (tecnologia por trás do Bitcoin, que talvez seja a mais reconhecida moeda complementar que temos hoje no mundo), Bernard já vinha construindo moedas com designs/arquitetura totalmente diferente dessa que conhecemos (que vou chamar de R$ para simplificar), que é basicamente: dinheiro (+ juros) emitido como dívida por um agente central que na prática acaba sendo em grande parte os bancos comerciais e que é regida pela lógica do risco/retorno que penaliza muito quem tem pouco dinheiro, alimentando um ciclo perverso.

Bueno, vamos parar de bla bla bla e ir à prática… Uma Moeda Regenerativa?

Gostaria de semear uma ideia na rede e ver que tipo de feedbacks voltam (e que tipos de trabalho podem ser criados a partir dela e à despeito de minha participação). Eu não compartilhei ela com ninguém ainda, então deve estar cheia de buracos! Então esse é um jogo de encontre os 7 (ou 70) erros E também o "pegue, remixe e faça um mundo melhor livremente para você e quem você quiser". Vamos lá!

Bernard Lietaer diz que uma boa moeda une uma demanda latente a um recurso que abunda/ocioso. Nesse caso, a proposta é unir a demanda por alimento bom, limpo, justo e barato com a abundância de comida produzida e muitas vezes não aproveitada de uma rede de agricultores sintrópicos/permacultures/similares.

Conversando com estes agricultores ouvia 2 palavrinhas mágicas surgindo bastante: comercial e logística. O campo vai muito bem obrigado, mas depois que o alimento sai do chão…

Muitos amigos da cidade (e eu também) dizem querer uma relação mais próxima e responsável com o alimento. E se endereçássemos essa demanda (por alimentos) e recursos ociosos (os alimentos que apodrecem no campo) com uma moeda complementar? Digamos que o nome dela é Re.

A Re na prática

Imagina que uma rede de pessoas faz seu pedido de orgânicos da semana até sexta-feira num grupo do whatsapp (sem apego à ferramenta, só dando um exemplo prático). O Yuri, um entre dezenas de agricultores bacanudos que fazem parte da rede, desce toda terça para fazer entregas, recebe esses pedidos (e os pagamentos em R$ e Re), e se alinha com a Carol sobre todas as entregas que há para terça. Para cada entrega, Carol vai receber 10 Re. Ela está em transição profissional e faz sentido nesse momento de vida fazer entregas no seu bairro em troca de comida. Essa semana serão 10 entregas, portanto 100 Re. A Carol já possui 50 Re acumulados de outras semanas, portanto ela também inclui seu pedido para o Yuri. Quando Yuri chega no Rio, ele vai direto para a casa da Carol e entrega essas 10 entregas mais a dela lá. No final do dia ela confirma todas as entregas e acumula mais 100 Re. Como as compras dela somaram 30 Re e ela tinha 50, agora ela tem: 50 (já tinha) + 100 (ganhou agora) - 30 (comprou hoje) = 120 Re acumulados para quando quiser usar com qualquer um que usa Re.

A Carol quis dar um passo além e começou a fazer o comercial do Yuri, fazendo sua própria lista do whatsapp de pedidos e combinou agora que ganha 10 Re por entrega + 10% do valor das compras (que são feitas em R$) em Re. Ou seja, além das entregas, ela vendeu R$500 de alimento, recebendo 50 Re, que poderia receber em alimento para comer ou revender para alguém em R$, monetizando esse trabalho dela.

A Carol só cuida do bairro de São Cristovão e o Yuri tem clientes em toda a Zona Sul, por isso ele combinou com um restaurante de comida orgânica que faz entregas em toda a Zona Sul que cada entrega que eles fizessem no tempo que o entregador deles estivesse ocioso (custo próximo de zero para o restaurante), lhes daria 10 Re em créditos. No final do mês, o entregador dessa empresa fez 100 entregas, totalizando 1000 Re, que serão pagos pelos agricultores em comida para o restaurante.

Essa é a Re no seu nível mais simples:

Ela apoia o agricultor a escoar produção que custa muito pouco economicamente (nessa agricultura que estamos falando há pouquíssimo investimento de R$ pois as sementes são produzidas no local/trocadas, não há gastos com pesticidas, adubos e etc, portanto na sua grande maioria os custos do dia a dia são "só" mão de obra mesmo).

Ela torna o produto mais acessível a quem quer compra-lo, pois não se paga frete e aumenta-se a capilaridade da logística, fazendo ele chegar em mais lugares.

A pessoa que faz o frete ganha alimento por faze-lo.

Quem compra pode reduzir o custo em R$ ao se disponibilizar a fazer algumas entregas/ser hub de distribuição/etc.

Fazendo essa roda girar, é possível que o Yuri possa até cobrar menos R$ pelo seu alimento, já que não tem mais trabalho de entrega e está conseguindo escoar mais de sua produção, reduzindo seu "custo de oportunidade", o que retroalimenta o sistema inteiro.

Se alguém quiser desenhar esse ciclo virtuoso aí seria bem legal! A gente poderia inclui-lo aqui no post :)

Isso é a Re cuidando do giro, de fazer a roda girar mais.

Adendo nerd 1: o que nós chamamos em português de "moeda" em inglês são 2 palavras com significados bem diferentes. Coin, que é a moeda física que usamos no ônibus e pesa no bolso e Currency, que é Real, Dólar, Franco, etc. Currency tem a mesma etmologia da palavra "corrente", de fluir. É importante numa moeda que façamos ela fluir. A saúde de uma economia por vezes é melhor explicada pelo FLUXO da moeda mais do que o ESTOQUE dela. Ou seja, quanto foi transacionado e circulou é mais importante do que a quantidade que existe. Ok, feita a pausa nerd e cuidando para não me empolgar, vamos voltar ao assunto central…

A Re para investimentos

Como seria a Re num nível mais sofisticado? Vamos supor que o Yuri quer comprar uma trituradora para melhorar as condições da matéria verde que bota para proteger e nutrir o solo. Ela custa R$10.000 e ele não tem essa grana agora. Ao mesmo tempo, o mesmo restaurante ali de cima quer araruta orgânica, algo que não acha em nenhum lugar. O restaurante poderia adiantar esses R$10.000 e ganhar 11.000 Re + compromisso do Yuri de plantar Y araruta nos seus consórcios. Esses 11.000 Re adquiridos pelo restaurante poderiam já ser usados na próxima semana por ele para compra de alimento de toda a rede que aceita Re. Se ele já gasta por volta de 11.000 Re em alimento por mês, então no próprio mês ele já gasta esses créditos todos (não congela R$ no tempo). O Yuri estaria devendo 11.000 Re, pagamento que ele garante com o alimento que vai sair do seu chão.

Adendo nerd 2: repare a diferença de dinâmica. Quando você pega dinheiro convencional emprestado no banco, vai ter que paga-lo de volta com dinheiro + juros. O mundo tem dinheiro finito e a quantidade de dinheiro que temos é muito menor do que a quantidade de dinheiro que devemos, o que gera uma competição sistêmica que inclusive afeta nosso comportamento, nos tornando mais "egoístas". Nesse caso é só o Yuri cuidar bem da terra pois o sol e todo o ecossistema Gaia estão constantemente adicionando recursos na terra que ele maneja, e que acaba se materializando em diversas coisas para ele e o mundo, dentre elas R$ e Re).

Isso seria a Re na dimensão de viabilização de investimentos. A última dimensão que queria semear é a dimensão da Re que torna serviços (e por que não produtos?) acessíveis aos agricultores, potencializando ainda mais o trabalho deles.

Fechando o ciclo com os Agricultores

Eu estou num momento de vida onde quero botar meu tempo, atenção e conhecimento à serviço dessa rede de agricultores e adoraria receber em Re, pois nem de perto planto tudo o que como. O agricultor João está querendo um tapa nas suas planilhas, um papo para entender melhor seus custos e quer me chamar para apoia-lo, mas não tem R$ para isso. Por isso ele me paga em Re, digamos 500 Re por 3 encontros por skype de 1h. Eu recebi esses Re e posso comprar comida ou até mesmo consultoria do Yuri, reduzindo sua dívida de 11.000 que fez para comprar seu triturador. O João, que agora está devendo Re porque me contratou pode quitar essa dívida fornecendo alimento para o restaurante que estava fazendo entregas para outro agricultor, o Ronny, e que tinha créditos em Re que não queria usar com o Ronny porque o Ronny não tinha todas as batatas doces que o restaurante precisava e que o João tem.

Ideias para empresas "Re-zadas"

Se uma empresa resolve entrar nessa e quer ir um passo além de economizar grana para si, ela pode fazer as entregas e oferecer créditos de Re aos funcionários, que, por sua vez, além de pedidos para si, poderiam pegar demandas de seus vizinhos e ser remunerados em alimento por isso (ou dar desconto para os vizinhos, caso queira). Aí o cara ganha da empresa onde trabalha alimento limpo e consegue em cima disso gerar uma renda complementar levando alimento bom para quem mora perto de si, aumentando também a demanda do agricultor. Isso vale para empresas tipo operadoras de cartão dessas transações, contador do agricultor, o freela que faz a logo de um sítio ou quaisquer outros na cadeia.

Quem emite Re? E o que acontece quando pago minha dívida?

Me parece que seria importante que a emissão de Re fosse distribuída, ou seja, qualquer um pode emiti-la para realizar uma transação, contanto que essa transação seja aceita pela outra pessoa. Ou seja tem sempre 2 lados (o do débito e o do crédito) validando-a, sem nenhum agente central avaliando o risco daquela transação.

Podemos até fazer regras gerais tipo no início o máximo que um agente do sistema pode dever é 500 Re, para evitar grandes buracos. Depois de circular 1500 Re o limite vai para 3.000 Re, e por aí vai. Esses acordos podem ser legais se alguém estiver inseguro demais com a fluidez da vida. Eu particularmente confio bastante na vida e deixaria livre no início para entender como a história evolui, mas é uma possibilidade (entre muitas outras) para trazer mais percepção de segurança para quem quer.

A Re é uma moeda que vive ciclos que podem ser muito curtos. Quando um agricultor paga seu entregador 20 Re, no final do dia ela já terá sido usada por ele para levar comida para casa e a moeda morre, para renascer de novo em outro ciclo, assim como o alimento, que vira cocô e volta para o ciclo orgânico da vida. Se o entregador resolve economizar para sua ceia de Natal, então ele pode acumular, e quando chegar o grande dia, elas serão transformadas em cenouras, mandiocas e o que mais houver. Ao contrário do R$, dólar e etc, no caso da Re a soma dos valores devidos = soma dos créditos. Sempre que um crédito é usado, uma dívida é sanada. Talvez um agricultor tenha produzido muito e não tenha gente querendo comprar todo o coentro que ele produziu (claro, né? Foi plantar coentro por que?!?! ;) ). Nesse caso ele poderia botar um preço em Re super baixo para o coentro, faze-lo rodar e ganhar créditos para no futuro poder comprar entregas ou serviços de consultoria.

Ou seja, a ideia não é necessariamente aumentar a quantidade de Re em circulação. A moeda é meio, não fim. A ideia é fazer o alimento produzido circular, aumentar a rede de entregadores, o acesso a esse alimento e também o acesso do agricultor a outros serviços e investimentos.

O preço de cada alimento pode ser: (a) R$1=1Re, (b) o produtor pode privilegiar um alimento que sai pouco em Re e deixa-lo bem barato, ou ( c) tirar do mercado Re algo que sai muito, tipo "Couve só se compra em R$", aumentando seu ganho financeiro e cuidando para botar o que gira pouco para girar. Eitcha frase confusa! Botando um exemplo prático para esclarecer:

a. 1 molho de Couve = R$5,00 ou 5 Re ; ou,

b. 1 molho de Couve = R$5,00 e não dá para comprar em Re ; ou,

c. 1 molho de Couve = R$5,00 ou 2 Re

Pode, é claro, ser tudo isso ao mesmo tempo e cada um decide como faz :)

Vale ressaltar que o dinheiro que entra em R$ (exemplo triturador) será usado em R$ com algum fornecedor (a indústria que produz o triturador), a dívida será paga em comida e os créditos do restaurante que investiu também serão utilizados em comida, e eventualmente zerados.

Esse é um resumão da ideia.

Gostaria de saber como isso soa para atuais e possíveis agricultores, entregadores, consumidores/prossumidores de orgânicos e exploradores de moedas complementares. O que eu não vi? O que precisa ser desenvolvido para essa ideia ser boa para todos os envolvidos? Podemos seguir colaborando nos comentários aqui ou em qualquer outro meio que vocês acharem mais produtivo. A ideia está lançada! Como ela chega aí desse lado? :)

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